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Este era um sítio de moinhos, de vento, ninguém queria vir para aqui

José Pedro Martins Barata, neto de Alfredo Roque Gameiro, junto à casa da Venteira, considerada um modelo da "Casa Portuguesa"

Nuno Botelho

Há um certo lema, "Honra os teus avós", que serviu um homem e uma família. Alfredo Roque Gameiro, um dos maiores aguarelistas portugueses do seu tempo, proclamava-o. Agora, no ano em que se comemora o 150º aniversário do seu nascimento, é um dos netos que cumpre o lema. Recorda o avô e histórias de família, na intimidade de uma casa onde o artista viveu (e onde uma exposição olha para a sua vida e obra). O Expresso continua a contar diariamente a história de um número - hoje é 150.

Entra-se na estação do Rossio, há comboios a partir e a chegar, e o viajante toma aquele que segue pela linha de Sintra. Embalado pelo ritmo pendular, vai deixando a vida citadina e urbana para trás, entrando em zonas de terrenos baldios, campos agrícolas pobres e terras áridas. Chega-se então, por fim, à Porcalhota. Estamos algures entre 1898 e 1926 e perto desse apeadeiro, no Alto da Venteira, ergue-se uma casa tipicamente portuguesa - não nessa época, mas seria assim que ficaria conhecida décadas depois.

São cinco minutos a pé desde o apeadeiro entre a Porcalhota e a Venteira até chegar a essa casa singular, numa estrada rodeada por uma paisagem árida e algumas construções. Frente a frente com a casa, ladeada por um muro branco, passa uma cancela e um jardim com um pequeno fontanário. Aí, de frente para a casa de paredes brancas, quase é possível ver no alpendre o pai Alfredo e a mãe Assunção, com os quatro filhos: Raquel, Helena, Manuel, Maria Emília (Mámia) e Ruy.

Era assim no século XIX. Hoje, esse modelo de "Casa Portuguesa" fica escondido na praceta 1º de Dezembro, numa região de construções mal-amanhadas e desordenadas na Amadora. Quando a alcançamos, já não é Alfredo Roque Gameiro (1864-1935) que vemos, mas a terceira geração: aos 85 anos, José Pedro Martins Barata revisita esse local, onde a exposição "Retorno à casa da Venteira" recorda a vida e obra deste grande ilustrador e aguarelista português. "Honra os teus avós" era um dos lemas de Alfredo Roque Gameiro. E é o que faz, neste dia, José Pedro Martins Barata.

A tribo dos pincéis
"Na casa da Amadora, desenhar ou pintar era tão natural como comer ou dormir", já o dizia uma das bisnetas do artista, Ana Mantero, num texto que intitulou "Memórias de um Outro Tempo". Na verdade, "a dedicação e personalidade forte e conservadora deste pai ajudou a criar um ambiente familiar único, vivido numa casa tipicamente portuguesa, onde os filhos brincavam, descalços, debaixo da mesa de abas do ateliê ou nos bancos do jardim, onde a vida se desenhava entre cavaletes e pranchetas".

É também o que realça ao Expresso a historiadora de arte Raquel Henriques da Silva. "A prática artística do pintor foi fértil e envolveu o ambiente familiar. Certamente que a casa funcionou como ateliê, ainda que informal, e que os filhos foram positivamente contaminados pelo seu prazer e empenho e dedicação e trabalho." Esta era, assim, uma família de artistas - e a Venteira o seu ateliê. Era vê-los a todos a pintar, em conjunto, no ateliê no andar de inferior da casa, ou a passear pelos campos vizinhos à procura de novos motivos de inspiração. Pintor de ar livre - do campo, do mar e das serras -, Roque Gameiro levava muitas vezes atrás de si Raquel, Helena, Manuel, Mámia e Ruy e alguns sobrinhos que, juntos, ficariam conhecidos como "a tribo dos pincéis".

Todos os filhos seguiram, de forma mais ou menos demarcada, as pisadas do pai. "E foram criados com grande liberdade", conta Martins Barata. Uma autonomia que não era comum às raparigas daquela época. Ainda assim, e a não ser Helena, que era "a mais citadina de gosto e de formação" (e dava aulas de desenho e pintura no ateliê da rua D. Pedro V, em Lisboa), as irmãs sempre ficaram "muito mais próximas de um mundo provinciano e rural".

Seria Raquel que levaria mais longe o gosto pela pintura, tornando-se ilustradora profissional. Também Ruy, não tivesse morrido prematuramente aos 29 anos num acidente de moto, ter-se-ia tornado num grande escultor do modernismo português. E até Manuel, que não era tão dado às lides do pincel, se juntava aos outros a aguarelar. "A única exceção foi a minha mãe, que pintou a óleo, o que provocou um certo desprazer ao avô. Pintar a óleo nesta casa era blasfemo", sublinha Martins Barata. "Mas, enfim, o velho patriarca Roque Gameiro lá aceitou. Mas fez outra coisa: mandou-a aprender a pintar a óleo. Com o Malhoa". E repete, orgulhoso: "A minha mãe teve aulas com o José Malhoa".

