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Uma questão de força, orgulho e preconceito

Primeiro Ferguson, agora Staten Island. A história repete-se: outro polícia branco não foi acusado nem será julgado pela morte de um homem negro. Por todo o país, os protestos intensificam-se: "De cada vez que um Grande Júri decide não acusar um polícia que matou um homem negro, a mensagem é proclamada a alto e bom som: as vidas dos negros não interessam", afirma ao Expresso um manifestante. Ponto prévio: esta história não é sobre Ferguson ou Staten Island - é sobre a América (e porventura mais).

Há corpos inertes no chão. São vivos a fazer de mortos. Estão nas ruas, nas praças, nos jardins ou até nas estações de metro da América há mais de uma semana. Começou em Ferguson, no estado norte-americano do Missouri, e alastrou rapidamente pelo país.

Na Universidade de Nova Jérsia, uma centena de estudantes 'morreram' terça-feira durante quatro minutos e meio. No dia anterior, dezenas deles tinham feito o mesmo em Boston. Cambridge, Rhode Island, Louisiana, Pensilvânia e St. Louis também receberam este tipo de manifestações. E até o movimento da estação de Grand Central e a confusão de Times Square, em Nova Iorque, foram entrecortados por estas declarações silenciosas, que obrigam quem passa a parar e a questionar-se. São os chamados 'die-in', uma forma de protesto através da simulação da morte.

"Ferguson está em todo o lado", lê-se em alguns cartazes de manifestantes que lutam pelos direitos dos negros, numa América minada - agora à luz do dia - pelas tensões raciais. Os protestos, que se intensificaram há uma semana depois de o Grande Júri ter decidido não acusar nem julgar o polícia Darren Wilson pela morte do jovem negro Michael Brown, a 9 de agosto, espalharam-se por todo o país, por várias etnias e nacionalidades - tendo inclusive ecos em vários pontos do mundo. E ganham agora maior expressão com a decisão de não acusar nem levar a julgamento um outro polícia branco, Daniel Pantaleo, que matou o negro Eric Garner, de 43 anos e pai de seis filhos, desta vez em Staten Island, Nova Iorque.

"De cada vez que um Grande Júri decide não acusar um polícia que matou um homem negro, a mensagem é proclamada a alto e bom som: as vidas dos negros não interessam", diz ao  Expresso, Zellie Imani, de 29 anos. "As pessoas estão a expressar a sua frustração e raiva através de protestos nas ruas. Estão mesmo revoltadas com esta decisão e desapontadas com o sistema: sentem que este protege mais os polícias que os seus cidadãos, em particular os americanos negros".

Ponto prévio: esta história não é sobre Ferguson. Ferguson foi apenas o levantar do pano, que se revela cada vez mais noutras cidades ou estados norte-americanos. Seja em Los Angeles, em Chicago, em Atlanta, em Oakland ou Nova Iorque, as manifestações de apoio a Ferguson - e agora a Staten Island - multiplicam-se. Debra Shepperd vive em Los Angeles, mas tem acompanhado os acontecimentos através das notícias que vai partilhando no Twitter ou das manifestações que vão tendo lugar em Ferguson. A distância que sente é apenas física, garante ao Expresso. "Tenho uma opinião firme sobre as injustiças e sobre o que significa ser negro nos EUA, baseada na minha experiência", realça, acrescentado que a "injustiça" e "o desrespeito total pelos cidadãos negros, por parte da polícia e autoridades, tem de acabar".

Há outros ainda que, apesar da distância, levam a sua participação na luta pela igualdade das minorias negras alguns passos - ou quilómetros - mais longe. Zellie Imani, de 29 anos, é um desses casos. Professor de uma escola básica e ativista em associações juvenis, esta não foi a primeira vez que deixou a sua casa em Nova Jérsia e percorreu mais de 1500 quilómetros para ajudar a organizar o movimento que ocupa agora as ruas e protesta contra a decisão do Grande Júri de Ferguson.

