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Silêncio sem 'share' nem perdão

No país real já ninguém tem paciência para Comissões de Inquérito. Se a justiça não funciona, ou funciona com morosidades conhecidas, como é que o país consegue colocar-se ao espelho desta febre das Comissões de Inquérito? 

Luís Carmelo
19:36 Quinta feira, 22 de abril de 2010

Pedro Soares ficou hoje em silêncio na Comissão de Inquérito. Pois ficou. Grande escândalo. E vindo de quem vem. Do exemplo de menino-prodígio residente em administrações de cunho público. Perdição indigitada. Menino de ouro, 'golden boy'. O símbolo do habitat de corredor, do colhe-colhe, do foge-foge, do 'diz que diz' por trás do reposteiro milanês.

Enfim, providências e cautelas de lado, pois apenas os faraós adoravam o Sol, a verdade é que Pedro Soares foi - e tem sido - um valioso pioneiro. E pioneiro porquê? É simples, caros leitores: porque, daqui a dez anos, todas as Comissões de Inquérito que neste momento estão a decorrer estarão reduzidas ao silêncio. Às cinzas. Ao mutismo mais profundo. Ao esquecimento mais elementar. Este silêncio com asas de escandaleira é, pode crer-se, um silêncio profético, prefigurador, certo de um futuro que sabe ser apenas seu. Sempre o soube. 'Golden future'. 'Golden share'.

O facto é que a redundância é a mãe do nada. A quantidade sem fim de Comissões de Inquérito conduz apenas à anulação dos seus propósitos e das suas finalidades. No país real já ninguém tem paciência para Comissões de Inquérito. Se a justiça não funciona, ou funciona com morosidades conhecidas, como é que o país consegue colocar-se ao espelho desta febre das Comissões de Inquérito?

Propor Comissões de Inquérito apenas para lidar com as frustrações que atravessam os nossos fantasmas públicos - sobretudo porque nada, nem ninguém parece detê-los - é uma ilusão tão grande quanto o é a perda de energia que elas traduzem. E evidenciam.

Acreditem-me: Pedro Soares é magnânino. Só ele soube o que o havia a fazer. E muito bem. E rir-se-á do escândalo. E de muito mais. Porque é pioneiro. Marinheiro pessoano no porto vazio à espera da navegação que é apenas sua. Sem 'share'. Nem perdão. Mas feliz.

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