24 de abril de 2014 às 5:48
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"Ser pai far-me-ia feliz"

O homem atrás do político que lidera o Partido Popular deixou-nos entrar no seu território exclusivo. Aos 46 anos, confessa que ainda gostava de ser pai, escrever um romance e fazer um filme. E claro, chegar a chefe de Governo. (Veja fotogaleria no fim do texto)
Cândida Santos Silva com José Ventura (fotos)

Convidámo-lo para uma ida ao cinema e ele desafiou-nos a fazermos a sua rotina de domingo à noite. Uma hora numa livraria, pausa para o sexto café do dia e degustação da habitual trouxa de leite condensado. O serão terminou já passava das três da madrugada e Paulo Portas ainda tinha os jornais estrangeiros para ler. Ambicioso, frenético e gentil, o líder do CDS-PP é um homem de contrastes. Nascido numa família de posses e com uma educação privilegiada, sente-se bem nos salões da alta roda ou nas feiras a beber um copo de tinto. Ambiciona liderar um Governo e, quando deixar a política, equaciona sair de Portugal e passar o resto da vida em viagem e a escrever romances. Sem urgências, tem no horizonte ser pai.

Sendo conservador, como é que lida com o facto de ter um pai de esquerda, um irmão bloquista e uma irmã socialista?
E uma mãe que não é nada disso e um avô que era deputado do Estado Novo, para ficar mais completo. Aprendi a ser tolerante, no seio de uma família com pessoas muito diferentes. Só foi possível darmo-nos bem com uma aprendizagem intensiva de tolerância. Isso aconteceu, sobretudo em casa dos meus avós, no Alentejo, a seguir ao 25 de Abril. O meu avô era uma figura do antigamente, com dois filhos ligados à esquerda e dois mais à direita, embora todos de raiz e utopia católicas. Sempre tivemos um sentido de família muito gregário, apesar das discussões acesas.

Discutia-se política à mesa?
Precisávamos de chegar a uma certa idade para podermos falar à mesa.

No interior de sua casa, em Caxias, com um cartaz de Sharon Stone ao fundo. "Este é o cruzar de pernas mais famoso da história do cinema", diz Portas. Esta peça rotativa desenhada por si, também reproduz uma imagem de Churchill e do seu herói Corto Maltese
Quando é que pôde falar à mesa?
Não sei. Ouvíamos e obedecíamos a alguns códigos. Ninguém se levantava da mesa sem pedir autorização, sem agradecer a Deus a refeição. Lembro-me de o meu avô e os meus tios irem fumar um charuto para uma sala, onde discutiam negócios e questões de família, enquanto as senhoras iam para outra jogar canastra.


Alguma vez houve rupturas de laços familiares por causa de divergências políticas?
Houve cisões duras e mágoas. Que eu me lembre nunca houve rupturas. De todas as relações tensas que havia naquela família, porventura a mais serena era a minha com o meu irmão. Lutava com ele na condição de irmão mais novo. Tratamo-nos respeitosamente mano velho e mano novo. Temos uma diferença de idades de seis anos. Embora tivéssemos feito opções diferentes temos uma ligação muito forte desde criança.

Quando é que começaram a divergir?
Foi quando, provavelmente, o Miguel começou a fazer parte daqueles que perguntavam quando é que se levava a Revolução até ao extremo e eu perguntava como é que se evitavam os seus danos.

Com que idade começou a ter opinião política?
Foi depois da Revolução. Houve uma série de coisas que gostava e preservava e que caíram por terra. Não gosto de ambientes tumultuosos, lembro-me do caos e da anarquia, da versão familiar disso, com tios a irem para o Brasil, da minha mãe pensar ir viver para fora, de ser enviado para França para não ser educado no meio da Revolução. Lembro-me de como os jesuítas se protegeram desse caos, de dissensões familiares, de quão dura foi a Reforma Agrária na família do meu pai.

O seu irmão derivou para o caminho oposto em termos de convicções políticas.
Pois derivou. Acho que foi por ter saído do São João de Brito (risos).

O senhor também saiu. Andou três dias numa escola pública. Sentiu-se mal e pediu para regressar?
Sabe por que não gostei? Tinha perdido todos os amigos. Eles estavam no São João de Brito e elas nas Doroteias. O meu mundo tinha mudado do dia para a noite.

Pediu para voltar?
Claro! A minha mãe sempre achou que o investimento na educação era o que melhor se podia fazer. Sempre foi muito exigente. Nunca teve transigência com a preguiça, com a indolência, com experimentalismos. Nenhum de nós foi educado no desperdício nem na facilidade. Se eu dissesse que queria uma camisola, diziam-me que não tinha querer e o mais provável era levar com a do meu irmão mais velho.