Não dispare

A instabilidade tem marcado esta última vaga de protestos, especialmente em Ferguson. São voláteis e alteram-se muitas vezes a reboque das notícias que alastram rapidamente através das redes sociais. Facebook, Twitter, Storify e Instagram têm sido usados como ferramentas para organizar movimentos e manifestações e reproduzir críticas, ideias, informação. O 'die-in' e os braços levantados, numa atitude de rendição (como Brown e Garner terão feito antes de morrer) já se tornaram símbolos deste movimento que pretende ser pacífico, a pedido da família Brown. Mas pode bastar uma notícia para alterar o rumo dos acontecimentos, acendendo um rastilho capaz de tornar uma manifestação tranquila numa violenta, pontuada por lojas destruídas ou viradas do avesso, confrontos entre polícia e manifestantes, carros e edifícios incendiados. Por várias vezes a polícia respondeu com gás lacrimogéneo ou o uso da força, numa atitude já denunciada pela Amnistia Internacional como um "abuso dos direitos humanos".

Para Zellie, contudo, a violência não é o rosto dos protestos. "Eu não diria que são violentos. Há episódios de violência, de algumas pessoas que se envolvem em confrontos com a polícia, mas são uma minoria, não a maioria", garante ao Expresso o professor de 29 anos. Na sua opinião, a razão não está do lado da polícia, que usa a força para fazer valer a sua posição - à qual os manifestantes respondem, defendendo-se.

"As pessoas estão zangadas. Pessoas de várias raças. Não são apenas os negros que estão revoltados. Há brancos que estão revoltados, asiáticos que estão revoltados, as pessoas mais velhas também o estão", explica Zellie. "Porque é muito fácil ser-se acusado por qualquer coisa na América. E o Darren Wilson não foi acusado pela morte do Mike Brown". E Pantaleo, que matou Garner, também não.

Zellie levantou uma questão que tem saído, muitas vezes, da boca de manifestantes, jornalistas ou outras pessoas que têm acompanhado estes casos com atenção: Porquê? Qual a razão para estes polícias não terem sido sequer levados a julgamento? Porque é que terão escapado a qualquer acusação, quando se sabe que mataram dois homens? As perguntas são válidas para ambos, com uma agravante: existe um vídeo de uma testemunha que mostra o caso Garner. Pantaleo lançou Garner ao chão e pressionou de tal maneira o seu pescoço e peito contra o chão que o instituto de medicina legal de Nova Iorque já afirmou ter sido essa a causa da morte, tratando-se de um homicídio.

"Nos EUA ainda temos uma polícia racista. E, no geral, os americanos confiam quase instintivamente na polícia, acreditando que esta terá razões legítimas para matar pessoas negras", realça Zellie, sublinhando ainda que, muitas vezes, o júri que decide acusar ou não alguém é constituído maioritariamente por pessoas brancas. Em Ferguson, por exemplo, o Grande Júri era constituído por 12 pessoas, das quais apenas três eram negras.

Mas a raça não explica tudo. Benjamin Sally, de 27 anos, leu os vários depoimentos disponibilizados sobre o caso de Ferguson. Para ele, as decisões têm que ser tomadas com base nas provas disponíveis e, por isso, considera que o júri de Ferguson tomou a decisão certa. "Cada prova que lá está suporta a história de Wilson e a acusação é baseada em histórias de testemunhas que vão alterando a versão dos acontecimentos", explica o estudante americano de origem irlandesa e sul-coreana, que está a realizar o doutoramento em Nova Iorque. Já o caso de Nova Iorque, acrescenta, é completamente diferente: "É aterrador. Não consigo encontrar nenhuma justificação para se tratar um cidadão desta maneira. Este é um caso claro de uso excessivo da força que foi aplicada numa situação sem nenhuma ameaça [para o polícia]. Parece-me alucinante que este polícia não tenha sido acusado. Não há qualquer tipo de justificação para as suas ações e se o Grande Júri não percebeu isso, é completamente louco", afirma, referindo-se ao vídeo que mostra claramente o incidente.

