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Como é que se começa uma conversa com alguém que está preso há 34 anos?

À pergunta que hoje, a seguir ao Jornal da Noite, vai abrir o novo programa da SIC “Vidas Suspensas”, segue-se a imagem da jornalista Sofia Pinto Coelho sentada à frente de um homem de 60 anos, careca, olhos azuis claros e inquietos a contrastar com a postura inquebrantável que irá manter ao longo de toda a entrevista.

Depois de 34 anos de reclusão, Delfim Santos Sousa não aparenta amargura, muito menos sinais de ter cedido à vergonha ou vergado ao arrependimento. Prestes a sair em liberdade e já com muito pouco a perder, repete de forma articulada, desinibida e com sentido de humor os argumentos que sempre usou para convencer polícias e juízes de que nunca fez mal a alguém.

Da lista interminável de acusações por assaltos à mão armada, de nada lhe valeu confessar apenas o crime de recetação e nunca o uso de metralhadoras nos roubos a ourivesarias, lojas de eletrodomésticos, casas de penhores e até a um comboio da linha de Sintra, que alguém fez descarrilar, para se apoderar do cofre onde estava o dinheiro das bilheteiras.

Ao todo apanhou 266 anos de prisão, mas, por força da lei, a pena foi reduzida a 20, a que haveria de somar mais 14 anos de prisão efetiva por outros crimes entretanto cometidos na cadeia.

Nestes 34 anos, nunca lhe foi concedida uma saída precária. Só muito recentemente, já depois da entrevista que deu na cadeia a Sofia Pinto Coelho, para o novo programa da SIC, teve autorização para sair durante três dias.

Os repórteres da SIC gravaram esse momento em que Delfim saiu pela primeira vez sem algemas nem guardas prisionais armados a seu lado. Já no pátio que conduz à porta principal da cadeia de Vale de Judeus, respirou fundo e avançou, primeiro em passos curtos, depois mais largos e determinados, em direção à saída, onde o esperava um táxi com duas pessoas: a mãe, de 95 anos, visita frequente, e a namorada, que conhecia apenas pelo telefone e pelo Facebook, e que, naquele dia, veio da Madeira de propósito.

Seguiram para casa da mãe, não a barraca que Delfim conhecera antes de ser preso, mas um andar nos arredores de Lisboa, onde nunca tinha entrado.

Afinal, como se começa uma conversa com alguém que está preso 34 anos seguidos?

"- Hoje qual foi o seu almoço?

- Arroz de ervilhas com soja. Para poupar o organismo, passei a vegetariano."