Foi bom aluno enquanto esteve no São João de Brito?
Bastante. Era muito aplicado. Particularmente bom a História e Português. Na universidade não foi assim. Fazia muitas outras coisas em vez de estudar. Acabei com uma modesta média de 12 valores. Sou um daqueles casos, abundantemente português, de ter problemas com a matemática. Se assim não fosse tinha ido para arquitecto, como o meu pai.

A beber a bica antes do cinema

Qual é a memória mais forte que guarda da infância?
As férias e as épocas festivas no Alentejo e na Galiza, onde viviam uma parte da família Portas. Fazíamos vida de campo. Andávamos de bicicleta, fazíamos tiro aos pombos, caça, líamos. Éramos muito felizes.

Quando tinha cinco anos os seus pais separaram-se. Lembra-se?
Não tenho uma grande memória desse acontecimento. Fui muito protegido. O meu irmão lembra-se mais.

Em criança o que é que queria ser quando fosse grande
Piloto de avião. Fiz baptismo de voo muito cedo, com a minha mãe. Ela tem brevet. Um dia destes vou tirar o curso no Aeroclube, gosto imenso de andar de avião. Mas já caí num poço de ar. Foi no Falcon, vinha de uma visita oficial a Marrocos e tudo voou, o queijo, o vinho. Houve duas pessoas que permaneceram serenas: eu e o director geral de armamento. É verdade que naqueles segundos revisitamos o essencial da nossa vida e as pessoas de quem nos queremos despedir. No colégio fiz uns testes que indicavam que podia ser político ou padre.

Padre?
Talvez pela retórica. Não tinha nenhum particular ascetismo. Não faço uma reclamação de fé nem uma exibição de fé. Nos jesuítas ninguém era obrigado a ir à missa e, porém, a missa estava cheia.

Foi criado pela sua mãe. É mais próximo dela ou do seu pai?
Uma parte da minha educação estética devo-a ao meu pai, porque era arquitecto e me levou a viajar, porque me ensinou a gostar de arquitectura e de pintura. Da minha mãe herdei uma atitude simultaneamente exigente e bem disposta. A minha mãe tem a mais admirável forma de inteligência, que é o sentido de humor, com uma gargalhada sonora e demorada. É um poço de vida. Mas é uma mulher muito exigente. Ainda hoje se qualquer um de nós a for buscar de carro, não entra se não lhe abrirmos a porta.

A sua energia vem dela?
Sempre me conheci assim. Nunca fui indolente.

Teve uma educação privilegiada, tem um ar nobre, conservador, mas depois frequenta com à-vontade feiras e mercados. É um sacrifício ou um prazer?

Num serão de domingo na Livraria Almedina, onde compra biografias, romances e livros de história política
É natural. É impossível ser político sem gostar do povo. Nesse caso é melhor mudar de ramo. Não faço esforço nenhum, se o fizesse notava-se. Estou naturalmente nas feiras como em qualquer outro ambiente. Costumam-me dizer que sou melhor ao vivo do que na televisão. Deve ter alguma coisa a ver com o grau de agressividade do Parlamento.

Não tem medo do confronto?
Não tenho medo nenhum. Tenho imensa admiração por pessoas com coragem física e intelectual. Pelo contrário, não tenho respeito nenhum pela cobardia. E admiro imenso as pessoas que resistiram à tortura. Isto leva-me a ter imenso respeito pelos cristãos da Ucrânia que tinham que ir à missa no meio da floresta ou por comunistas que tenham sido torturados por outros regimes autoritários.

Tendo em conta que não gosta de álcool, como é passar pelas feiras e beber uns copos de tinto?
Um político em campanha é como uma criança, não tem querer. Aceita o que lhe dão. Como não bebo muito, se beber mais do que a norma fico alegre. Não sendo mal-educado, tento ser parcimonioso.

É workaholic desde que idade?
Há uma altura da minha vida em que disse aos meus pais que apesar de tudo o que me tinham dado, e era imenso, queria trabalhar, fazer as minhas escolhas de vida e poder pagar as minhas coisas. Tive semanada e mesada como toda a gente, tive horas para entrar em casa, idade para receber a chave, mas entre os 14 e 15 anos quis trabalhar. Comecei a escrever para jornais. Fui para o "Tempo" como estagiário.

