23 de abril de 2014 às 13:48
Página Inicial  ⁄  Atualidade / Arquivo   ⁄  Sépsis mata rápido e cada vez mais pessoas
Dia Mundial da Sépsis

Sépsis mata rápido e cada vez mais pessoas

Conhecida vulgarmente por ser uma infeção generalizada, a sépsis resulta da resposta do nosso corpo a uma infeção. A forma grave desta patologia mata mais do que os cancros da mama, do pulmão e da próstata juntos.
Ana Sofia Santos (www.expresso.pt)
O coordenador da Via Verde para a Sépsis para a zona sul, João Ribeiro Nuno Botelho O coordenador da Via Verde para a Sépsis para a zona sul, João Ribeiro

Hoje assinala-se, pela primeira vez, o Dia Mundial da Sépis, uma patologia responsável pela morte de seis milhões de bebés e crianças pequenas, por ano, no chamado mundo desenvolvido.

Aliás, as estatísticas internacionais dão conta de uma realidade avassaladora: entre um terço e metade dos doentes com sépsis acabam por morrer. E qualquer pessoa pode desenvolver uma sépsis, já que este quadro surge a partir de uma infeção comum. Embora existam grupos de risco.

O que é afinal a sépsis: "Antigamente, e durante muito tempo, chamavam-lhe 'envenenamento de sangue'", refere o diretor do serviço de medicina intensiva do Centro Hospitalar Lisboa Norte, Carlos França. Explicando que a sépsis não é uma doença mas sim o resultado de um conjunto de fenómenos causados pela resposta (anormalmente exagerada) do nosso organismo a uma infeção.

Sépsis mais grave mata 60% dos doentes

Existem quatro estádios de evolução da doença: a sépsis, a sépsis grave, o choque sético e, finalmente, a falência multiorgânica. "A primeira traduz uma infeção banal, como uma amigdalite, a grave já compromete o funcionamento de alguns órgãos e o choque sético decorre quando o sistema cardiovascular se encontra comprometido, com o desenvolvimento de hipotensão arterial. Em geral, os doentes que morrem desenvolvem uma falência de múltiplos órgãos", explica Carlos França. A forma grave tem uma taxa de mortalidade que ronda os 30%, sendo que na terceira fase a probabilidade de morte oscila entre os 50% a 60%.

Com o mote "trave a sépsis, salve vidas", este dia mundial está a ser assinalado por mais de mil hospitais e organizações relacionadas com a Saúde. Entre os quais o Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Os profissionais da Unidade de Cuidados Intensivos da maior unidade hospitalar portuguesa alertam, com preocupação, para uma realidade que consideram alarmante e focam que é necessário empenho na Via Verde da Sépsis, à semelhança do que já existe para o enfarte do miocárdio e para o acidente vascular cerebral (AVC).

É que o diagnóstico precoce de um quadro de sépsis reduz substancialmente a probabilidade de morte. E o tratamento, essencialmente com a administração de líquidos e de antibióticos, se for célere é extremamente eficaz, refere António Pais de Lacerda, chefe do serviço de medicina intensiva do Hospital de Santa Maria. "A evolução de um quadro simples para uma situação com gravidade é muito rápida. A janela de atuação é de uma hora nos casos de sépsis grave, quando no enfarte temos até quatro horas para atuar e no AVC cerca de três", diz o diretor dos cuidados intensivos Carlos França.

Se uma sépsis grave for diagnosticada prontamente (até uma hora) a probabilidade de sobrevivência é de quase 80%, percentagem que desce para cerca de 40% caso passem cerca de três horas a partir do momento que a patologia começa evoluir para uma forma perigosa. Ao fim de 12 horas apenas 20% dos doentes sobrevivem.

É, por isso, determinante "sensibilizar os políticos e a comunidade médica para a sépsis", frisa Carlos França. A Via Verde da Sépsis só funciona reestruturando serviços de urgência "e definindo uma estratégia de identificação dos casos graves e para passarmos a ter uma mortalidade residual", adianta João Ribeiro, coordenador para região sul da Via Verde da Sépsis.

O também médico do serviço de cuidados intensivos de Santa Maria sublinha ainda que "os sinais são subtis mas perfeitamente identificáveis, através de análises e da medição da tensão arterial, que é mais baixa do que o usual nos casos em que a sépsis está a evoluir para um quadro clínico de risco". Mas é preciso que exista informação e que se passe a palavra, não só entre a população, mas também entre a classe médica para que o diagnóstico seja atempado e o tratamento iniciado precocemente, logo após as análises iniciais, refere o chefe do serviço de medicina intensiva do Hospital de Santa Maria, António Pais de Lacerda.

