Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Solta dura: Luso e Lítio vão experimentar a liberdade

  • 333

Dois linces ibéricos foram soltos esta quinta-feira. É a primeira vez que a chamada “solta dura” - sem aclimatização em espaço controlado - é aplicada em território nacional. 

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Créditos: ICNF

Os dois machos, de um ano de idade, não terão o amortecedor que foi concedido aos outros oito, libertados desde dezembro de 2014. Luso, nascido no Centro de Reprodução em Cativeiro em Silves, e Lítio, oriundo de um centro semelhante em El Acebuche (Espanha), são a quinta parelha a ser solta na Herdade das Romeiras, no concelho de Mértola. E a última desta temporada. 

Luso e Lítio não irão para o cercado temporário, como os antecessores, onde teriam alimento quase garantido e maior proteção. Ficam em liberdade a partir desta quinta-feira em campo aberto, sem redes a limitarem-lhes os movimentos e a ter de fazer pela vida.   

É a primeira vez que a chamada “solta dura” - sem aclimatização em espaço controlado - é aplicada em território nacional. E tem riscos. Dos 10 animais libertados na Herdade das Romeiras, oito foram por "solta branda", ou seja, foram primeiro para o cercado. Para já só houve uma baixa, a da fêmea Kayakweru, que morreu envenenada a 12 de março numa propriedade florestal para os lados de Almodôvar, duas semanas após ter saído do cercado das Romeiras. 

As investigações sobre o sucedido continuam a decorrer. Aparentemente não há suspeitos indiciados. A brigada cinotécnica vinda de Espanha, que palmilhou o terreno há cerca de um mês, "encontrou dois outros animais mortos e aparentemente envenenados - uma galinha, que pode ter servido de isco, e uma fuinha", apurou o Expresso junto de fonte da GNR. A partir de junho, o serviço de proteção da Natureza da GNR (SEPNA) já deverá ter disponíveis os cães pastores belgas que ajudarão a detetar venenos nos campos como medida preventiva.

Fantasma do Matagal

Entretanto passaram 100 dias desde que o primeiro casal, Jacarandá e Katmandu, foram libertados na Herdade das Romeiras. Os dois animais continuam a revelar um comportamento que prova o "match" bem conseguido. Mas não há sinais de crias.   

Também a terceira e a quarta parelhas, Loro e Liberdade (soltos a 4 de março) e Lluvia e Lagunilla (libertadas a 28 de abril) continuam a deambular pela Herdade das Romeiras, mas cada um para seu lado. "Demonstram uma adaptação positiva com comportamentos normais e captura de coelhos bravos", refere o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) em comunicado, com base na informação dos técnicos que no terreno monitorizam os animais e os seguem através dos sinais emitidos pelas coleiras de rádio.  

Já Kempo, libertado ao mesmo tempo que Kayakweru, seguiu outro percurso para leste, tendo saído das Romeiras em direção ao coração do Parque Natural do Vale do Guadiana, onde aparentemente encontrou um novo lar. 

Aos animais que continuam nas Romeiras juntam-se agora Luso e Lítio, que talvez venham a acasalar com as fêmeas que já por lá estão ainda sem par. Mas "o fantasma do matagal", como é conhecido o lince ibérico, é um animal solitário e os oito que ali estão nunca formarão uma comunidade.

Novos episódios

O ministro do Ambiente, Jorge Moreira da Silva, aproveita a ocasião para apresentar o novo Plano de Ação para a Conservação do Lince Ibérico em Portugal (PACLIP). 

O objetivo é "estabelecer uma população selvagem e viável, numa área geográfica que faz parte da sua área de distribuição histórica, regressando assim à coexistência milenar com os humanos". Para isso, o plano estabelece estratégias e metas definidas para o futuro, que passam por conservar os ecossistemas adequados à espécie, por medidas para recuperar as populações de coelho-bravos (o seu principal alimento), que está a ser atingido por uma doença hemorrágica, e  minimizar os conflitos com o homem e, deste modo, as causas antropogénicas de mortalidade na natureza. Por outro lado, o plano visa manter viável a população cativa do centro de reprodução em cativeiro de Silves (CNRLI), assim como o Banco de Recursos Biológicos da espécie, e continuar a preparar exemplares para reintrodução futura, entre outras medidas. 

Para que a população de lince ibérico seja viável em território nacional "é necessário ter 50 fêmeas estabilizadas no território", explica o ICNF. Para já há quatro fêmeas a deambular pelo Alentejo, o que significa que a série terá pelo menos umas cinco temporadas.  

Ainda não se sabe quando nem onde ocorrerá a próxima, mas prevê-se que comece no final do ano a nova temporada de reintrodução em habitat natural da espécie de felino mais ameaçada do mundo. A libertação em áreas de distribuição histórica "resulta da estreita colaboração e articulação com Espanha e é possibilitada por uma importante colaboração com parceiros locais", sublinha o ICNF. 

O cenário não será o das Romeiras, mas continuará a ser o Alentejo, provavelmente a zona do Guadiana ou de Moura-Barrancos. Mas há outras áreas de incidência histórica da espécie, como as serras do Caldeirão ou de Monchique ou o Barrocal algarvio; ou mais para norte, a zona Raiana que vai de São Mamede à Serra da Malcata, que poderão, no futuro, ser o cenário de novos episódios.