Aos 15 anos foi processado pelo general Ramalho Eanes, então presidente da República, por um artigo que escreveu num jornal em que o chamou de traidor. Alguma vez falou com ele sobre o assunto?
Não tinha idade para responder pessoalmente. Quem nasceu na minha geração teve formação política muito intensa e foi testemunha de muitos acontecimentos. Não gostava nada daquele caos. A anarquia e o PREC fizeram de mim um conservador.

Os seus pais não lhe deram uma reprimenda?
Reagiram com a mesma tolerância com que reagiam às suas próprias divergências. A diferença lá em casa nasce connosco. Só me disseram que fizesse eu o que fizesse o meu primeiro dever seria estudar e passar de ano. A minha mãe achou que as coisas estavam num caos tal que me mandou para França durante um ano para estudar, pois achava que a Revolução não era o melhor ambiente para educar um adolescente.

Já falou com o general Ramalho Eanes sobre esse assunto?
Sobre esse assunto não. Mas temos uma relação cordial. Quando temos 15 anos pensamos, dizemos e escrevemos coisas que são muito sublinhadas nos adjectivos. Com 15 anos tudo é com cores mais vivas. Depois batemos com a cabeça nas paredes, somos agredidos, temos a experiência do sofrimento. E passamos a olhar para as coisas com maior serenidade.

Está nesse estádio?
Acho que sim. À medida que caminhamos na idade o nosso corpo aproxima-se da nossa sombra. Quem não faz asneiras ou tolices aos 15 anos não vive a adolescência em plenitude.

Na sala de estar a ver uma colectânea de imagens do tempo de Mao

Tem 46 anos. Perdeu algum ideal?
Nunca tive utopias. O que faz de mim um conservador e não um revolucionário. Nunca quis um modelo de ser humano perfeito, nunca quis mudar o homem ou a natureza humana. Isso é próprio de um regime totalitário. Hoje, porventura, dou mais valor às instituições.

Aos 25 anos iniciou a aventura do "Independente". Fundou um jornal ou um projecto político?
A ideia foi criar um jornal. O projecto político só surgiu mais tarde. Certo dia encontrei-me por acaso com o Miguel Esteves Cardoso na Buchholz. Era um jornal graficamente libertário e muito moderno para a época, completamente pluralista na escolha das inteligências e dos talentos, mas depois assumidamente conservador do ponto de vista editorial.

Quem era o responsável pelas manchetes do "Independente", por causa das quais caíram vários ministros?
Fui o responsável por muitas manchetes. Umas certas, outras erradas. Aquele jornal era inimaginável sem o Miguel, como o era sem o pequeno e selecto grupo de capitalistas, que eram uns verdadeiros senhores, que tornaram o jornal possível. O jornal deu imenso dinheiro a ganhar. Eu e o Miguel tínhamos 1,5% das acções e ganhámos imenso dinheiro.

Que depois gastou como político.
Sim. Fui empobrecendo. Fui depauperando. Nessa matéria tenho uma grande liberdade e muita sorte. Não tenho muitas despesas familiares e tenho algum património que posso ir gastando.

Onde é que se encontrava com Marcelo Rebelo de Sousa para ele lhe passar as cachas?
Encontrava-me imensas vezes com ele, em Cascais, em Lisboa, mas muitas vezes falávamos por telefone. Mas o Marcelo não era fonte exclusiva do Independente", era de todos os jornais.

Foi Durão Barroso que lhe passou aquela informação sobre a manta que Deus Pinheiro terá tirado de um avião?
Não. O "Independente" fez coisas óptimas e outras menos boas. Essa, pertence à segunda categoria.

Há alguma manchete de que se arrepende?
Há, com certeza, mas a esta distância não sei. Fizemos alguns erros.

Irradia adrenalina. Aonde é que vai buscar energia?
Faço uma coisa que um dia me há-de custar bastante. Tomo cafés a mais. E também vou ter que deixar de fumar. Como político, se deixar de fumar posso ficar com ar zangado, mal-disposto, irritado ou engordar.

O que ganha como político é suficiente para a vida que leva?
Se não tivesse património, provavelmente escolheria outra vida. Se tivesse filhos para educar, uma casa para manter, tinha que mudar de trem de vida.

É solteiro. Gostava de ter filhos?
Gostava.

Faz parte dos seus projectos de vida?
Tenho tantas urgências, mas está nos meus horizontes. Não faz sentido passar por este mundo e não acompanhar e fazer o que estiver ao nosso alcance por uma criança.

