| Dia Mundial da Sépsis |
Sépsis mata rápido e cada vez mais pessoas
Hoje assinala-se, pela primeira vez, o Dia Mundial da Sépis, uma patologia responsável pela morte de seis milhões de bebés e crianças pequenas, por ano, no chamado mundo desenvolvido.
Aliás, as estatísticas internacionais dão conta de uma realidade avassaladora: entre um terço e metade dos doentes com sépsis acabam por morrer. E qualquer pessoa pode desenvolver uma sépsis, já que este quadro surge a partir de uma infeção comum. Embora existam grupos de risco.
O que é afinal a sépsis: "Antigamente, e durante muito tempo, chamavam-lhe 'envenenamento de sangue'", refere o diretor do serviço de medicina intensiva do Centro Hospitalar Lisboa Norte, Carlos França. Explicando que a sépsis não é uma doença mas sim o resultado de um conjunto de fenómenos causados pela resposta (anormalmente exagerada) do nosso organismo a uma infeção.
Existem quatro estádios de evolução da doença: a sépsis, a sépsis grave, o choque sético e, finalmente, a falência multiorgânica. "A primeira traduz uma infeção banal, como uma amigdalite, a grave já compromete o funcionamento de alguns órgãos e o choque sético decorre quando o sistema cardiovascular se encontra comprometido, com o desenvolvimento de hipotensão arterial. Em geral, os doentes que morrem desenvolvem uma falência de múltiplos órgãos", explica Carlos França. A forma grave tem uma taxa de mortalidade que ronda os 30%, sendo que na terceira fase a probabilidade de morte oscila entre os 50% a 60%.
Com o mote "trave a sépsis, salve vidas", este dia mundial está a ser assinalado por mais de mil hospitais e organizações relacionadas com a Saúde. Entre os quais o Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Os profissionais da Unidade de Cuidados Intensivos da maior unidade hospitalar portuguesa alertam, com preocupação, para uma realidade que consideram alarmante e focam que é necessário empenho na Via Verde da Sépsis, à semelhança do que já existe para o enfarte do miocárdio e para o acidente vascular cerebral (AVC).
É que o diagnóstico precoce de um quadro de sépsis reduz substancialmente a probabilidade de morte. E o tratamento, essencialmente com a administração de líquidos e de antibióticos, se for célere é extremamente eficaz, refere António Pais de Lacerda, chefe do serviço de medicina intensiva do Hospital de Santa Maria. "A evolução de um quadro simples para uma situação com gravidade é muito rápida. A janela de atuação é de uma hora nos casos de sépsis grave, quando no enfarte temos até quatro horas para atuar e no AVC cerca de três", diz o diretor dos cuidados intensivos Carlos França.
Se uma sépsis grave for diagnosticada prontamente (até uma hora) a probabilidade de sobrevivência é de quase 80%, percentagem que desce para cerca de 40% caso passem cerca de três horas a partir do momento que a patologia começa evoluir para uma forma perigosa. Ao fim de 12 horas apenas 20% dos doentes sobrevivem.
É, por isso, determinante "sensibilizar os políticos e a comunidade médica para a sépsis", frisa Carlos França. A Via Verde da Sépsis só funciona reestruturando serviços de urgência "e definindo uma estratégia de identificação dos casos graves e para passarmos a ter uma mortalidade residual", adianta João Ribeiro, coordenador para região sul da Via Verde da Sépsis.
O também médico do serviço de cuidados intensivos de Santa Maria sublinha ainda que "os sinais são subtis mas perfeitamente identificáveis, através de análises e da medição da tensão arterial, que é mais baixa do que o usual nos casos em que a sépsis está a evoluir para um quadro clínico de risco". Mas é preciso que exista informação e que se passe a palavra, não só entre a população, mas também entre a classe médica para que o diagnóstico seja atempado e o tratamento iniciado precocemente, logo após as análises iniciais, refere o chefe do serviço de medicina intensiva do Hospital de Santa Maria, António Pais de Lacerda.
Os doentes que desenvolvem sépsis são muito diversos e por isso é mais complicado fazer a contabilidade nacional do número de casos, porque nem sempre são tratados nas unidades de cuidados intensivos. Há pneumonias que desenvolvem sépsis grave ou choque sético, bem como doentes submetidos a cirurgias que podem ter um quadro de infeção que desencadeia as respostas do organismo que levam a este desfecho.
O aumento do número de idosos com um grande número de patologias (co-morbilidades) é um dos fatores que justifica o aumento do número de casos, refere Carlos França. Além dos mais velhos e dos doentes cirúrgicos, as crianças, as vítimas de traumas (como acidentes de carro) e os doentes com HIV têm também maior propensão para desenvolver uma sépsis.
O Serviço de Medicina Intensiva do Centro Hospitalar Lisboa Norte recebe (com onze camas em Santa Maria e outras cinco no Pulido valente) recebe cerca de 700 doentes por ano (este número engloba além das onze camas deste serviço, outras cinco que estão num piso diferente). Deste total, entre 25% a 30% com um quadro de sépsis.
E trata-se de um número que não traduz a realidade, porque muitos outros casos são internados noutros serviços. O coordenador da Via Verde, João Ribeiro, estima que entre 10 mil a 20 mil pessoas recorram às urgências hospitalares em Portugal "com quadros de sépsis potencialmente graves".
Nem se sabe quantas pessoas morrem de facto em Portugal devido a sépsis, já que nas certidões de óbito não é aceite sépsis como causa de morte, já que não é uma doença mas sim um quadro clínico.
O diretor Carlos França indica que "os cancros da mama, pulmão e próstata somados matam menos do que a sépsis" e que, no entanto, o dinheiro alocado a combater estas três patologias supera em muito os fundos disponíveis para a sépsis.
No site http://www.world-sepsis-day.org é referido que, apesar dos avanços na medicina moderna, o número de hospitalizações por sépsis têm vindo a aumentar dramaticamente, mais do que duplicaram em dez anos.


Nuno Botelho
O coordenador da Via Verde para a Sépsis para a zona sul, João Ribeiro
