Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Carlos Reis, um defensor do Acordo Ortográfico. "Não temos de falar como os brasileiros"

  • 333

Professor no Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas da Universidade de Coimbra e um dos maiores defensores do Acordo Ortográfico de 1990

Como especialista em Eça de Queirós, não fica chocado ao ler um texto do autor com as regras do acordo?
De forma alguma. Já não líamos os textos de Eça de Queirós como o autor os escreveu, o que nunca constituiu um problema.

Pode o Governo determinar como falam as pessoas?
Se assim não fosse, as gramáticas, dicionários ou prontuários ortográficos perderiam qualquer sentido. A sua existência, associada ao ensino regido por programas que o Estado aprova, confirma que a língua é um sistema comunicativo complexo que, sendo aberto a derrogações que vão sendo introduzidas pela prática corrente e pela criação literária, não passa sem regulação.

O Acordo Ortográfico visa unificar a língua portuguesa?
Não, traduz um propósito político de conferir ao idioma a unidade possível, esbatendo as diferenças ortográficas.

Os portugueses foram engolidos pelos brasileiros?
Não temos de falar como os brasileiros! O acordo é sobre ortografia.

Porquê tantas reações negativas?

Tornou-se uma questão passional.

Sempre considerei a ortografia algo epidérmico, que interfere com a imagem da língua, mas não afeta a essência.

Há 40 anos, Portugal mandava na língua. Mas, nestas quatro décadas, dois acontecimentos foram decisivos: a língua passou a ter valor económico e Portugal perdeu a propriedade. Já não somos proprietários, passámos a condóminos, somos nós e mais sete países. Muitas pessoas ainda resistem a esta ideia.

Há professores de Português que se recusam a seguir as novas regras.

Essas pessoas podem ter as opiniões que quiserem, mas têm de seguir o programa definido.

O Acordo Ortográfico é o maior problema da língua portuguesa?

Lamento dizê-lo, mas estamos a falar de um país que não teve, não tem e aparentemente não terá uma política de língua.

Falta definir uma política articulada com o Brasil, país que tem outras formas de afirmação internacional que Portugal não tem, e estabelecer uma pedagogia não demagógica sobre o acordo. Os sucessivos governos nunca o abordaram de forma séria. O acordo foi tratado com total irresponsabilidade política.

Os alunos serão prejudicados nos exames? É melhor recuar?

Já sabiam há quatro anos que ia ser assim. Se não se prepararam foi por má-fé dos professores ou preguiça dos alunos. Recuar seria desastroso, acabando com o que resta de coesão no espaço da língua portuguesa.

Afinal, o que foi mais grave para a lusofonia: o acordo ou a entrada da Guiné Equatorial na CPLP?