No escritório, forrado de livros, em que a asa de um avião dos anos 40 faz de secretária

Quando os tiver vai ser tão conservador e intransigente como parece?
Dar-lhes-ei a melhor educação que estiver ao meu alcance e serei muito exigente. Mas teria que os compreender sempre.

É por uma questão de descendência ou de perpetuação do nome que deseja ter filhos?
É por uma construção de felicidade. O que é uma questão pessoal e não política. Acho que ser pai me fará feliz.

Como é que reagiu às palavras de Francisco Louçã, na altura do referendo à interrupção da gravidez, quando disse que não tinha autoridade na matéria por que não sabia o que era dar vida.
Ficou à vista a tentação totalitária que paira naquela cabeça. Uma cabeça inteligente mas com uma tendência totalitária.

Como reage aos boatos que correm sobre si?
Não ligo nem quero saber. Tenho uma amiga que diz que se alguém não gosta de nós é esse alguém que fica a perder. Aprendi com o padre João Seabra na universidade que a velocidade do rumor é infinitamente superior à da verdade. Já sou catedrático nisso.

Há um longo historial de zangas na sua vida. Durão Barroso, Marcelo Rebelo de Sousa, Manuel Monteiro, Freitas do Amaral, Maria José Nogueira Pinto. É uma pessoa difícil?
Não sou difícil. E nenhuma das pessoas que citou me parece que seja uma pessoa fácil. Toda a gente tem ao longo da vida decepções pessoais. As coisas com Durão Barroso ficaram resolvidas.

Há alguma figura pública com quem não fale.
Talvez o ministro da Agricultura (risos).

Fala com Marcelo Rebelo de Sousa?
Quando o encontro cumprimento-o.

É fácil fazer amigos na política?
O valor social que mais respeito é o trabalho, e o valor pessoal é o carácter.

Tem alguma admiração pelos seus opositores?
Tenho. Os adversários não são apenas colecções de defeitos. Sócrates tem determinação. Mas tem mentido imenso. Ainda por cima acredita nas suas próprias mentiras. E não ouve nada do que se lhe pergunta.

O seu amigo Vasco Pulido Valente diz que é o político mais mal conhecido do glossário político português. Porquê?
É capaz de ser verdade e uma parte da responsabilidade é minha. Sou bastante assertivo no que penso e digo, mas sou reservado quanto à minha privacidade. Os políticos em Portugal não são aquilo que são. São aquilo que a esquerda diz que são. Sócrates é determinado, Jerónimo de Sousa é simpático, encontramo-nos com alguma frequência no fumatório da Assembleia. Em Manuela Ferreira Leite gosto da distância e da integridade. Tenho mais dificuldade em reconhecer qualidades ao Francisco Louçã. A não ser a inteligência. A vida não o centrou. É um julgador permanente dos outros, como se a virtude lhe tivesse caído ao colo.

A imprensa não gosta de si?
Faço cada vez mais o que gosto de fazer.

Tem cada vez menos ar crispado.
Sim. Estou mais centrado. Se a forma como dizemos as coisas prejudica a essência daquilo que dizemos temos que corrigir. Tento evitar alguma severidade parlamentar, que com este primeiro-ministro é muito difícil de evitar.

A sua passagem pelo Governo deu-lhe pose de Estado. Há quem tenha dito que estava grávido de sentido de Estado.
Assumi o meu trabalho. Depois de sair do Governo tinha o colesterol elevado porque não almoçava nem jantava. Depois ceava e como gosto de ler, mais ceava. Tive que fazer um programa de reeducação alimentar.

Retomou o exercício físico?
Voltei a correr e a nadar.

Há quem diga que tinha perfil para ministro dos Negócios Estrangeiros.
Também há quem diga que seria bom ministro da Administração Interna. Nisso sou assim: tenho uma lista de encargos e empenhei-me no seu cumprimento. A suposta gravidade de Estado é uma adjectivação jornalística. Poder é serviço e resultado. Cumpri quase tudo a que me comprometi. Quando fomos interceptados a confiança da maioria das pessoas perdeu-se. Respeitei a decisão de Durão Barroso. Tem sido um bom presidente da Comissão Europeia, mas objectivamente é muito difícil uma maioria mudar de primeiro-ministro a meio do caminho. Acho que Pedro Santana Lopes tinha razão na intuição que tinha que devia ter ido a votos.

Também era a sua opinião?
Fiquei dividido a meio, entre terminar ali a coligação ou aceitar a substituição. Tinha um contrato feito e a saída de Durão punha isso em crise. Privilegiei a estabilidade na opção que tomei, mas porventura deveria ter privilegiado a autenticidade.

