Parece já uma evidência que, nomeadamente no campo das relações internacionais, haverá um mundo antes do WikiLeaks e outro depois.
Mas, curiosamente, o debate sobre o assunto tem assumido uma característica insólita: debate-se o facto em si, a divulgação, os contornos éticos e profissionais de ter sido feita, mas o que se divulgou acaba pura e simplesmente por - tão só ser divulgado! Ou seja: comenta-se a divulgação, mas não o seu conteúdo.
Esta peculiar situação parece revelar em primeiro lugar um significativo aspeto: é que, no fundo, se a divulgação em si é invulgar, os factos divulgados não constituem propriamente surpresas! Ninguém fica boquiaberto perante o facto de os americanos meterem o nariz na vida de toda a gente, de a Shell corromper meio mundo político na Nigéria, de que Washington sabia perfeitamente não haver as alegadas armas no Iraque ou de o eng. Sócrates ter descaradamente mentido sobre os voos da CIA (entre outras coisas, já se vê...). No fundo, já toda a gente tinha a ideia de que as coisas eram mesmo assim. A novidade é ter chegado a prova estampada nos jornais e nos computadores. O que dá uma ideia da hipocrisia generalizada do universo da política e da informação hoje em dia e não lhes compõe um retrato particularmente favorável.
Mas, além desta questão, existem dois pormenores que merecem alguma reflexão. Uma primeira é sem dúvida o puro aspeto quantitativo. Aquilo que, no fundo, talvez desencadeie mais a reação dos críticos da iniciativa de Assange é a constatação de como, por um lado, a instância política se generalizou a todos os aspetos da vida pessoal de qualquer cidadão; esbateu-se o espaço, diáfano que fosse, que separava o público e o privado, o político e o pessoal, o coletivo e o individual. Via burocratas da diplomacia, é a vida do mundo e de toda a gente que é observada, vigiada, comunicada, comentada.
Em segundo lugar, a tecnologia tornou esta situação possível. Poderá mesmo dizer-se talvez que a grande diferença hoje é sobretudo quantitativa - mas sabemos que uma tal mutação exponencial da quantidade tem implicações no fundo do problema, na qualidade do assunto. Há diplomacia e a sua ténue distância da espionagem desde que há mundo - mas estamos hoje face a uma outra coisa.
E talvez valha a pena refletir sobre o facto de esta situação não ser politicamente neutra. A verdade é que estas revelações que, afinal, parecem não espantar particularmente ninguém são substantivamente factos e realidades que, linhas gerais, à esquerda sucessivamente se têm apontado e denunciado e à direita se têm sistematicamente negado e ocultado.
Além de ser reveladora a escrita, o comentário, a avaliação. Pode não haver grandes novidades, mas aprende-se bastante sobre a arrogância, o despudor, o nível cultural e humano desta, digamos, diplomacia.
rubencarvalho@mail.telepac.pt
Texto publicado na edição do Expresso de 18 de dezembro de 2010