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O momento histórico já tem algumas respostas

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José Ventura

Trata-se de um fenómeno que é encarado com um “momento histórico”: o número de enfermeiros portugueses a trabalhar no Reino Unido aumentou cinco vezes em quatro anos. Só que até agora pouco se sabia sobre eles.

Recém-licenciados, com menos de 29 anos, solteiros, à procura do primeiro emprego e recrutados por uma agência inglesa: eis as características mais comuns dos enfermeiros portugueses que emigraram para o Reino Unido e que lá trabalham atualmente. O perfil é traçado pelo Observatório da Emigração, que publicou esta terça-feira o artigo “Enfermeiros Portugueses no Reino Unido 2014”.

O número de portugueses a trabalhar como enfermeiros no Reino Unido aumentou cinco vezes em quatro anos. Só que até agora pouco se sabia sobre eles. Que idade têm? O que os leva a partir? Já trabalhavam em Portugal ou acabaram de sair da faculdade? Tencionam voltar? Foi a essas perguntas que Nuno Pinto, enfermeiro português a viver há dez anos no Reino Unido, quis responder. No portal que ele próprio ajudou a criar – “Diáspora dos Enfermeiros” – lançou um inquérito ao qual responderam 349 enfermeiros, o que corresponde a cerca de 11% do total de portugueses inscritos na Ordem dos Enfermeiros no Reino Unido (3.155), embora nesse número possam estar incluídos casos de quem já tenha regressado a Portugal ou tenha emigrado para outros países.

Com base nas respostas ao inquérito, conclui-se que 81% dos enfermeiros têm até 29 anos. Só 15% têm idades entre os 30 e os 47 anos. “Estamos perante uma população de profissionais maioritariamente composta por jovens”, lê-se no artigo de análise ao inquérito, elaborado em colaboração com o Observatório da Emigração e publicado precisamente nesta terça-feira em que se assinalou o dia internacional do enfermeiro.

Os dados mostram que do total de inquiridos 80% são solteiros, 11% casados e 6% vivem em união de facto. Quase três quartos dos enfermeiros terminaram o curso depois de 2009. Metade estava à procura do seu primeiro emprego e a larga maioria (82%) foi trabalhar para o Reino Unido através de agências empregadoras, sobretudo inglesas.

“Quem conhece a realidade da enfermagem e do elevado nível de desemprego jovem em Portugal percebe que a melhor opção para estes jovens profissionais será partir em busca de novas experiências profissionais”, diz Nuno Pinto ao Expresso, por e-mail.

Segundo os números da Ordem dos Enfermeiros, citados por Cláudia Pereira, investigadora do Observatório da Emigração, formam-se em Portugal entre 3.000 a 3.500 enfermeiros todos os anos. “Mais de metade tem pedido equivalência profissional para poder emigrar. Dos que tencionam emigrar, cerca de metade escolhe o Reino Unido como país de destino.” O aumento de enfermeiros portugueses com menos de 30 anos a deixar o país revela que “este grupo profissional está a viver um momento histórico”.

Aventura e afirmação

Aos olhos de quem emigrou para o Reino Unido em 1978 para estudar enfermagem, estes números refletem várias questões. Isabel Melo deixou Portugal aos 22 anos e foi tirar o curso de enfermagem em Inglaterra. “Tomei essa decisão porque, tal como agora, as oportunidades em termos de saídas profissionais eram limitadas. O Reino Unido foi uma opção atraente porque tinha familiares aqui e senti que não estaria completamente sozinha.”

Isabel trabalhou como enfermeira em Inglaterra até 1988, quando criou uma empresa privada, em conjunto com dois psiquiatras, para prestar serviços residenciais para adultos com dificuldades de aprendizagem, saúde mental e necessidades complexas.

Nos números do inquérito do Observatório da Emigração, Isabel vê refletida “a falta de oportunidades profissionais estáveis” em Portugal. “Não tenho dúvidas de que muitos veem igualmente uma experiência profissional no estrangeiro como uma mais-valia para o desenvolvimento da sua carreira”, acrescenta, defendendo que é sempre possível associar um “certo sentido de aventura e a vontade de afirmação da sua independência”.

Mas há outra questão. “Se os números são elevados, isso também se deve à procura que existe por parte dos países de acolhimento e que se explica, em parte, pelo reconhecimento das competências profissionais dos nossos jovens enfermeiros.”

Para muitos enfermeiros jovens, diz Cláudia Pereira, emigrar permitiu que progredissem profissionalmente. E ainda que metade dos emigrantes estivesse à procura do primeiro emprego, quem já estava a trabalhar decidiu partir por não ver possibilidade de progressão, “tanto os que estavam a recibos verdes, com dois empregos – num hospital e em clínicas –, como os que tinham contratos de trabalho indeterminados.”

E quando se fala em regresso, o que diz o inquérito? Metade dos enfermeiros declarou intenção de regressar a Portugal para continuar a sua carreira profissional. Um terço respondeu que apenas tinha intenção de regressar quando se reformar, menos do que os que declararam não querer regressar (23%). “O facto de a maioria dos inquiridos ter uma história recente e curta de emigração explica o predomínio das intenções de regresso, comum nestas situações”, explica o Observatório.

“Uma parte significativa destes enfermeiros está a enraizar-se nos países de acolhimento e não regressará durante a idade ativa”, aponta Cláudia Pereira. O regresso dependerá de encontrar emprego em enfermagem em Portugal ou ter condições de mobilidade profissional, “mas a situação atual de carreiras congeladas e as poucas vagas de emprego na área não favorecem o seu retorno”.

  • Quando Ana pensou deixar Portugal tinha 52 anos. Vive na Arábia Saudita há três, onde a nacionalidade condiciona o salário. Precisa de um motorista para andar de carro e de um intérprete para o contacto com os doentes, mas diz que não se arrepende da decisão que tomou. O que mais a aflige é a ideia da proibição. “Nada do que para nós é natural é natural aqui.”