Há a ideia de que Paulo Portas seca tudo à sua volta.
De todo. Credo! Se há pessoa que favoreceu a entrada de gente nova e lhe atribui responsabilidades fui eu.

Se calhar porque o partido se esvaiu com a saída de alguns históricos.
Mas eles têm as suas próprias histórias. Zangaram-se com o partido muito antes de mim. Tirando Maria José Nogueira Pinto não me lembro de mais ninguém. Se há partidos estáticos são o PS e o PSD.

O seu partido obteve nas eleições para o Parlamento Europeu 8,4% dos votos quando as sondagens quase que lhe vaticinavam o fim. Ficou surpreendido?
O resultado das europeias surpreendeu muita gente, não tanto a mim. O CDS está numa linha ascendente. Mantendo o ritmo e a fidelidade às suas causas, vai voltar a crescer, porque vai voltar a ser necessário.

A campanha correu bem a Nuno Melo. Tem medo que lhe faça sombra?
O partido foi a votos sem que o candidato fosse o líder. Nuno Melo saiu-se bem. Tem imenso futuro.

Se precisarem de si, admite fazer alianças à esquerda e à direita?
Temos uma lista de encargos. Se ficar garantida saberemos dar estabilidade. Mas estou mais longe, cultural e ideologicamente dos socialistas.

Na sua vida a política é muito importante?
É. Mas estar ou sair da política faz parte da minha liberdade. Não recomendaria a ninguém que votasse em pessoas que dependem da política. O termómetro de liberdade é, apesar dos constrangimentos ou das obrigações, poder desmontar a tenda várias vezes ao longo da vida. Já mudei de jovem universitário preparado para exercer advocacia para jornalista, de jornalista para político e hei-de mudar muito mais.

Disse, em 2001, quando era líder do partido há três, que ninguém se devia eternizar mais do que oito anos no poder, porque se ia perdendo qualidades. Estamos em 2009. Quando pensa fechar a porta?
Fiz apenas três anos de Governo.

Espera estar mais?
Gostaria de, estando num Executivo, fazer mais coisas e em mais sectores. As pessoas sabem o que fiz na Defesa. Nos debates com o engenheiro Sócrates a cada pergunta que faço, faz de mim uma coisa que nunca fui. Nunca o ouvi a atacar-me enquanto ministro da Defesa. Politicamente é ambicioso.

Se estivesse filiado no PSD podia ir mais vezes a ministro.
Se estivesse na política com uma visão de carreira era do PSD ou PS. Se não sou só deve ser por uma razão boa. É por uma razão de convicção. Quem eu gostava na política era de Sá Carneiro. Foi a sua figura que me convocou para a política. Era o meu ídolo. Ainda hoje acho que foi a grande figura política pós 25 de Abril. Quando morreu, perguntei-me o que estava a fazer num partido que não era doutrinário.

Quem é que o foi buscar para o CDS?
A ideologia. Gostei do esforço de modernização feito por Lucas Pires.

Mas zangou-se com ele.

É em gravatas e livros que o líder do CDS-PP diz que gasta mais dinheiro, aqui, indeciso, frente a um espelho de casa, riscas ou pintas, eis a questão

Conhece jornalistas sem polémicas? Prefiro pessoas com passado, que fizeram alguma coisa, do que pessoas que não têm passado nenhum.

Em política qual é a sua maior ambição?
Crescer, crescer, crescer.

E do ponto de vista do poder? É ser ministro?
É dirigir um governo.

Acha possível como líder do CDS?
Não olhem aos partidos. Olhem para as pessoas, comparem defeitos e qualidades. Não me sinto desconfortável com a avaliação.

Qual é o seu pior defeito? (Silêncio). Algum convencimento. Sou muito perfeccionista. Irrito-me facilmente, com a falta de profissionalismos, mas não tenho um pingo de ressentimento.

Isso é uma virtude.
Não é uma virtude é uma oportunidade. Não colecciono ressentimentos.

Considera-se um homem bonito?
(risos) Não faço ideia. Mas a idade é inexorável. A política é muito desgastante. Daí a minha preocupação em fazer ginástica.

Mudava alguma coisa em si do ponto de vista físico?
Detesto agências de imagem. Nunca usei. Detesto cartazes em que nos tiram as rugas. Aliás, por mim tirava os cartazes das campanhas. Tentava andar uns anos para trás.

É vaidoso?
Hum. Lembra-se do Oscar Wilde: 'Vanity is my favorite scene'. Mas não subscrevo. (Risos)

Está sempre na moda...
Isso não é verdade.

