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Tempestade no Atlântico. A megaoperação que durou 34 horas

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Cinco aviões, três navios mercantes, um navio hospital e uma corveta. Foram estes os meios que permitiram salvar das águas agitadas do Atlântico 12 tripulantes de cinco veleiros. Uma menina de seis anos, depois de resgatada, não sobreviveu. 

Carlos Abreu

Jornalista

Madrugada de 6 de maio, quarta-feira. Uma violenta tempestade toma de assalto cinco veleiros que cruzavam o Atlântico Norte em direção à Europa, 500 milhas a sul do arquipélago dos Açores. Ventos a rondar os 90 quilómetros por hora e vagas de 10 metros. Depressão cavada.

Os pedidos de auxílio começaram a chegar ao Centro de Busca e Salvamento Marítimo de Ponta Delgada, que, em articulação com o Centro de Coordenação de Busca e Salvamento Aéreo das Lajes, lança uma megaoperação de busca e salvamento que começou às 02h do dia 6, quarta-feira, até às 12h25 desta quinta-feira, 7 de maio.

Revela a Marinha em comunicado que o primeiro resgate terá ocorrido pelas 18h de quarta-feira. O helicóptero EH-101 da Força Aérea Portuguesa seguiu ao encontro de quatro tripulantes, com idades compreendidas entre os 40 e os 60 anos, que seguiam a bordo do Kolibri, um veleiro de bandeira norueguesa com o mastro partido e sem comunicações. Foram levados para a Horta. Sãos e salvos.

Uma hora depois, os dois tripulantes, de 50 anos e de nacionalidade Sérvia, que seguiam no “Manca 3”, com bandeira dos EUA mas “sem capacidade de governo”, eram também resgatados, neste caso pelo navio mercante “Archangelos Gabriel”, dirigindo-se para Malta.

Por esta altura (19h de quarta-feira, dia 6), também estariam a subir a bordo do navio mercante com destino a Nova Iorque, o Cafer Dede, os dois tripulantes de 45 e 56 anos, de nacionalidade espanhola e italiana, do veleiro Gandul. O leme estava partido. Mas o pior ainda estava para vir.

Pelas 02h do dia 7, deflagrou um pequeno incêndio a bordo do veleiro de bandeira Francesa, o Reves D’o, e os quatro tripulantes com idades compreendidas entre os 6 e os 37 anos, de nacionalidade francesa, acabaram por abandonar a embarcação, engolida pelas águas do oceano. Mãe e filho, que permaneciam numa balsa salva-vidas, foram resgatados pelo navio mercante Yuan Fu Star, de Hong Kong. Pai e filha, uma menina com seis anos, caíram à água e foram dados como desaparecidos.

Um P-3C Cup+ da esquadra 601 recebe ordem para descolar. Missão: localizar os dois náufragos. Ao raiar do dia, duas horas depois de terem começado as buscas, localizam-nos. E lançam nas proximidades um “kit de sobrevivência” que lhes serviu de abrigo até à chegada, pelas 9h30, do navio hospital espanhol Esperanza del Mar.  Mais de sete horas à deriva nas águas do Atlântico Norte acabariam por serem fatais para a criança.

Informa ainda a Marinha que houve pedido de ajuda de um veleiro de bandeira sueca, o Missy 32, com dois tripulantes a bordo, que se encontrava em risco de virar. Depois de terem contactado o navio hospital espanhol, dispensaram assistência e decidiram prosseguir viagem. Balanço final: 12 pessoas resgatadas. Uma vítima mortal a lamentar.

Nesta missão, que durou cerca de 34 horas, estiveram envolvidas duas aeronaves C-295M, um P3 Orion e um helicóptero EH-101 Merlin da Força Aérea Portuguesa e uma aeronave C-130J da Guarda-Costeira norte-americana (nos Açores, no âmbito do exercício de busca e salvamento SAREX 15), bem como a corveta Jacinto Cândido.

Ao final da tarde de quinta-feira, em comunicado, a Marinha veio “agradecer e enaltecer a extraordinária colaboração dos meios envolvidos nesta operação, que foi conduzida sob condições atmosféricas a todos os níveis extraordinariamente adversas”.

Durante o ano passado, foram salvas 40 vidas nas 156 missões de busca e salvamento realizadas em conjunto pela Força Aérea e pela Marinha nos Açores.