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Sexo na cidade

18:35 Sexta feira, 5 de novembro de 2010

Um casal de jovens sem abrigo ia sendo apanhado a fazer sexo na rua. A rua de Santa Catarina, no Porto, não é lugar adequado para estas práticas. No mínimo, é devido respeito à sua santa padroeira.

Mas, sendo jovens sem abrigo, não surpreende que não tivessem outra alternativa a não ser tentar fazer sexo à luz do dia.

A luz do dia, às três horas da tarde, é agressiva. E o povo, que é sereno, não gosta. Um grupo de pessoas, enraivecido com a cena, acabou por espancar o casal. Se não se deve bater numa mulher com uma flor por que se há-de bater num casal, embora pecaminoso, nutrido de nobres sentimentos e irreprimível atracção um pelo outro?

O "flagrante deleite", fora do flagrante delito, é uma dificuldade para o código penal compreendê-lo. Antigamente não podia passar despercebido. Agora, potenciado até à náusea pelas novas tecnologias de comunicação, vêem os que lá estavam e verão os que nunca lá estiveram.

Ainda o casal estava em debandada e já as imagens das cenas de violência e outras eventualmente chocantes - no sentido em que chocar o ovo pode dar origem a um ser vivo - estavam a circular pelo Youtube. Maria Fernanda, vendedora ambulante na rua de Santa Catarina só se apercebeu que "caiu porrada da velha". A "porrada da velha", aplicada a gente nova, é sempre intemporal.

Não vejo razão para reprimir estas tentações. Desde logo porque estes episódios, aparentemente problemáticos, violando a lei e os bons costumes, deveriam ser aproveitados para potenciar o processo de ensino/aprendizagem, em matérias que hoje são obrigatórias de estudo, nas escolas públicas, como a Educação Sexual. Um docente, aflito em diversificar estratégias de motivação dos alunos para as aulas de Educação Sexual, bem podia - se não houvesse esta irracionalidade popular - organizar visitas de estudo à rua de Santa Catarina. Aí, enquanto o professor até tomando discretamente um cimbalino no Majestic, os alunos, de caderno em punho, ou mesmo munidos de telemóveis de última geração e a três dimensões, poderiam colher material abundante para as aulas. É importante aprender in vivo a relação entre desejo e sexualidade, o interesse dos preliminares no acto sexual e, como no caso vertente, a utilidade do coito interrompido enquanto meio de prevenção de gravidezes indesejadas e de doenças sexualmente transmissíveis. 

Eu pela minha parte, com aquela faúlha de costela que me sobrou de Maio de 1968, ainda sigo o conselho de Léo Ferré: "quand je vois un couple dans la rue, je change de trottoir". Que é como quem diz, quando vejo um casal apaixonado na rua, viro a cara para não perturbar o encantamento.

Eu sei que este encantamento ou, melhor dizendo, este espancamento que sofreu o homem, com o banano que levou, foi muito especial. O homem ficou praticamente num oito, interrompido. É certo que o casal andava muito borbulhado em cerveja de litro. Ou, quiçá, levedado em muitos litros de outras substâncias mensuradas noutras unidades de medida infinitesimais. Mas isto sou eu a pensar mal, como sempre!

Agora, lá que um sem abrigo não pode ser obrigado a praticar sexo abrigado, parece-me evidente. O Estado, quando muito, devia obrigar-se a abrigar os sem-abrigo logo desde o berço. Mas não estou a ver o Estado, que nos leva coiro e cabelo com impostos, a preocupar-se com as ninharias do apoio à educação dos que vivem nas margens da sociedade.

O Estado preocupa-se apenas com os corpos dos excluídos. É por esta razão que, quando a coisa azeda, manda sempre os seus corpos mais queridos, os corpos de intervenção, para pôr fim às lutas de corpo a corpo que ponham em causa a estabilidade social.

Na rua de Santa Catarina isso só não aconteceu porque o Estado também se distrai. E não somos apenas nós que nos distraímos com espectáculos de rua, dos mais tristes.

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xerudsoll (seguir utilizador), 1 ponto , 19:38 | Sexta feira, 5 de novembro de 2010
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Man on the Moon (seguir utilizador), 1 ponto , 15:01 | Sábado, 6 de novembro de 2010
Não se faz amor na praça pública, mas também não se pode fazer justiça com as próprias mãos. É tão violenta a provocação como a reacção do povo.
 
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