Gosta de provocar?
Gosto imenso de ter sentido de humor e de conversar com quem o tem. Inquieto-me com as coisas. Gostava de preservar, por bastante tempo, a capacidade de me inquietar e de me indignar.

Cinema e livros para espairecer

PAULO PORTAS, 46 anos é um homem minucioso, quase picuinhas, diz quem o conhece bem. "Talvez se deva ao signo", reconhece este nativo de Virgem, muito preso a rotinas e rituais. "Normalizam-me a vida". Gosto de ir ao cinema, ao domingo à noite, quase sempre a última sessão, quase sempre às mesmas salas. "Vejo quase tudo o que passa e nem tudo o que passa é bom". Nesses dias inicia o serão na livraria Almedina, onde procura as edições mais recentes de "biografias, história política ou um bom romance". Não passa sem devorar uma trouxa de leite condensado e beber mais um café. "Nestes momentos consigo baixar a pressão, cortar com o resto". Mas raramente desliga o telemóvel, chegando mesmo a tratar de assuntos pendentes ou mandar mensagens enquanto assiste a um filme. Num destes domingos fomos com ele ao cinema. Escolheu, como é seu hábito, a última sessão. Chegou à hora combinada, de pólo e calças caqui. Diz que aprender a ser pontual com os militares. Na bilheteira trocou informações com a vendedora. Optou, porque já tinha visto quase todos, por "Anjos e Demónios", baseado no best seller de Dan Brown. Éramos seis pessoas na sala. Portas escolheu uma coxia e gostou do filme. Antes do início da sessão passou quase uma hora da livraria onde comprou vários livros. Uma biografia de Bismarck para oferecer ao amigo Bagão Félix, um livro de posters do cinema italiano, um ensaio sobre comportamento criminal, de David Jones, uma monografia sobre Nuno Álvares Pereira, um livro sobre a Batalha de Trafalgar e "A História de Israel", de Martin Gilbert. "Se só tratasse da política ficava estúpido", desabafa. Descontraído e bem humorado, revelou-se uma boa companhia para o serão.


Paulo dentro de portas

A CASA ONDE VIVE,em Caxias, alugada depois de ter experimentado o sabor do poder quando foi ministro, foi reformulada e decorada por si. A base arquitectónica tradicional está agora a ser substituída por um estilo minimalista que reflecte o seu sentido estético. Paulo Portas teve a preocupação de escolher materiais, cores e texturas ao gosto contemporâneo.

A sala de estar é dominada por uma grande tela de cinema, que o líder do CDS-PP diz não substituir o vício da sala de cinema. Uma sombrinha indo-portuguesa, descoberta num antiquário da Rua de São Bento, em Lisboa, contrasta com o tapete negro de Joana Vasconcelos. Pelo chão espaham-se álbuns, como um de postais de propaganda chinesa dos tempos de Mao, ou de fotografias de calendários da Pirelli. O corredor de acesso à parte mais privada da casa é pintado em vermelho cor-de-boi, e termina numa espécie de mupi onde vão alternando imagens de Churchill, Corto Maltese e Sharon Stone, no cruzar de pernas mais famoso de toda a história do cinema. "Churchill é a figura que mais admiro, Corto Maltese o meu herói preferido e Sharon Stone é um mito da Sétima Arte".

Uma janela do piso superior foi transformada num grande aquário e escritório, forrado a livros, é dominado por uma forma original secretária, metade de uma asa de um avião, um Douglas Constellation dos anos 40, comprado num leilão. Mantida como originalmente, apenas lhe foi acrescentada quatro discretas pernas. É ali que Paulo Portas escreve os discursos, artigos do jornal ou vai rabiscando ideias para um futuro romance. Escreve sempre à mão em folhas de papel liso. Portas não quer nada com os computadores.

Os pais, o arquitecto Nuno Portas e a economista Helena sacadura Cabral, apenas puderam visitar a casa quando a remodelação estava concluída. "A minha mãe tenderia a oferecer-me coisas e o meu pai imporia ali algumas das suas regras arquitectónicas. Quando cá veio disse que aqui nada estava sobre nada". É no deck da piscina, com mobiliário do exterior contemporâneo, que o político passa algum tempo. Nas reformas que fez só não mexeu na cozinha. "Não ponho lá os pés. Não sei fazer nada de nada". Foi isso que comprovámos no último dia de entrevista quando Portas não tinha a ajuda de Dona Birtila, a empregada que trata do patrão com algum insinto maternal e que trouxe do Forte de São Julião para aqui fazer algumas horas. Gentil, serviu-nos um café acompanhado de uma colher...de sobremesa.