Os doentes que desenvolvem sépsis são muito diversos e por isso é mais complicado fazer a contabilidade nacional do número de casos, porque nem sempre são tratados nas unidades de cuidados intensivos. Há pneumonias que desenvolvem sépsis grave ou choque sético, bem como doentes submetidos a cirurgias que podem ter um quadro de infeção que desencadeia as respostas do organismo que levam a este desfecho.

O aumento do número de idosos com um grande número de patologias (co-morbilidades) é um dos fatores que justifica o aumento do número de casos, refere Carlos França. Além dos mais velhos e dos doentes cirúrgicos, as crianças, as vítimas de traumas (como acidentes de carro) e os doentes com HIV têm também maior propensão para desenvolver uma sépsis.

Cancros prococam menos mortes

O Serviço de Medicina Intensiva do Centro Hospitalar Lisboa Norte recebe (com onze camas em Santa Maria e outras cinco no Pulido valente) recebe cerca de 700 doentes por ano (este número engloba além das onze camas deste serviço, outras cinco que estão num piso diferente). Deste total, entre 25% a 30% com um quadro de sépsis.

E trata-se de um número que não traduz a realidade, porque muitos outros casos são internados noutros serviços. O coordenador da Via Verde, João Ribeiro, estima que entre 10 mil a 20 mil pessoas recorram às urgências hospitalares em Portugal "com quadros de sépsis potencialmente graves".

Nem se sabe quantas pessoas morrem de facto em Portugal devido a sépsis, já que nas certidões de óbito não é aceite sépsis como causa de morte, já que não é uma doença mas sim um quadro clínico.

O diretor Carlos França indica que "os cancros da mama, pulmão e próstata somados matam menos do que a sépsis" e que, no entanto, o dinheiro alocado a combater estas três patologias supera em muito os fundos disponíveis para a sépsis.

No site http://www.world-sepsis-day.org é referido que, apesar dos avanços na medicina moderna, o número de hospitalizações por sépsis têm vindo a aumentar dramaticamente, mais do que duplicaram em dez anos.


Hospital de Santa Maria assinala dia Mundial da Sépsis



Comentários 4 Comentar
ordenar por:
mais votados ▼
Como não sou um médico ou algo similar,
desconhecia a mortalidade relativa à sépsis. Rio Grande
Sepsis?
"Sepsis" e "sético"??? Modernices?

SEPTICÉMIA e SÉPTICO, caraças!!!
Qual é o espanto?
Isto tem duas possíveis explicações (apesar de não ser médica nem enfermeira nem nada disso, informo-me): as bactérias e agentes patogénicos podem estar a desenvolver resistências até agora impensáveis aos fármacos e demais arsenal químico. No cenário português, a higiene dos hospitais é abaixo de medíocre, acho que nem na Líbia, nem no Iraque é tão má. Deve ser dos cortes impostos pela troika. As empresas pagam mal às empregadas, que na sua maioria (eu sei do que falo porque já vi) não querem é trabalhar, e não é só por causa do baixo salário (2 euros à hora). No São Francisco Xavier, varrem as agulhas, os pensos e as gazes para debaixo dos armários, lavam o chão só com água se for preciso e o resto do tempo estão de rabo sentado, a fumar ou a conversar. Há dois anos fui operada no Egas Moniz, e no quarto onde eu estava estava também um menino para ser operado. Por causa da anestesia, o moço vomitou no chão e só DUAS HORAS DEPOIS uma empregada foi lá limpar - com um resguardo de cama. No Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão, os corredores estão um nojo, as casas de banho cheiram a esgoto, as mesas dos refeitórios e das enfermarias coleccionam nódoas e as empregadas da limpeza gastam o tempo sobretudo sentadas na conversa. Em crioulo.
Re: Sépsis mata rápido e cada vez mais pessoas
Infelizmente esta doença não brinca.
Perdi um filho de gémeos que tive, com apenas 6 meses de vida com uma septissémia agravada,derivado a uma meningite fulminante!!
Em poucas horas todo o pequeno corpo foi destruído por dentro até chegar ao ponto de morte cerebral e ao fim de 15 dias tivemos de desligar a máquina.
Por isso alerto todos, muita atenção aos sintomas!!
PUBLICIDADE
Expresso nas Redes
Pub