Já não é um segredo bem guardado. A Costa Vicentina é um dos últimos paraísos na terra. Pode ler-se em qualquer revista, brochura, folheto, guia. O desabrido oeste algarvio, batido pelos salgados ventos do Atlântico e os sopros do sul, que trazem de África a secura do deserto, começa a ser invadido. Invadido não só pelos operadores turísticos que insistem em contar o palmo de terra em "camas", 600 camas para aqui, 300 camas para ali (com a mercê do PIN, a mais sinistra invenção para atacar a paisagem protegida) mas também pelos turistas de caravana e tenda, avatares dos turistas de pé descalço. Em vez da mochila trazem uma casa ambulante, com estendal de roupa, tachos e panelas, mesas e cadeiras, lava-loiças, detergentes, latas e abre-latas, geleiras, garrafões, lençóis, baldes, duches. E trazem os cães. Muitos são alemães, muitos são espanhóis. Alguns ingleses e holandeses.
Percorrem as estradas da Europa naquelas casas de portento e chegam ao último paraíso. Entre a ponta de Sagres e Aljezur, o pedaço de paraíso onde costumo pousar, a praga do caravanismo e do campismo selvagem aumenta todos os anos. Invadem os parques de estacionamento da praia, ocupando dez lugares com a caravana, a mesa e cadeiras, as loiças sujas, as bicicletas, as pranchas de surf e a tralha. Estacionam nos melhores postos da falésia e ali ficam dias a fio, um verão inteiro, tapando o horizonte com as carripanas, bebericando cerveja e vinho ao pôr do sol, comendo latas de conserva e pão de plástico em fatias, trazido dos supermercados dos países onde habitam. Esta espécie de selvagens semeia à sua volta o lixo e a desordem e não gasta um tostão na aldeia ou no país que os acolhe sem cobrar. Os selvagens lavam a loiça na fonte da aldeia, deixando restos de detergente na água, entopem os caminhos e as dunas e nem chegam a conhecer a gente. Não frequentam restaurantes nem compram em lojas. Chegam, acampam, partem.
Os espanhóis são mais ousados do que os alemães e quejandos. Chegam com as litronas de cerveja e montam as tendas na praia, sobretudo nas praias não vigiadas e de difícil caminho, e por ali ficam, libertos de qualquer autoridade que corra com eles. As tendas são tendas beduínas, com metros de comprimento e cheias de comodidades. Uma das tendas serve de bar/restaurante. Vão espalhando o lixo na areia e na vegetação, defecando nas dunas, usando a paisagem como casa de férias. Grátis.
As autoridades portuguesas, com a tradicional bonomia, desorientação e incompetência, remetem umas para as outras a impossibilidade de travar a selvajaria. A polícia diz que não vale a pena multá-los porque eles não pagam e não existe um modo de os fazer pagar. Rasgam o auto. Uns dizem ainda que a lei europeia os impede de multar, uma fórmula inventada para nada fazer. Os da Conservação da Natureza e Biodiversidade, ICNB, chutam o problema para a autarquia e a autoridade, e a autarquia construiu o parque de estacionamento, como se isso a livrasse de responsabilidades. Um parque de estacionamento não é um parque de campismo selvagem. Resumo: ninguém mexe uma palha e Portugal oferece aquilo que qualquer país europeu regulamenta e faz pagar. Nenhum destes caravanistas e campistas ousaria fazer isto num dos parques e lagos da Alemanha ou nos parques de Espanha. Seriam removidos e multados.
Num passeio pelas dunas da praia do Amado verifiquei com os meus olhos os resíduos da selvajaria. Havia meia dúzia de tendas iguais às dos alpinistas, curvadas pela nortada, e duas tendas gigantes. Ao todo, uma vintena de selvagens caminhava por ali, nus ou com fatos de surf. A areia estava cheia de latas, garrafas vazias, restos de comida, sacos de plástico, pacotes de leite vazios, dejetos.
Em compensação, o português que era o concessionário do segundo bar da praia foi corrido do local pelos donos do terreno (privado) e até hoje impedido de assentar arraiais. Deram-lhe um cimo inóspito, junto dos carros, com cheiro a tubo de escape, sem água nem eletricidade, e onde nem um chapéu de sol se aguenta com o vento. Um gerador alimenta a caravana que serve de restaurante de praia, e o que era um bar decente e bem gerido, agradável à vista, abrigado, com comida decente e servido por gente decente, que beneficiava a praia e os que a usam decentemente, tornou-se... uma rulote. Parece que a única solução agradável para as autoridades, tão zelosas em repreender os portugueses e em vergar a espinha aos estrangeiros, foi o caravanismo obrigatório do restaurante.
O Plano de Ordenamento do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e da Costa Vicentina está a ser ultimado. Vamos ver quantos anos vai esta região durar antes de chegarem os 'pinados' campos de golfe e os hotéis, as camionetas dos turistas de pacote, substituindo e matando o turismo rural que é o único adequado ao 'paraíso'. Não dou cinco anos ao 'paraíso'.
Texto publicado na edição do Expresso de 14 de agosto de 2010