Texto publicado na Revista Única da edição do Expresso de 13 de Junho de 2009


Comentários 42 Comentar
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COMENTÁRIO ELIMINADO
Caro Miguel Martins,

Há algo de muito errado na forma como o Expresso Online está a funcionar.

Publiquei um comentário que não tem absolutamente nada de insultuoso na entrevista completa a Paulo Portas e esse comentário desapareceu pura e simplesmente de vista. O comentário limitava-se a elogiar Portas enquanto político e não encerrava nenhum tipo de insulto a ninguém.

Considero muito grave e absolutamente desprestigiante que, num órgão de comunicação social como o Expresso, se eliminem comentários de uma forma tão leviana.

Sejam lá qual forem as razões invocadas para semelhante acto de censura, elas não são admissíveis de todo.

Agradeço, desde já, a reposição das minhas palavras!

Obrigado!

Paulo Pedroso

http://aeiou.expresso.pt/...
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Parece que não sou só eu... Ver comentário
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POIS ASSIM SEJA
O Portas que concretize o desejo e seja pai. Nada impede-o senão ele próprio e o encontro com quem queira ser a mãe. É um direito que lhe assiste e não um dever, como é óbvio.
Politicamente não é um homem sério.
A imagem que portas mostra nesta entrevista é completamente contrária à imagem que mostra como politico.

Como politico nunca vi ninguem ziguezaguiante como ele. Iniciou a sua carreira politica como um Conservador popular anti-europeu, o que até provocou a expulsão do seu partido do PPE, abrindo espaço para a entrada do psd.

Como tinha aspirações de governo, voltou a ser democrata-cristão e europeista e assim poder entrar no governo de durão barroso.

Apesar de dizer que é contra as agencias de imagem, vive para a sua imagem, na televisão, já observei por diversas vezes como ele muda a expressão quando sente que está a ser filmado. Tudo aquilo soa a falso, os beijinhos, os abraços, a roupa que veste, etc, etc, veja-se o facto de não apreciar alcool mas para a imagem, que não é a dele, la bebe um copo com o povo por um punhado de votos.

PP sabe melhor que ninguém dar a imagem que o povo rural e o mais manipulavel pelo populismo gosta, porque ele não é aquilo. Ele diz aquilo que no momento as pessoas querem ouvir, seja sobre segurança, sobre agricultura ou educação. Ele explora ao máximo as questões do momento, mas que enquanto membro de governo, nenhuma dstas questões foram resolvidas, vejam-se o atribulado começo de aulas e colocações deprofessores, o nivel de criminalidade daquela altura, ou o que nada fez pelos lavradores como em tempos os chamou, quando era anti-europeista.

Enfim, muitas mais contradições haveria a dizer.
Re: Politicamente não é um homem sério. Ver comentário
Re: Politicamente não é um homem sério. Ver comentário
"classe empresarial que o PP tão bem representa" Ver comentário
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"dizer o que as pessoas querem ouvir." Ver comentário
LOLOLOL! Ver comentário
CDS 297836 votantes. 3,1% dos eleitores...
A verdade dos números nas eleições europeias:Inscritos ...........9606648...100.0%
Votantes............3557603....37.0%

Abstenções.......6049045...63.0%
PPD PSD..........1127388.....11.7%
PS.................... 945430........9.8%
BE ....................381795........4.0%
CDU..................379295........3.9%
CDS PP............297836........3.1%

