27/05/2012 atualizado às 1:18

Só um golpe de asa pode afastar Passos da liderança

Três candidatos medem forças no mais insólito congresso dos últimos anos. Passos leva vantagem e descola dos recados de Cavaco.Clique para visitar o dossiê Congresso do PSD

Ângela Silva (www.expresso.pt)
12:32 Sábado, 13 de março de 2010
Só um golpe de asa pode afastar Passos da liderança

Está decidido. Mafra não será uma Figueira da Foz - a hipótese de uma candidatura-surpresa que virasse o jogo foi definitivamente afastada por Marcelo Rebelo de Sousa - e o potencial de suspense que resta ao congresso mais insólito da vida do PSD (pela primeira vez é convocado por assinaturas de militantes) passa por saber que capacidade terão Paulo Rangel e Aguiar Branco para galvanizar os militantes e inverter a vantagem de Passos Coelho, e que contributo poderão dar figuras como Marcelo, João Jardim e Marques Mendes, que se prepararam para ir hoje a Mafra falar ao partido.

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Marcelo alimentou o suspense até ao fim mas irá ao congresso, a menos que a reviravolta de última hora nas regras do evento (ver texto em baixo) que limita o tempo de discussão e encaixa Marcelo numa galeria de ex-líderes em que a última palavra cabe a Luís Filipe Menezes, o leve a mudar de ideias. A intenção do professor era ir e não se limitar a "passar por lá", segundo o "Sol". "Isto não é um Passa por Mim no Rossio", ironizou ao Expresso, horas antes de saber que o Congresso encurtara.

Indo a Mafra, é certo que Marcelo não apoiará abertamente nenhum dos três candidatos, e o mesmo se passa com Mendes e Jardim, que, pelo menos para já, opta por não tomar partido. Entre os três senadores há um traço em comum: não gostariam de ver Passos ao leme do PSD e temem que nenhum dos candidatos esteja preparado para os desafios que o país terá pela frente.

Comício triplo


Superar esta sensação de insuficiência e aproveitar o congresso - que por não ser electivo é sobretudo um comício de arranque da campanha para as directas - para chegar aos militantes é a aposta de Paulo Rangel. O eurodeputado é o que mais hipóteses tem de morder a supremacia de Pedro Passos (todas as sondagens internas das candidaturas o dão em 2º lugar) e, embora saiba que com Aguiar Branco a manter-se na corrida só por milagre poderá ganhar, vai tentar aproveitar Mafra para contrariar a ideia que deixou nos debates na TV. Com um discurso pouco programático e muito político, Rangel tentará baralhar na cabeça dos militantes as certezas já consolidadas de que Passos é o senhor que se segue. Se o conseguir, parte mais forte para os 15 dias que restam de campanha até às directas.

José Pedro Aguiar Branco vai ter que resistir às pressões que alguns ainda tentarão pôr em marcha entre hoje e amanhã para o convencer a desistir. As sondagens que mostram que a soma dos seus apoios com os de Rangel seria a única forma de fragilizar Passos Coelho serão usadas nesse sentido. Mas Aguiar parece de pedra e cal e hoje aparecerá em Mafra disposto a surpreender pela positiva como conseguiu nos debates televisivos. O facto de assim poder contribuir para reforçar a vantagem de

Passos não parece demovê-lo, pelo contrário, preferirá marcar posição. Para o futuro ou não, se verá.
Quanto a Passos, tentará sobrevoar este contexto de divisão nas hostes adversárias e aproveitar para se afirmar como o senhor que se segue. Com duas cautelas: nada de sobrancerias com Rangel ou Aguiar, o eventual terrorismo psicológico será deixado por PPC nas mãos dos passistas destacados para o efeito. E há quem tema que este seja um congresso de tal forma emocional - o simples facto de dois amigos, Rangel e Aguiar, estarem no ringue, reforça a ideia - que haja o risco de uma cena à Coliseu de Lisboa, em 95, quando Menezes partiu o verniz contra os "sulistas, elitistas e liberais".

Puxar pela emoção dos congressistas e desmontar a estratégia de Passos é uma das saídas para os que ainda acreditam na possibilidade de virar as sondagens. De Manuela Ferreira Leite - que fala hoje de manhã - espera-se que aponte prioridades para o partido, sem sinalizar preferências entre os candidatos. E de Santana Lopes ninguém sabe o que esperar.

O ex-líder e promotor deste congresso (que também não gostou das regras estipuladas na reunião de ontem com Machete) percebeu que Marcelo já não vai à luta e deu quinta-feira uma entrevista à SIC/Notícias em que chegou a elogiar Passos pela coragem e pela clareza de algumas propostas. Que peso poderá ter a desembrulhar o novelo, é uma incógnita.

Do Porto vêm Menezes e Rui Rio. O segundo para apoiar Aguiar Branco em tom moderado e o primeiro para apoiar Pedro Passos, se se confirmarem as expectativas desta candidatura. Nuno Morais Sarmento resguarda-se no estatuto de presidente do Conselho de Jurisdição para não tomar partido, sendo certo que fará o que puder contra Passos e tenderá a apoiar Rangel. O que resta do barrosismo está com o eurodeputado. E o que resta do cavaquismo também não quer Passos.

A sombra de Cavaco


Descolar o PSD da sombra de Cavaco é, aliás, um filão que Pedro Passos parece disposto a explorar. Em declarações ao Expresso, o candidato diz que Cavaco Silva "é o candidato natural do PSD às próximas presidenciais" e acrescenta que "a última coisa que quereria era ter que inventar um candidato". Mas deixa um aviso: "não estamos aqui para afrontar nem para servir o professor Cavaco Silva" e, ao arrepio do que o Presidente esta semana deixou perceber em entrevista à RTP - que não defende crises políticas e que não poderão contar com ele para as abrir -, Passos diz que se ganhar o partido não contem com ele para continuar a segurar Sócrates a todo o custo. "Não vou deixar o país apodrecer", afirma, e este é um dos seus trunfos para consumo interno: passar a ideia de que com ele, o PSD chega rápido ao poder.

Marcelo tem alinhado com Cavaco nos alertas para a irresponsabilidade que seria provocar uma crise com o país como está. Resta saber se entrará por aqui no congresso, o que poderia reforçar Rangel (que também alinhou o discurso com os apelos do Presidente) e contrariar Passos Coelho. A menos que Passos esteja certo, e haja no PSD mais gente do que parece ansiosa por matar o pai.

Artigo publicado na edição do Expresso de 13 de Março de 2010

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