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Águia-pesqueira regressa a Portugal depois de 13 anos de ausência

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O esforço conjunto de Portugal, Espanha e Itália para a reintrodução da águia-pesqueira começa a dar frutos na Costa Vicentina

FOTO Jorge Safara

O Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto descobriu que a águia-pesqueira voltou a reproduzir-se em território nacional.

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

O investimento de Portugal, Espanha e Itália na recuperação da águia-pesqueira na região mediterrânica, que deixou de se reproduzir em território nacional em 1997 e desapareceu em 2002, acaba de dar os primeiros resultados: um casal reprodutor foi descoberto no Parque Natural da Costa Vicentina, no sul do país.

A descoberta deve-se a uma equipa de investigadores do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO)/InBIO Laboratório Associado, da Universidade do Porto, que conseguiram identificar com sucesso um macho e uma fêmea adultos de águia-pesqueira.

A espécie Pandion haliaetus deixou de se reproduzir em Portugal em 1997, com a morte acidental da fêmea reprodutora do último casal que se reproduzia na Costa Vicentina, depois do desaparecimento progressivo das populações da costa continental da Europa mediterrânica. Cinco anos mais tarde, em 2002, foi observado pela última vez o macho deste casal.

Apostar na recuperação da espécie

Os indícios do regresso da águia-pesqueira ao nosso país surgem como resultado de um investimento colaborativo na recuperação da espécie na região mediterrânica. Com efeito, depois da reintrodução de alguns animais na Andaluzia em 2003, e três anos depois em Itália, foi a vez de Portugal e o País Basco avançarem também nesse sentido, em 2011 e 2013, respetivamente.

Ao todo, foram libertados na Península Ibérica 125 juvenis na Andaluzia, a que se juntam os 40 já libertados em Portugal (na Barragem de Alqueva) e os 23 no País Basco. Esta reintrodução é uma tentativa de reconstituir a população ibérica da espécie.

Os animais que conseguirem sobreviver até à idade adulta constituirão um contingente de potenciais reprodutores, como comprovado pelos 13 casais instalados na Andaluzia no ano passado. O projeto português está a ser desenvolvido na Barragem de Alqueva por investigadores e técnicos do CIBIO-InBIO, com o apoio financeiro da EDP.

O regresso ao ninho

O primeiro registo fotográfico de uma das aves libertadas na Barragem de Alqueva foi feito em 2014. Ainda que esse animal não tenha sido novamente avistado, foram recentemente fotografadas duas aves - machos, aparentemente - libertadas no âmbito do projeto português de reintrodução, nas barragens de Alqueva e do Pedrógão.

Deste modo, apenas quatro anos depois do início do projeto, os animais libertados estão a regressar ao local onde se reproduziram pela última vez em Portugal. Sendo os machos os precursores dos territórios de reprodução, brevemente poderá acontecer a instalação dos primeiros casais reprodutores.

Segundo Luís Palma, investigador do CIBIO/InBIO, "estão agendadas para breve novas monitorizações nas duas barragens, com vista a conseguirmos identificar os indivíduos observados e verificarmos se existem tentativas de definição de territórios de reprodução".

O biólogo acrescenta que "tratando-se ou não de aves reintroduzidas em Portugal, a sua capacidade de reocupação do território perdido decorre certamente do fluxo de indivíduos entre as populações mediterrânicas, representado um contributo decisivo destes programas concertados de recuperação".

Mudar a gestão do litoral

Agora "torna-se absolutamente urgente desenvolver medidas de gestão do litoral que permitam conciliar a presença humana, nomeadamente no que se refere à exploração recreativa do local, com a recuperação e conservação da avifauna", afirma um comunicado conjunto do CIBIO/InBIO, Universidade do Porto e EDP.

"Este ordenamento do território, que não chegou entretanto a existir, é fundamental para permitir a reconstituição de uma população reprodutora de águia-pesqueira ao longo das várias áreas costeiras protegidas, e não deixar que este casal seja apenas mais um efémero episódio da história da espécie em Portugal", afirma Luís Palma.