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Socialismo selvagem

Henrique Raposo (www.expresso.pt)
8:00 Quarta feira, 14 de outubro de 2009

Nas eleições legislativas, voto em branco ou anulo o meu voto (costumo jogar ao galo no boletim). Nas eleições autárquicas, abstenho-me fartamente. Recuso votar nas autárquicas, e tenho todo o prazer em explicar porquê.

Uma das maleitas pustulentas do país é o financiamento das autarquias. No actual statu quo, o centralismo vigente determina que esse financiamento só pode ter duas vias: as transferências do Orçamento Geral do Estado (OGE), e as taxas e licenciamentos relacionadas com a construção. Ou seja, os municípios, os pedintes do regime, têm de pedir esmola ao Estado e ao 'banco alimentar' das construtoras. Não têm outra saída.

As esmolas estatais desresponsabilizam os autarcas. O dinheiro vem de cima, logo, o poder local nunca é responsabilizado. Ao longo do país, os autarcas podem dizer que "a culpa é deles; eles é que estragam isto". Este "eles" é, claro, o Estado central (ninguém em concreto, portanto). Todos os dias, as autarquias desfiguram Portugal, mas a culpa morre sempre solteirinha. Depois, as esmolas das construtoras produziram aquele nebuloso new deal entre autarcas e construtores, que, de vez em quando, abre os telejornais. A par desta corrupção endémica (mas nunca confirmada), o actual modelo de financiamento criou um absurdo beco sem saída: para conseguir receitas, o autarca (mesmo o honesto) tem de permitir a construção selvagem. O socialismo centralizador do regime produziu assim uma espécie de socialismo selvagem. E a face deste socialismo selvagem é a construção selvagem que anda - há décadas - a transformar Portugal num parque de estacionamento.

As coisas só mudarão quando criarmos um regime fiscal que abra espaço a impostos municipais, recolhidos não pelo Estado central, mas sim pelos municípios. Sem ser aumentada, a nossa carga fiscal deve ser repartida entre o poder central e o poder local. Só desta forma será possível responsabilizar os autarcas. Aquilo que existe neste momento - o OGE como ama-seca dos municípios - transforma a democracia local numa paródia de onde todos saem impunes. Lamento, mas recuso votar nesta máquina de impunidade.

Para terminar, convém salientar que o nosso mapa autárquico, em 2009, está desenhado à moda do século XIX. Com as suas 4251 freguesias e 308 municípios, as eleições autárquicas teleportam o país para o tempo da "Morgadinha dos Canaviais". Lamento, mas recuso votar nesta máquina do tempo que me faz acordar no país de Júlio Dinis.

Talassa

É sempre bom reler "A República Velha" (Gradiva), de Vasco Pulido Valente, um livro que eu estava proibido de ler na faculdade. Ali, naquele livro maldito, podemos constatar o carácter terrorista da I República. Ali, naquele livro que Mário Soares deve ter queimado num auto-de-fé privado, podemos ver como o "bom povo republicano" era a PIDE informal de Afonso Costa; o bom povo bufava e batia com primor. Ali, podemos verificar que a repressão dos direitos sindicais começou com Afonso Costa, e não com Salazar. Ali, podemos ver como a esquerda indígena não evoluiu muito: os nossos esquerdistas passaram do "morte ao talassa" para o "morte ao fascista". Em 100 anos, conseguiram mudar uma palavra.

Henrique Raposo

Texto publicado na edição do Expresso de 9 de Outubro de 2009

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Apoiado!
cjours (seguir utilizador), 3 pontos (Interessante), 12:25 | Quarta feira, 14 de outubro de 2009
Apoiado completamente no que se refere às autarquias! E junto mais uma peculiaridade do sistema que acho ABERRANTE! É esta coisa de se repartirem os pelouros pelas forças 'vencidas'. Acho isso o fim da picada! Sinceramente, o fim da picada! E a melhor forma de garantir a brutal corrupção, o compadrio, o parasitismo e o silência nas autarquias!
Quanto à segunda parte, ler o VPV sobre a matéria não é suficiente, meu caro! Podia-me alongar mas deixo à sua consideração, por exemplo, estudar o porquê das limitações dos direitos sindicais e, nomeadamente, da greve no final da 1.ª República. Mas tem que ir atrás, ao período monárquico, para o perceber! Acredito que o VPV se tenha 'esquecido' de alguns pormenores....
 