Brancos...........164832........1.7%
Nulos ...............71137.........0.7%

Outros...........189890...... 2.0%
Re: CDS 297836 votantes. 3,1% dos eleitores... Ver comentário
Falso
É uma entrevista muito bem conseguida, seguramente com imensa ajuda de especialistas de "marketing". Porém, para mim soa tudo a falso. Também me faz alguma impressão ver o Portas a afirmar, com toda a tranquilidade, que Sócrates "tem mentido imenso" e Louçã tem "uma tendência totalitária". Afinal, quem é "um julgador permanente dos outros, como se a virtude lhe tivesse caído ao colo"? Que eu saiba, Portas também tem uma concepção extremamente liberal da verdade, o que de facto parece inevitável na política Portuguesa, que muitas vezes mais se assemelha a uma disputa entre adeptos de clubes de futebol. Francamente, não suporto tanta demagogia.
GULOSO
Quase nos cinquenta, a beber seis cafés por dia (e o respectivo açúcar, que não foi referido, penso) e a comer aquelas trouxas de leite condensado (guloso lambido!), quando chegar aos 60 o seu sangue vai ser um autêntico melaço, com a circulação a fazer-se como a fila da A2 depois de férias. Veja-me essa glicémia, meu caro!
ERA DE NOITE E LEVARAM...
Deixei aqui um comentário sarcástico em que traçava um imaginário perfil de um hipotético filho de PPortas. Foi-se! Faço o quê? Queixo-me à Alta Autoridade para a Comunicação? À Comissão da Carteira? Não. Cada um fica com os gestos que toma... uma espécie de herança que todos julgávamos perdida no dia 25 de Abril de 1974. Da próxima, só falarei bem de Paulo Portas. Terá mesmo que ser?
Estranhissimo!?!?!
apos uma estrondosa derrota politica nas europeias, o lider do CDS aparece ao povo Portugues com a mesma naturalidade de quem beija
Re: Estranhissimo!?!?! Ver comentário
Re: Estranhissimo!?!?! Ver comentário
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Re: Estranhissimo!?!?! Ver comentário
Ele gostava de ser pai....
Homem, escrever um romance fazer um filme, dá trabalho mas face ao qe por ai se lê e vê, o senhor tem imensas capacidades para o fazer, ninguém dúvida de si. Mas quanto ao ser pai...uma coisa tão simples não entendo porque ainda não o conseguiu. Se calhar é falta de treino, o que é estranho pois normalmente aparece nas revistas com BOAS treinadoras. Vá-se lá saber porque ainda não conseguiu???
Esperança
As Europeias foram pesadas para o partido é certo...o importante é ver onde houve erro, corrigir, apostar forte...não vai ser fácil, mas vamos conseguir..se trabalharmos!
Será que o Expresso tem esperança e está a dar um
geitinho ao regresso da sinistra AD de tão má memória, ao dar protagonismo e recuperar a imagem de Paulo Portas?...A AD e o chamado "cavaquismo" foi um "projecto" que beneficiou uma pequena minoria e é a grande responsável pela opção politica que levou ao estado actual do País, com o aumento das desigualdades, da miséria, da falta de credibilidade da Justiça, da destruição do Serviço Nacional de Saúde, da corrupção e do "sucesso individual" dos seus politicos em detrimento da população portuguesa...Agora o que pretendem é manter os interesses estabelecidos...com falsas promessas e infelizmente com um partido Socialista que pouco se tem distinguido dessa politica. DESPROPOSITADO...Lá vão mais uns pontos...
Não sei porquê mas quando se fala de paulo Portas
penso sempre na antiga Ministra da Justiça Celeste cardona, hoje com um bom lugar na Caixa Geral de Depósitos...Mas não me lembro bem...ai a falta de memória...
"ser pai, escrever um romance e fazer um filme"


Meu caro:

Em relação a ser pai, é problema seu e de quem esteja disposta a ser a mãe dos seus filhos.

No que diz respeito a escrever um livro (romance ou qualquer outro estilo literário), não lho aconselho, porque nos tempos que correm é desprestigiante, já que, hoje, até "alternadeiras" escrevem livros !

Em relação a fazer um filme... sinceramente nem sei o que diga...

O filme era mais um para ser subsidiado? Então esqueça, que o NOSSO dinheiro tem destinos muuuuuuuuuuuuuuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiito mais prioritários!

O meu conselho é: se quer continuar na política, esqueça as "Vias-Sacras" feirantes pré-eleitorais, com o ridículo boné na "tola" e as "lambuzadelas" do costume, torne-se mais realista e cresca como pessoa.

A imagem que você faz passar é a de alguém que chegou à idade de adulto com postura de criança mimada.

culto da personalidade
é so o que este artigo tem, estamos em presença de seres superiores, que provavelmente quando vao ao WC nào cheiram, mal sao diferentes, e é assim que se criam os mitos, os herois, ha 40 anos podia-se compreender este tipo de artigos mas hoje, é lamentavel, mas é verdade que os jornais e revistas vivem destas coisas, o pai de familia ou a mae, nào têm valor nao interessa a ninguém saber que vivem com dificuldades para educar os filhos, agora estas pessoas que nasceram com uma culher de prata no berço, que têm uma vida social e sexual a parte isso sim é interessante.
ze_pedro2003
Depois desta entrevista nada será como antes. O titulo escolhido foi, "Ser pai far-me-ia feliz", pois é. Para se ser pai é preciso uma mãe. Primeiro e único conselho, não escolha para mãe a Diana Chaves ou a Soraia Chaves, porque se sair gemeos, teriam de ser chamados de Portas-Chaves.
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