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Selvagens nas dunas

Não dou cinco anos ao 'paraíso' da Costa Vicentina.

Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
0:00 Quinta feira, 19 de agosto de 2010

Já não é um segredo bem guardado. A Costa Vicentina é um dos últimos paraísos na terra. Pode ler-se em qualquer revista, brochura, folheto, guia. O desabrido oeste algarvio, batido pelos salgados ventos do Atlântico e os sopros do sul, que trazem de África a secura do deserto, começa a ser invadido. Invadido não só pelos operadores turísticos que insistem em contar o palmo de terra em "camas", 600 camas para aqui, 300 camas para ali (com a mercê do PIN, a mais sinistra invenção para atacar a paisagem protegida) mas também pelos turistas de caravana e tenda, avatares dos turistas de pé descalço. Em vez da mochila trazem uma casa ambulante, com estendal de roupa, tachos e panelas, mesas e cadeiras, lava-loiças, detergentes, latas e abre-latas, geleiras, garrafões, lençóis, baldes, duches. E trazem os cães. Muitos são alemães, muitos são espanhóis. Alguns ingleses e holandeses.

Percorrem as estradas da Europa naquelas casas de portento e chegam ao último paraíso. Entre a ponta de Sagres e Aljezur, o pedaço de paraíso onde costumo pousar, a praga do caravanismo e do campismo selvagem aumenta todos os anos. Invadem os parques de estacionamento da praia, ocupando dez lugares com a caravana, a mesa e cadeiras, as loiças sujas, as bicicletas, as pranchas de surf e a tralha. Estacionam nos melhores postos da falésia e ali ficam dias a fio, um verão inteiro, tapando o horizonte com as carripanas, bebericando cerveja e vinho ao pôr do sol, comendo latas de conserva e pão de plástico em fatias, trazido dos supermercados dos países onde habitam. Esta espécie de selvagens semeia à sua volta o lixo e a desordem e não gasta um tostão na aldeia ou no país que os acolhe sem cobrar. Os selvagens lavam a loiça na fonte da aldeia, deixando restos de detergente na água, entopem os caminhos e as dunas e nem chegam a conhecer a gente. Não frequentam restaurantes nem compram em lojas. Chegam, acampam, partem.

Os espanhóis são mais ousados do que os alemães e quejandos. Chegam com as litronas de cerveja e montam as tendas na praia, sobretudo nas praias não vigiadas e de difícil caminho, e por ali ficam, libertos de qualquer autoridade que corra com eles. As tendas são tendas beduínas, com metros de comprimento e cheias de comodidades. Uma das tendas serve de bar/restaurante. Vão espalhando o lixo na areia e na vegetação, defecando nas dunas, usando a paisagem como casa de férias. Grátis.

As autoridades portuguesas, com a tradicional bonomia, desorientação e incompetência, remetem umas para as outras a impossibilidade de travar a selvajaria. A polícia diz que não vale a pena multá-los porque eles não pagam e não existe um modo de os fazer pagar. Rasgam o auto. Uns dizem ainda que a lei europeia os impede de multar, uma fórmula inventada para nada fazer. Os da Conservação da Natureza e Biodiversidade, ICNB, chutam o problema para a autarquia e a autoridade, e a autarquia construiu o parque de estacionamento, como se isso a livrasse de responsabilidades. Um parque de estacionamento não é um parque de campismo selvagem. Resumo: ninguém mexe uma palha e Portugal oferece aquilo que qualquer país europeu regulamenta e faz pagar. Nenhum destes caravanistas e campistas ousaria fazer isto num dos parques e lagos da Alemanha ou nos parques de Espanha. Seriam removidos e multados.

Num passeio pelas dunas da praia do Amado verifiquei com os meus olhos os resíduos da selvajaria. Havia meia dúzia de tendas iguais às dos alpinistas, curvadas pela nortada, e duas tendas gigantes. Ao todo, uma vintena de selvagens caminhava por ali, nus ou com fatos de surf. A areia estava cheia de latas, garrafas vazias, restos de comida, sacos de plástico, pacotes de leite vazios, dejetos.

Em compensação, o português que era o concessionário do segundo bar da praia foi corrido do local pelos donos do terreno (privado) e até hoje impedido de assentar arraiais. Deram-lhe um cimo inóspito, junto dos carros, com cheiro a tubo de escape, sem água nem eletricidade, e onde nem um chapéu de sol se aguenta com o vento. Um gerador alimenta a caravana que serve de restaurante de praia, e o que era um bar decente e bem gerido, agradável à vista, abrigado, com comida decente e servido por gente decente, que beneficiava a praia e os que a usam decentemente, tornou-se... uma rulote. Parece que a única solução agradável para as autoridades, tão zelosas em repreender os portugueses e em vergar a espinha aos estrangeiros, foi o caravanismo obrigatório do restaurante.

O Plano de Ordenamento do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e da Costa Vicentina está a ser ultimado. Vamos ver quantos anos vai esta região durar antes de chegarem os 'pinados' campos de golfe e os hotéis, as camionetas dos turistas de pacote, substituindo e matando o turismo rural que é o único adequado ao 'paraíso'. Não dou cinco anos ao 'paraíso'.