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Incrível!
NãoHáInocentes (seguir utilizador), 2 pontos , 19:34 | Quarta feira, 14 de outubro de 2009
Estava a achar estranho nunca ter acertado no Euro Milhões. Agora já sei porquê. Não é que entre as 50000000000000000000000000 biliões de hipóteses de o Sr Henrique Raposo escrever qualquer coisa com que eu concordasse em pleno, ele acaba de escrever a dita (1) !!! Tive até a incomóda sensação de pensar que o texto estava a ser escrito por mim quando li "nas eleições legislativas, voto em branco ou anulo o meu voto (costumo jogar ao galo no boletim). Nas eleições autárquicas, abstenho-me fartamente. Recuso votar nas autárquicas (...)" logo a abrir a crónica. Em homenagem ao Sr Raposo e às incríveis voltas da Roda da Fortuna, faço aqui uma promessa solene: não faço qualquer comentário (2) neste site do Expresso até ao final deste estranho ano de 2009.

(1) Se me acontece uma coisa incrível destas, de acordo com a lei das probabilidades, nunca mais me pode acontecer outra coisa igualmente incrível como ficar multimilionário por ter posto umas cruzinhas num papel...

(2) Os meus comentários são, por norma, para deitar abaixo qualquer coisa, desde pessoas, a partidos políticos, hipocrisias reinantes, moralidades serôdias e tudo o que cheire a politicamente correcto. O Sr Raposo demonstrou-me que posso ser tremendamente injusto a avaliar as pessoas. Bem mereço estar calado!
 
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Pois, pois...
impertinente (seguir utilizador), 1 ponto , 22:31 | Quarta feira, 14 de outubro de 2009
Quanto às "maleitas pustulentas" ( estilo J.Dinis constipado)lembro uma quadra do António Aleixo ao Joãozinho das Perdizes :

Prá mentira ter altura
e atingir profundidade
há de trazer à mistura
qualquer coisa de verdade.

Quanto a Talassa:

Salazar discípulo e continuador de Afonso Costa tem um piadão. Quase tanto como a de M. Soares a queimar livros.

Os nossos esquerdistas terão mudado uma palavra, talvez. Mas do texto deste raposo resulta que os nossos direitistas não conseguem mudar nenhuma.
 
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Raposo infantil, intelectualóide de vão de escada!
José Telhado (seguir utilizador), 1 ponto , 22:48 | Quarta feira, 14 de outubro de 2009
A sua crónica é infantil e denota ignorância histórica.
Nem vale a pena comentar as suas rídiculas afirmações sobre a I República, porque não têm ponta por onde se lhe pegue. A sua falta de civismo ao fazer jogatanas com os boletins de voto, quando lutámos 48 anos para ter direito a escolher livremente os nossos representantes, é de uma execrável repugnância que nunca mais irei ler qualquer coisa que vc escreva, porque infecta o cérebro equilibrado e, por uma questão de higiene mental aconselho todos os meus caros concidadãos a deitarem para o caixote do lixo, as suas escrevinhações, que não passam de mera masturbação intelectual!
Você está condenado ao fracasso dos intelectualóides mesquinhos e frustrados...
Porque não vai dar uma voltinha ás praias cubanas?
 
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Regionalização
Portuguez (seguir utilizador), 1 ponto , 14:06 | Sexta feira, 16 de outubro de 2009
É uma lufada de ar fresco lê-lo, depois de cem anos de lavagem ideológica ao cérebro dos portugueses, e de manipulação da História de Portugal. É bom ver que há gente nova capaz de pensar por si e sem papas na língua, à português antigo. Acrescentaria apenas que o seu texto explica também a recusa da regionalização, que assim se demonstra também ser a recusa da responsabilização, recusa que tão cara tem custado ao País.
 
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Pois...
batatafritadigital (seguir utilizador), 1 ponto , 12:58 | Quarta feira, 21 de outubro de 2009
É irritante ter de sofrer na pele com os desvarios politicamente correctos do António Costa & seus "Zés", e porem-nos à frente um boletim de voto com o Isaltino
 
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