"Era um odor nauseabundo. Nunca vi nada assim, nem em filmes. É o inferno. Corpos por todo o lado. Ao terceiro dia, andavam a ser recolhidos com escavadoras que os atiravam para camiões. Nunca vi mortos tratados assim".
Gilberto Nunes Antonio, 61 anos, um dos três portugueses que hoje chegou a Madrid oriundo do Haiti, de onde foi repatriado num voo da cooperação espanhola, descreve assim, numa conversa com a Lusa, o drama que viveu durante e depois do sismo que lhe destrui "20 anos de vida".
Viajou acompanhado dos filhos, de 22 e 24 anos que também perderam tudo no Haiti e de quem esteve separado, temendo o pior, até ao terceiro dia.
Edifícios caíram sobre as pessoas
"Os edifícios começaram todos a cair sobre as pessoas. Comecei a tremer.
As coisas estavam todas a cair à minha volta. Ainda hoje estou transtornado e quando penso nisso mal consigo falar", disse à Lusa.
"Edifícios a cair, gente a gritar. O mais grave é que essa gente ficou dentro dos edifícios, sem ajuda, a gritar. A morrer asfixiados e a esvair-se em sangue. A morrer pouco a pouco sem ajuda", recorda.
Separado dos filhos durante dois dias temeu o pior, caminhando por Port-au-Prince onde "os corpos se amontoavam nas ruas" e onde, durante dois dias "não se via polícia, nem bombeiros, nem ninguém a retirar a gente debaixo das pedras".
Odor nauseabundo
"As pessoas gritavam, um odor nauseabundo. Os cadáveres em decomposição", disse o homem, natural do Algarve, a viver desde 1983 no Haiti e que perdeu tudo, incluindo uma fábrica de peças de automóveis.
"Ao terceiro dia finalmente vi um buldozer que agarrava nos corpos e os lançava para dentro de um camião. Como estavam em decomposição, alguns quando caiam no camião explodiam", disse.
"Não consigo descrever. Não consigo pensar naquilo que fico sem conseguir falar", afirmou.
Apesar do drama que viveu e de querer viajar para o Algarve o mais rapidamente possível, Gilberto Nunes Antonio quer voltar ao Haiti.
Vontade de voltar
"Perdi tudo, 20 anos de trabalho. Perdemos tudo", disse.
"Mas quero voltar. Quero ajudar aquela gente. Tinha uma fundação que ofereceu 250 hectares de terra para um centro global de desenvolvimento e necessitamos ajuda para poder ajudar essa gente. Quero regressar assim que possível", afirmou.