Uma questão de força, orgulho e preconceito

Quando olhamos para Ferguson, Staten Island ou outros pontos dos EUA com situações como estas, as questões raciais são apenas uma parte de um problema complexo, explica o advogado de direitos civis David Rudovsky. Contactado pelo Expresso, remete para as respostas que deu recentemente ao site norte-americano "Vox". "É muito difícil acusar um agente da polícia na América", afirmou. "O número de processos judiciais que envolvem polícias (...) é muito muito baixo." Se fosse um civil, a situação já seria diferente: "Se eu estivesse envolvido numa situação como a de Ferguson (...), muito provavelmente seria detido. Até poderia ter uma boa alegação de legítima defesa, mas essa seria uma defesa para ser apresentada em tribunal", exemplifica, para acrescentar: "Em muitas situações em que os cidadãos seriam facilmente acusados, os polícias não o são. Por vezes, por razões válidas. É certo que autorizamos os polícias a fazer uso da força - e força mortal. Deixamos que a usem em situações que os civis não o podem fazer".

Além destes, existem também conflitos institucionais. Os procuradores dependem da polícia. Trabalham em conjunto com estes. E isso pode influenciar, mesmo que inconscientemente, a apresentação das provas e argumentos. "Mesmo que estejam a agir de boa-fé (...), esta é uma investigação muito intensa", conclui David Rudovsky.

O problema não está em Ferguson. Aliás, Ferguson parece ser apenas uma gota num oceano de tensões raciais nos EUA ou de uso excessivo da força por parte das forças policias, que levantou questões sobre a forma como o sistema judicial lida com as minorias negras. "Este é um problema nacional", afirmou esta semana o Presidente dos EUA, Barack Obama.

A frase é compreendida quando olhamos para os números. Só desde de Mike Brown, pelo menos 14 jovens foram mortos pela polícia - metade eram negros. Dados de 2012 do FBI mostram ainda que os jovens negros têm 21 vezes mais probabilidade de ser mortos pela polícia do que os brancos, disparidades que se mantêm nos casos em que a vítima não estava a atacar ninguém. Assim, Brown não é apenas Mike Brown, é Tamir Rice (12 anos, Ohio), é Cameron Tillman (14 anos, Louisiana), é Vonderrit Myers (18 anos, Ferguson), entre outros, mortos por agentes da polícia em circunstâncias pouco claras. Todos estavam desarmados quando foram alvejados.

Para Zellie Imani, uma coisa é certa: "O movimento antibrutalidade da polícia está a crescer. Através dos media sociais, os manifestantes inspiram-se uns nos outros. Mesmo sem uma grande cobertura dos media, a mensagem está aí. As pessoas não serão silenciadas e existirão mudanças". Para já, as reivindicações centram-se na utilização de câmaras nos equipamentos policiais, numa maior responsabilização dos polícias e maior transparência. Na verdade, esta semana o Presidente Obama fez um anúncio nesse sentido, indicando que irá pedir ao Congresso 263 milhões de dólares (235 milhões de euros), em três anos, para medidas relacionadas com as polícias locais, entre as quais incorporar câmaras de filmar nos uniformes de 50 mil agentes.

Será isso suficiente? É preciso esperar para ver. A verdade é que na história de Garner já existia uma gravação do acontecimento e, mesmo assim, não foi suficiente para acusar o agente da polícia. É preciso mudança, acreditam os entrevistados. "E o caso de Garner vem bater-nos ainda mais à porta", conclui Benjamin. "Fica claro que ele não fez nada de mal. E [este caso] mostra-nos mesmo que existe uma linha ténue entre a vida e a morte, em relação à qual a polícia parece dar pouca atenção".