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Os dias de uma enfermeira portuguesa num país escondido do mundo, onde a chuva é festejada

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Quando Ana pensou deixar Portugal tinha 52 anos. Vive na Arábia Saudita há três, onde a nacionalidade condiciona o salário. Precisa de um motorista para andar de carro e de um intérprete para o contacto com os doentes, mas diz que não se arrepende da decisão que tomou. O que mais a aflige é a ideia da proibição. “Nada do que para nós é natural é natural aqui.”

Desafiar os seus limites e experimentar algo completamente diferente levaram-na até à Arábia Saudita. Há 30 anos que trabalhava como enfermeira em Portugal e recebia menos de mil euros limpos por mês. “Com a carreira a marcar passo há anos, sem possibilidade de progresso e sem perspetivas de melhoria, convenceram-me sem grande necessidade de persuasão.”

Ana Sousa Passos tinha um filho quase a ir para a faculdade e, aos 52 anos, decidiu deixar Portugal pela primeira vez. “Pelo que pesquisei antes de aceitar a proposta, a Arábia era tão, mas tão diferente que resolvi aceitar o desafio.” Antes de decidir, ainda tentou ir para a Suíça, mas disseram-lhe que saía “muito cara” devido à experiência que tinha – 26 anos como enfermeira em hospital e quatro anos em saúde comunitária. Depois dessa resposta, não tentou mais nenhum sítio e partiu para Riade, capital da Arábia Saudita, onde vive há três anos.

“A vida é tão diferente que, mesmo que se descreva, só entende bem quem vive a experiência”, conta Ana, por e-mail. Em todos os contactos que faz com os doentes, é sempre acompanhada por um intérprete. “Às vezes pergunto-me quanto fica por dizer, o que é que é dito, quanto terá que ver com o que me saiu da boca.” Entra por volta das sete da manhã, sai às cinco da tarde, não faz noites e trabalha um fim de semana por mês.

Uma das características do seu trabalho é que muitos dos doentes que acompanha, de todas as idades, estão em casa e não no hospital. “Vejo-os no conforto e privacidade das suas casas. Os cuidados “home health care” aqui nada têm que ver com os cuidados domiciliários em Portugal. Aqui fazem-se coisas que se fazem no hospital, há doentes ventilados em casa, com doenças genéticas e metabólicas que só conhecia de livro.”

Há duas coisas que a incomodam quanto às condições de trabalho: as exceções que todas as regras têm e o “excesso de desperdícios”. “Há oficialmente várias categorias de VIP, registadas nos processos dos doentes. Não há leis de trabalho que se nos apliquem, nem greves. Quem estiver mal tem direito a rescindir a qualquer altura.”

Permissão para viajar sozinha

Como muitos outros médicos e enfermeiros, Ana vive numa das residências a cargo do hospital, sempre com segurança armada e controlo de entradas. “Nos ‘compounds’ do meu hospital não entram homens, a não ser os senhores da manutenção – jardineiros, canalizadores, eletricistas. Não pagamos luz, nem água, apesar de a água ser mais cara que a gasolina. Fundiu-se uma lâmpada? Entupiu-se um cano? Há formigas na cozinha? Liga-se para a manutenção e alguém aparece.” Não pagam impostos e tanto os médicos como os enfermeiros-chefe podem levar a família com eles, ao contrário de todos os outros abaixo na hierarquia.

As limitações para as mulheres são muitas e uma delas é não poderem conduzir. Por isso, para todas as suas deslocações, Ana depende de um motorista. “No carro temos uma carta assinada pelo rei dizendo que somos funcionários do hospital e que me é permitido viajar sozinha, caso a polícia religiosa decida meter-se connosco. Legalmente, só podemos andar de carro com um motorista ou com um marido, irmão ou pai. Apanhar uma boleia com um amigo ou partilhar um táxi do aeroporto está fora de questão se não quisermos arriscar uma noite de cadeia.”

A sua maior preocupação, como conta, não é não poder conduzir, não poder beber um copo de vinho enquanto cozinha ou uma cerveja ao final da tarde. “A minha maior aflição é a ideia da proibição, a necessidade de controlar o nosso comportamento natural porque nada do que para nós é natural é natural aqui: abraçar alguém, dar um beijo a um amigo, marcar um jantar de aniversário em casa, sair espontaneamente à hora que nos dá jeito, sentarmo-nos numa esplanada a beber um café, ir à loja dos telefones ou ao banco, nada disso tem um pingo de espontaneidade. As saídas têm de ser combinadas com o motorista, apartadas das horas da reza em que tudo fecha.”

Ana conta que não se arrepende por “um segundo que seja” da decisão que tomou, apesar de tudo o que caracteriza o dia a dia ser tão diferente da vida que levava. “Tenho aprendido uma forma sofisticada de lidar com a extrema ‘flexibilidade’ dos horários das lojas, com a lentidão, com as diferenças. Tenho conhecido gente corajosa e interessante, e tenho visto o que posso deste país escondido do mundo.” 

Onde a chuva é festejada

Os ordenados variam consoante a origem do enfermeiro. “Claro que o ambiente é esquisito se as pessoas têm de fazer o mesmo e recebem um quinto das outras”, conta. Se no topo estão as enfermeiras americanas e canadianas, no extremo oposto ficam as filipinas e indianas. As europeias, australianas e neozelandesas ficam no meio e os valores variam entre os 3.000 e 20.000 riais sauditas por mês (ou seja, entre 700 e 4.700 euros).

Apesar de já pensar em mudar de destino, perspetivas de voltar a Portugal não existem. “Não me parece que volte. Só mesmo mudar de geografia, mas para casa não. Só se quisesse viver à custa da minha mãe. Ela tem 80 anos, eu 55, e a reforma dela é maior do que o meu ordenado.”

Até aos 52 anos, nunca antes tinha pensado em emigrar. “No sentido que lhe conhecia, daqueles emigrantes tradicionais de antigamente, que viviam uma vida cheia de sacrifícios para mandarem todos os tostões para casa... Não me sinto uma emigrante nesse sentido: não guardo dinheiro aí, nem noutro lado qualquer, e sinto que vivo noutro sítio do mundo.”

E o que espera da carreira? “Sempre fiz o que me deu prazer em termos de trabalho, sem considerar muito ‘a carreira’ em termos de progressão. Quando a falta de progressão, pelo menos económica, se tornou obrigatória, rebelei-me”, responde.

“Tenho pena que na minha terra não nos tratem como merecemos, é verdade. Mas tenho aproveitado tudo o que este país me proporciona e às vezes até tenho um certo carinho pela terra agreste e perigosa, mas bela na sua aridez, onde a chuva é festejada tanto por adultos como por crianças.”

  • O momento histórico já tem algumas respostas

    Trata-se de um fenómeno que é encarado com um “momento histórico”: o número de enfermeiros portugueses a trabalhar no Reino Unido aumentou cinco vezes em quatro anos. Só que até agora pouco se sabia sobre eles.