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A trágica coincidência de um incêndio que aconteceu depois de outros oito

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Getty Images

Escreveu-se que o futebol nasceu por lá, em Inglaterra. A história atribui grandes feitos e enormes desilusões, enormes conquistas e grandes desapontamentos àqueles campos britânicos. Que também viram tragédias, como a de Bradford, acontecida há três décadas e que tem novos desenvolvimentos por via do menino-coragem.

Luís M. Faria

Ocorreu no estádio do Bradford e derivou de um incêndio: 56 pessoas morreram, 256 ficaram feridas. Foi há precisamente 30 anos, cumpridos esta segunda-feira. O acidente ficou na história como um dos maiores de sempre deste género em território britânico, a par com o de Hillsborough, em 1989, quando 96 adeptos do Liverpool morreram esmagados ao tentarem sair do recinto sobrelotado. 

Investigações recentes ao incêndio concluíram que tinha ficado escondida uma parte importante dos factos. Algo sinistro parece estar a descobrir-se em relação aos eventos de Bradford, no dia do jogo entre a equipa local e o Lincoln City, ambas da III Divisão.

Um fã que tinha então 12 anos e se encontrava no estádio quando o acidente aconteceu resolveu procurar a verdade. Martin Fletcher perdeu nesse dia o pai, o avô, um irmão e um tio. Na altura, a imprensa chamou-lhe menino-coragem. Ele conta que a sua mãe nunca acreditou na versão oficial de que o incêndio fora um acidente. Susan Fletcher achava que o dono do clube o tinha provocado intencionalmente, por questões financeiras. O empresário Stafford Heginbotham era uma figura popular na cidade, mas tinha uma certa fama de usar incêndios para resolver os seus problemas de negócios. 

Essa era a fama, mas pelos vistos no inquérito oficial, que começou três semanas depois e durou uns meros cinco dias, ninguém falou disso. O juiz que presidia, Oliver Popplewell, ouviu dezenas de testemunhas e não teve dúvidas em concluir pela tese do acidente. “Estou bastante seguro de que chegámos à conclusão certa”, disse ele recentemente. 

Popplewell falava assim em resposta ao livro que Martin Fletcher acaba de publicar, e no qual revela que antes de maio de 1985 já tinham ardido em circunstâncias misteriosas nada menos do que oito empresas pertencentes a Heginbotham. 

Coincidências suspeitas

“Fifty Six – The Story of the Bradford Fire” (Cinquenta e Seis – A História do Incêndio de Bradford) tem origem numa conversa de Fletcher com a sua mãe, anos após o desastre. Ela confessou-lhe não acreditar que tivesse sido um acidente, e acrescentou: “Não penso que Stafford tencionasse que pessoas morressem. Mas pessoas morreram. Tudo porque ele recorreu à única coisa que ele sabia que o podia livrar de sarilhos”.

Os sarilhos eram financeiros. Heginbotham estava endividado e sem dinheiro, e havia o risco de o clube não poder pagar salários. Já anteriormente se tinha visto em apertos do tipo, e a solução, ao que parece, fora sempre a mesma. Em 1967, um fogo destruiu uma fábrica dele, e em 1968 outro em que ele era diretor-gerente. Seguiram-se mais fogos em 1971 e 1977 (três num só ano) e outro em 1981. 

Em todos ou quase todos os casos, ele conseguira receber pagamentos vultuosos das companhias de seguros. Assim aconteceu igualmente após o incêndio no estádio, onde lhe pagaram o equivalente a milhões de libras atuais. O juiz Popplewell invoca esse facto para justificar as suas certezas em relação à falta de culpa do empresário; as companhias de seguros são extremamente desconfiadas e jamais teriam aceitado uma versão em relação à qual existissem dúvidas. 

Mas o juiz admite que a história prévia de fogos de Heginbotham é altamente suspeita. Mas jamais foi referida durante o inquérito realizado na altura. Que este tenha acontecido escassas semanas após os eventos, e tenha durado uns meros cinco dias, são aspetos que agora levantam suspeitas. 

As autoridades tinham avisado 

Uma coisa é certa: as autoridades tinham avisado sobre os riscos de incêndio antes da tragédia de Bradford. E a investigação policial que se lhe seguiu encontrou, por baixo das bancadas de madeira, lixo com mais de vinte anos.

Segundo a conclusão oficial, terá sido um cigarro atirado para cima desse lixo a desencadear as chamas. Fletcher não acredita, mas também não acusa diretamente o dono do seu clube. Nota apenas que quando a sua mãe exprimiu as dúvidas que tinha, a família começou a receber ameaças anónimas. 

Ele não diz, até por não ter provas, que o estádio foi deliberadamente incendiado. Refere apenas os factos da história pessoal do empresário, e pergunta: “Poderá um homem realmente ser tão azarento como Heginbotham foi?”. 

Cabe às autoridades decidir se reabrem o processo.