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Expresso 40 anos

Espreite dez das muitas fotos da primeira Revista especial dos 40 anos do Expresso

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A primeira Revista que marca os 40 anos do Expresso já está nas bancas. A escolha das fotografias é de Rui Ochôa, o primeiro editor fotográfico do Expresso, que recorda os dez anos que vão do final do Estado Novo até ao fim do Conselho da Revolução.

(www.expresso.pt)

Um país a duas velocidades
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Um país a duas velocidades

A maioria silênciosa
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A maioria silênciosa

A revolução à volta da fogueira
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A revolução à volta da fogueira

Um campo de confrontos
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Um campo de confrontos

O poder já passa pelo parlamento
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O poder já passa pelo parlamento

Morte do cardeal Cerejeira
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Morte do cardeal Cerejeira

Um sinal premonitório
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Um sinal premonitório

Da consagração à morte
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Da consagração à morte

João Paulo II, o Papa de Fátima
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João Paulo II, o Papa de Fátima

A primeira greve geral
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A primeira greve geral

Nesta edição de 6 abril, oferecemos a Revista Especial nº1 dedicada ao período de 1973 a 1982
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Nesta edição de 6 abril, oferecemos a Revista Especial nº1 dedicada ao período de 1973 a 1982

O fim da ditadura acelerou a vida das pessoas e foi a ignição de muitos novos projetos - políticos, ideológicos, sociais, culturais, mentais. Mas longe de Lisboa, e em parte também de quartéis ou fábricas, onde se acreditava que o futuro estava à mão de semear, havia um Portugal parado no tempo. O interior era então mais habitado do que é hoje, mas também mais isolado e muito mais pobre. O quadro destas páginas - desalento, tristeza, total ausência de expectativas a irmanar várias gerações (serão três?, serão quatro?) da mesma família - parece saído do cinema neorrealista italiano, montado por Visconti ou Rossellini, logo no pós-guerra. Mas foi captado várias décadas depois, em julho de 1974, numa aldeia perdida no concelho de Vila Flor, Trás-os-Montes. Assim respirava um povo a quem a Revolução ainda pouco ou nada dizia.

 

A 26 de setembro de 1974, uma tourada no Campo Pequeno a favor da Liga dos Combatentes torna-se manifestação de apoio a António de Spínola e de repúdio ao primeiro-ministro, Vasco Gonçalves, vaiado pela assistência. Na verdade, foi um ensaio geral para a manifestação da Maioria Silenciosa (os setores da direita que se opunham ao andamento da Revolução e que ainda não tinham assumido uma posição pública), marcada para dois dias depois. Mas a corrida - como as expressões de Spínola e de Vasco Gonçalves parecem prenunciar - estava muito longe do fim. A concentração foi proibida, Lisboa esteve sitiada por piquetes que ergueram barricadas nas entradas e revistaram quem pretendia entrar. No fim, a Maioria Silenciosa não fez ouvir a sua voz; a 30 de setembro, Spínola falou ao país, para se demitir. Com o novo Presidente, Costa Gomes, veio o terceiro governo provisório, igualmente liderado por Vasco Gonçalves. As coisas iam começar a aquecer.

A Herdade da Lobata, em Serpa, foi um dos latifúndios alentejanos ocupados por trabalhadores. Num dia frio do outono de 75, sentam-se em círculo, como se quisessem abrir uma clareira para uma sociedade diferente, mais equalitária... Entre o final de 1974 e o início de 1976, foi criada, sobretudo no Alentejo, cerca de meio milhar de Unidades Coletivas de Produção (UCP), num processo conduzido pelos sindicatos afetos ao PCP e por vezes apoiado no terreno por militares. O projeto de uma "exploração comum da terra" - o que deixou muitas vezes à vista a impreparação da nova ordem na gestão das empresas agrícolas - ardeu como palha. No primeiro governo de Mário Soares é aprovada a chamada Lei Barreto, que foi o princípio do fim. A revisão da Constituição de 1982 (seguida pela de 86) faria o resto. A Reforma Agrária tem um lugar único na mitologia da Revolução, mas a sua chama aqueceu durante pouco tempo.

Na Lobata, o proprietário esteve sitiado vários dias por trabalhadores. A GNR anda por lá, mas limita-se a observar, sem fazer esforços para intervir. Ao lado dos grandes proprietários rurais na repressão dos assalariados durante o fascismo, a força militarizada sentiu esse fardo histórico durante a ocupação das terras e assumiu uma posição de neutralidade. Sob um chaparro, em redor do borralho, meia dúzia de soldados deixam correr o tempo. No final dos anos 70, quando nas planícies alentejanas o vento muda de feição, a GNR volta à ação.

