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Sociedade

A era do tratamento 
à medida de cada um

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Ilustração de uma nanocâmara na corrente sanguínea. A escala atómica será cada vez mais utilizada

Science Pictures C. / Corbis

Cientistas de todo o mundo têm milhões para nos fazer viver mais. Mas há limites...

Dez anos em Ciência é muito tempo, mas há duas realidades que é possível antecipar: vamos viver mais e ter mais doenças. Porém, não significa que a qualidade de vida piore aos 90 ou aos 100 anos; as indústrias de medicamentos, biotecnologia e dispositivos médicos, entre outras, vão fazer descobertas que poderão aliviar e retardar o curso das doenças.

“Vamos passar de dois milhões para três milhões de idosos dentro de 30 anos e as doenças crónicas estão já a crescer cerca de 1% ao ano na população geral e de 2,5% entre os idosos. Vai ser avassalador”, antecipa Luís Campos, presidente do Conselho Nacional para a Qualidade em Saúde (CNQS). As demências neurodegenerativas, como Alzheimer, vão aumentar a par com os anos de vida que ganharemos. 

O presidente do Colégio de Neurologia da Ordem dos Médicos, José Barros, não vê no futuro próximo a cura para os males da velhice do cérebro. “Os grande avanços vão ser no que sabemos sobre os defeitos celulares, moleculares e genéticos que estão detrás das doenças, permitindo melhorias, mas apenas no tratamento.”

Todos os dias surgem sinais de esperança e promessas de cura. O estudo publicado no “Journal of Neuroscience”, da Duke University School of Medicine, sugere ter encontrado a causa da doença de Alzheimer e aponta até para o uso de uma nova droga (DFMO). Mas a tendência é outra: “A de que a maior parte dos novos medicamentos sejam aperfeiçoamentos de alguns existentes e modificações na administração”, explica Luís Campos. 

Mesmo sem grandes inovações, será uma evolução suficiente para dar o grande passo esperado, aquele que levará a uma medicina à medida de cada doente. E um dos caminhos para lá chegar é o da biotecnologia.

A abundância de dinheiro nos mercados financeiros está a acelerar os avanços na medicina e no sector farmacêutico. Procuram-se medicamentos milagrosos para curar doentes sem esperança e a nova geração de empresas tem valorizações ‘estratosféricas’. 

Há poucas semanas, o somatório da valorização bolsista da Gilead, Amgen, Biogen, Celgene e Regeneron foi superior a 500 mil milhões de dólares, ultrapassando nomes como GlaxoSmithKline, Sanofi ou Eli Lilly. Algumas já produziram drogas revolucionárias para tratamentos de imunoterapia ou para curar a hepatite C.

Igualmente promissoras são as nanotecnologias (dispositivos à escala do átomo). “A realidade ‘nano’ terá cada vez mais lugar no cancro e em outras doenças com processos semelhantes. Permite-nos colocar numa nanopartícula — feita, por exemplo, a partir de uma espécie de bola de gordura — o medicamento e guiá-lo com precisão até ao local a tratar. Hoje a viagem do fármaco ainda é caótica”, simplifica João Nuno Moreira, investigador do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra.

Até a Google, o gigante da internet, está a apostar nesta área. O projeto Google X pretende criar uma cápsula para colocar nanopartículas no fluxo sanguíneo para detetar doenças e mutações cancerígenas. 

À “Bloomberg Businessweek”, Bill Marris, presidente da capital de risco da Google, afirmou de forma categórica que vai ser possível viver até aos 500 anos. Tem 425 milhões de dólares para investir este ano em biotecnologia para desenvolver fármacos que permitam desacelerar o envelhecimento. Outro investimento em curso pela Google Ventures, e que tem sido muito badalado, está a ser feito na Calico — um centro que investiga como reverter a idade. 

A questão que agora se coloca é se os sistemas de saúde vão conseguir eles próprios sobreviver. “Estamos no início de uma nova era, em que a inovação vai trazer mais esperança de vida e mais curas e a sociedade vai exigir ter acesso. Esta mudança está a acontecer, é muito grande e todos vamos ter de nos sentar para pensar num novo modelo”, adverte João Almeida Lopes, presidente da Apifarma.

A própria organização da assistência terá de mudar, para encaixar todas as exigências e inovações que estão para vir. “Os hospitais não poderão ter ‘paredes’; têm de estar disponíveis para perder protagonismo a favor dos cuidados primários e continuados e dos autocuidados”, afirma Marta Temido, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares. Em Portugal, a Fundação Champalimaud já deu um passo neste sentido. Vai avançar com um projeto para tratar em casa doentes com cancro.