Era também na sala de jantar, onde agora está a falar um dos netos de Roque Gameiro, que a família se reunia. Nos dias de frio, sentavam-se junto à lareira e conversaram e riam, contando histórias. A sala era o espaço mais cuidado de toda a casa, com painéis de azulejos com motivos naturalistas da autoria do artista e amigo Rafael Bordalo Pinheiro. Junto ao teto, um friso de provérbios alusivos à alimentação percorre toda a sala. Era, pois, o espaço de excelência para o convívio familiar.

Temos outra visão da coisa
Apegado aos valores tradicionais e nacionalistas, Roque Gameiro era um observador exímio, representando aquilo que via com um grande rigor cromático e luminosidade. Pelo seu pincel surgiam paisagens e figuras portuguesas, mares, serras e zonas campesinas. Mas o homem que nascia em Minde em 1864, e que com apenas dez anos deixava a sua terra para ir trabalhar para Lisboa, seria atraído também pelo universo citadino. "Depois da formação académica na Escola de Belas-Artes, estudou litografia em Leipzig, na Alemanha e, em Portugal, dirigiu a Companhia Nacional Editora e foi professor do ensino industrial. Por isso, possui uma consciência muito moderna da produção artística" e seria marcado por alguns traços de modernidade, realça a professora Raquel Henriques da Silva.

A casa da Venteira era também um espaço de pulsões artísticas distintas e contraditórias. Apesar de ficar ligada a um certo tradicionalismo português, deslocada da capital, não deixava de receber visitas desse mundo. Vários escritores, poetas e artistas visitavam Roque Gameiro na Venteira, separadamente ou reunindo-se na sala de jantar em tertúlias. Entre eles estavam nomes como Afonso Lopes Vieira, Delfim Guimarães, Raul Lino (responsável pela ampliação da casa em 1900), José Malhoa, António Carneiro e Teixeira Lopes. Sem esquecer os seus futuros genros, o pintor Jaime Martins Barata e o cineasta José Leitão de Barros, que se deslocavam à casa da Venteira "na sua função importante de namorar as filhas do avô Gameiro", explica o neto a partir de histórias que foram sendo contadas de geração em geração.

"Vinham a pé [desde a estação de comboio], numa carruagem ou num automóvel. Encontravam-se, visitavam", conta Martins Barata. "Posso dizer que não era uma vida social muito intensa, não era. E esse isolamento da casa conduziu mais tarde a uma situação prosaica, muito real: as filhas casadoiras não conheciam praticamente ninguém". Era por isso que os seus pretendentes, "o Leitão de Barros e o meu pai", se deslocavam à Venteira. Ambos frequentavam a Sociedade Nacional de Belas Artes, juntamente com o pai Gameiro. Era um espaço de congregação de artistas, intelectuais, exposições e amantes de arte, "que, no fundo, funcionava como um clube", recorda o neto. E, um dia, estes dois "resolveram namoriscar as filhas do Roque Gameiro. Então vinham por aí adiante".

 

Martins Barata, o neto e não o genro, não está seguro sobre os motivos que terão levado o seu avô a escolher a Venteira para instalar a sua residência. Mas lança algumas pistas: "A minha convicção é que este terreno deve ter sido escolhido por ser muito barato. Estes terrenos não valiam praticamente nada. Eram terrenos maus agricolamente, pedregosos, pobres, delgados, com pouco valor". O próprio nome, Venteira, indica-o: "Este era um sítio de moinhos, de vento, ninguém queria vir para aqui".

Verdade ou não, foi este o local escolhido para o artista se instalar durante 28 anos - e onde alternava o trabalho de ateliê com os passeios no campo em busca de novos motivos de representação. Foi também esta a casa que serviu de molde para um certo tipo de "Casa Portuguesa", pensada por Roque Gameiro e pelo amigo Raul Lino. José Pedro Martins Barata não hesita em afirmar: "Esta casa é uma proclamação, um manifesto, quase como se estivesse escrito". Para depois acrescentar: "Numa época em que se faziam as Avenidas Novas com o gosto de Ventura Terra e de outros a imitar o que se fazia em Paris, há uns senhores que vêm para aqui, para um monte escalvado, fazer disto 'vistola' à sociedade e dizer: nós temos outra visão da coisa e vamos fazer uma casa diferente". Mas foi um tiro que lhes saiu pela culatra: "Aquilo que era a proclamação de uma ideia, de um estado de espírito, de uma visão cultural passou a ser a ser um modelo, um molde, uma moda. Era a pior coisa que podia ter acontecido".