Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Já pode ver no mapa quais as plantações transgénicas próximas de si

  • 333

A par de Espanha e da República Checa, Portugal é dos poucos países da União Europeia onde ainda se cultivam transgénicos

Scott Olson/Getty Images

 A Plataforma Transgénicos Fora colocou online o mapa nacional da distribuição de campos onde se cultiva milho geneticamente modificado. Foram precisas cinco ações em tribunal para o Ministério da Agricultura disponibilizar a informação. 

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Dez anos depois do início de cultivo de milho transgénico, só agora é que os portugueses podem saber por onde se espalham as 277 explorações de milho-Bt (OGM). Eram apenas 38 em 2005, mas proliferaram e ocupam na atualidade já 8542 hectares. 

A informação está disponível, a partir desta quinta-feira, no site da Plataforma Transgénicos Fora, que junta várias organizações não-governamentais ligadas ao Ambiente. O objetivo dos ambientalistas é que "o público português ganhe consciência dos vizinhos que não sabia que tinha à porta e pressione o Governo no sentido da proibição total do cultivo deste milho transgénico e da aposta numa produção alimentar mais sustentável, de melhor qualidade", afirma Margarida Silva, porta-voz da Plataforma 

O mapa pode ser consultado aqui. Num primeiro olhar, percebe-se que a maioria das plantações estão localizadas no Alentejo e no Ribatejo e que as maiores ocupam vastas áreas nos concelhos de Odemira e Santiago do Cacém. Só neste concelho do litoral alentejano há uma propriedade de 256 hectares (equivalente a 256 campos de futebol), que contém mais área do que a somada em seis plantações de três concelhos localizados na beira interior. 

No litoral centro e norte também há plantações OGM e no Algarve só uma propriedade de 7,5 hectares, em Albufeira, se dedica a este cultivo.

Agricultura tentou ocultar informação 
Para poder tornar pública esta informação, recolhida anualmente pelo Ministério da Agricultura, "foram precisas cinco ações em tribunal para obter os dados completos de 2005 até 2014", esclarece a Plataforma no comunicado enviado às redações. 

A legislação europeia e nacional, que só permite a plantação de milho-Bt na União Europeia, prevê a divulgação de informação sobre a localização e quais as áreas das explorações agrícolas com culturas transgénicas. Porém, após a decisão do tribunal foram ainda necessárias "intimações judiciais adicionais" para o ministério tutelado por Assunção Cristas ceder os dados, indica a Plataforma. O argumento utilizado para evitar cedê-los consistia no receio de "actos de vandalismo". 

"Estes dados são fundamentais para a deteção precoce de eventuais problemas", alerta a Plataforma. "No caso da saúde, não pode excluir-se a possibilidade, por exemplo, de alergias ao pólen transgénico para quem viva em zonas circundantes", sublinha Margarida Silva. A informação ao também é útil para os agricultores biológicos que não queiram ver as suas culturas contaminadas por OGM plantados na propriedade do vizinho e transportados pelos ventos. 

Além de estudos científicos recentes alertarem para "impactos locais diferenciados" associados a diferentes comportamentos destes OGM, os ambientalistas chamam a atenção para os "possíveis  impactos negativos em espécies não alvo do ecossistema agrícola". 

A par de Espanha e da República Checa, Portugal é dos poucos países da União Europeia onde ainda se cultivam transgénicos. E segundo a Plataforma Transgénicos Fora, o Ministério da Agricultura "continua a votar sistematicamente a favor dos pedidos de introdução de novos transgénicos", como  variedades de algodão e colza, "ao arrepio da maioria dos Estados-membros e apesar do risco direto que isso acarreta para a nossa biodiversidade selvagem e agrícola". 

Por cá, apenas as regiões autónomas da Madeira e Açores são de facto livres de transgénicos, por imposição legal. No continente, 27 concelhos (entre os quais Alenquer, Alcochete, Aljezur, Póvoa de Lanhoso, Terras de Bouro, Arouca, Cadaval, Coimbra, Moita, Lagos ou Odemira) também se declararam livres de transgénicos. 

Porém, "não passam de declarações políticas", critica Margarida Silva, já que "essas declarações não têm força de lei, uma vez que a portaria é kafkiana". Ou seja, se houver alguém interessado em cultivar OGM, pode fazê-lo.