Com as legislativas de 1976, a condução da vida do país passa cada vez mais pela Assembleia da República. A negociação entre líderes partidários (na fotografia, Francisco Sá Carneiro e Mário Soares) será uma bússola dos anos vindouros. Na primeira fila da bancada do CDS estão sentados (da esquerda para a dirreita) Lucas Pires, Rui Pena, Freitas do Amaral e Narana Coissoró. Um quarteto de luxo! Mas a qualidade dos deputados era pedra angular de todas as bancadas.

A 1 de agosto de 1977, morre o cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, a figura mais marcante da Igreja em Portugal no século XX. Foi patriarca de Lisboa durante 42 anos (1929-1971), o mais longo período de um bispo na diocese. Se o Estado Novo se confunde com Salazar (pelo menos até à morte deste), a Igreja portuguesa nesse mesmo período confunde-se com Cerejeira. A relação entre ambos, pessoal (colegas em Coimbra e amigos) e institucional (entre Igreja e Estado), durante décadas moldou o país. Sobretudo na identidade e nas cumplicidades evidentes, mas também nas tensões e divergências, dimensão que aos poucos a historiografia vem destapando. As cerimónias fúnebres foram presididas pelo sucessor de Cerejeira, D. António Ribeiro. O cardeal ficou sepultado no panteão privativo dos patriarcas, no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa (na foto).

Freitas do Amaral, Sá Carneiro e Ribeiro Telles (à frente, da esquerda para a direita) fazem uma pausa na descida da Avenida da Liberdade, em Lisboa, numa ação da campanha para as legislativas de 1979. É impossível saber de que se riam (especialmente Freitas), mas é bem possível que pelo canto do olho já estivessem a ver o sinal de trânsito. A 2 de dezembro, os eleitores portugueses seguiram à risca aquela sinalética rodoviária: impedidos de virar à esquerda, optaram por uma guinada para a direita. A Aliança Democrática (AD, coligação entre o PPD e o CDS) esteve no poder três anos e meio: um governo liderado por Sá Carneiro, terminado com a morte deste, e dois chefiados por Francisco Pinto Balsemão.

Em novembro de 1979, na zona de Viseu, Sá Carneiro é vitoriado por populares, na campanha para as eleições que dariam a maioria à AD (e fariam dele primeiro-ministro). A 4 de dezembro do ano seguinte, na reta final para as presidenciais, o líder do PPD está (foto de baixo) junto ao candidato da direita, Soares Carneiro (também ladeado por Diogo Freitas do Amaral), numa conferência de imprensa em Lisboa, no Hotel Altis. Foi a última aparição pública de Sá Carneiro, que morreria poucas horas depois, no desastre de Camarate. O homem que levou a direita ao poder e queria "um Governo, uma maioria e um Presidente" não assistiu à concretização desse sonho.

A 12 de maio de 1982, João Paulo II inicia uma visita a Portugal, para agradecer à Virgem ter sobrevivido ao ataque que sofrera em Roma - um ano antes, a 13 de maio. O Papa atribuiu o seu salvamento a um "milagre de Fátima". João Paulo II teve transbordantes banhos de multidão, como mostra esta fotografia, tirada junto à Sé de Lisboa Algo só possível pela devoção dos portugueses e, também, por regras de segurança mais permissivas do que atualmente. Logo à chegada, entre o aeroporto e o centro, teve uma receção apoteótica (ver página seguinte). Em quatro dias, o Sumo Pontífice percorreu o país, de Braga a Coimbra, de Lisboa a Vila Viçosa - além do ponto alto, no santuário mariano. Foi a primeira visita de um Papa a Portugal em democracia.

A 12 de fevereiro de 1982, o país conhece a primeira greve geral, convocada pela CGTP, com a oposição declarada da UGT. É o primeiro grande embate após o 25 de abril entre um governo de direita e o movimento sindical. A 11 de maio, a Intersindical realizaria nova greve geral, "sempre contra a política de direita, mas também em protesto contra a provocação montada pelo governo AD e pelos amarelos da UGT" - assim a descreverá mais tarde o PCP. Da primeira paralisação ficou um hábito, que se mantém até hoje - as avaliações díspares dos resultados. Atente-se na manchete do "Diário de Lisboa", que dá as "duas versões": "A greve geral foi um êxito", clama a CGTP; "Foi uma derrota para... o PCP", garante o governo. A Intersindical deixou então o aviso: "Faremos as greves gerais que forem necessárias para defender a democracia e os interesses do país."