Texto publicado na edição do Expresso de 14 de agosto de 2010
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O interesse nacional
CãodaRosa (seguir utilizador), 2 pontos , 22:20 | Quinta feira, 19 de agosto de 2010
Os PIN são a ferramenta que permite ao Estado licenciar e apoiar projectos de grandes grupos económicos, em nome da empregabilidade e do desenvolvimento, atenta-se contra tudo e todos. Constrói-se em zonas protegidas, fazem-se campos de golfe e em nome dos interesses dos grandes tudo é autorizado, seja em parque natural, em rede natura 2000 ou em zona protegida especial. Por isso o destino do litoral alentejano, com ou sem plano de ordenamento do território está traçado, sejam os seus coveiros os "pintas" que tudo conspurcam ou os empresários que tudo exploram. Quanto à actuação das autoridades, estas só podem fazê-lo de acordo com a lei, não podem inventar e seria bonito ver a reação de alguns se a Polícia Marítima expulsasse os vândalos do areal, ou se a GNR/SEPNA os multasse por atentar contra o ambiente e no limite os prendesse por desobediência. Não faltariam as acusações de xenofobia, racismo, discriminações de toda a espécie, ou seja, caía o Carmo e a Trindade e a Torre dos Clérigos ficava em pó. Do que li, parecem-me ser estrangeiros e a nossa subserviência não nos deixa tratá-los como deve ser, se for preciso ainda lhes pedimos desculpa.
 
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O Clara
senhor (seguir utilizador), 1 ponto , 16:10 | Quinta feira, 19 de agosto de 2010
por amor ao turista? estamos a falar de Portugal!
Portugal dos tristes.
Ve nossos , Portugueses, temos um problema muito grande, talvez o maior de todos, seja somos como alcoolicos, (literalmente e figurativamene). Como um alcoolico nao admitimos que o somos. Como tal nao tem cura.
"Esta espécie de selvagens semeia à sua volta o lixo e a desordem e não gasta um tostão na aldeia ou no país que os acolhe sem cobrar".
Pergunta, onde esta autoridade?
 
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Decadência
JNv (seguir utilizador), 1 ponto , 0:13 | Sexta feira, 20 de agosto de 2010
A Clara, sempre muito clarividente, fez um retrato tão chocante quanto verdadeiro da realidade portuguesa dos nossos dias.

A falta de civismo e de respeito pelos outros, a indiferença generalizada tornada estilo de vida, o revoltante oportunismo dos políticos e dos governantes (nacionais e autárquicos), os milhões de leis faz-de-conta a que ninguém liga, a passividade e/ou a inutilidade de acção das autoridades policiais, o turismo tornado produto inútil de consumo, o lucro imediato e a qualquer custo, tudo isto tem o significado deprimente de uma sociedade que já não sabe defender-se e preservar-se.

Quando olhamos para a história, a estes momentos chamamos decadência.
 
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Administração pública....
JF Pereira (seguir utilizador), 1 ponto , 15:13 | Domingo, 22 de agosto de 2010
Isto é a nossa administração pública no seu explendor... fica-nos tão cara e não serve para nada... podiam-na reduzir 50% que não davamos pela falta dela
Não pagam? as multas ... apreendam-lhe os documentos até pagarem... e vão ver que todos pagam...
As nossas autoridades, em geral, não querem incómodos e têm pouco sentido civico da sua responsabilidade e importância do seu papel na sociedade. É o deixa andar, que ninguém pede contas pelo que não se faz... e ainda pode vir o sindicato do PC/BE dizer que é a politica da caça à multa...
 
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Mata
Maxx (seguir utilizador), 1 ponto , 10:17 | Terça feira, 24 de agosto de 2010
Mata de matar, claro. Quem mata a costa Vicentina não são os estrangeiros, mas sim quem governa pela incapacidade de fazer qualquer gestão equilibrada, na percepção que mais dia menos dia após parcial destruição da zona a única solução é iludir com a exploração selvagem e deixar investir em luxury resorts, untando as mãos nestes anos que antecedem e abusando depois na ordenação e exploração de recursos. Os estrangeiros são apenas uns bimbos autorizados e usados como desculpa para a repugnante gestão danosa que tão bem prolifera em Portugal.
 
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Afinal quem é que é selvagem?
Autocaravanismo Itinerante (seguir utilizador), 1 ponto , 16:37 | Quinta feira, 9 de setembro de 2010
Clara Ferreira Alves assina no Expresso uma crónica que intitulou "SELVAGENS NAS DUNAS".
Confundindo a parte com o todo, misturando no mesmo saco campistas, caravanistas e autocaravanistas... e a todos estigmatizando como selvagens, a autora não só mostra escrever sobre o que na verdade não conhece, como se recria num coro de má-língua que apenas encontra suporte nos preconceitos sociais que lhe enchem a cabeça.
Que pena... quem como a autora tem pretensões a opinion maker tem a obrigação de ponderar o alcance das suas palavras e de revelar mais respeito pela maneira de estar na vida de outras pessoas que se limitaram a fazer opções distintas das suas.
Quando se conclui a leitura da croniqueta não restam dúvidas de que lado da "tela" estão os incultos, os intolerantes, os ignorantes, numa palavra: os selvagens.
 
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    Re: Afinal quem é que é selvagem?    Ver comentário
Autocaravanismo Itinerante (seguir utilizador), 1 ponto , 16:57 | Quinta feira, 9 de setembro de 2010
    Re: Afinal quem é que é selvagem?    Ver comentário
um caravanista (seguir utilizador), 1 ponto , 15:23 | Quinta feira, 23 de setembro de 2010
Salvem a Costa Vicentina
CostaVicentina10 (seguir utilizador), 1 ponto , 14:02 | Sexta feira, 10 de setembro de 2010
Vejam este site:

http://web.me.com/p.serra...

Pois nele está demonstrado a grande degradação da natureza que tem sido realizado ao longo do tempo na Costa Vicentina.
Tolerância zero para os campistas selvagens !!!!
 
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Mesmo selvagens!
Helping PNSACV (seguir utilizador), 1 ponto , 16:00 | Quinta feira, 23 de setembro de 2010
Tudo o que descreve é mais do que verdade e estou aliviado que finalmente alguém em Portugal menciona o problema. Há muitos anos que tento chamar a atenção para essa situação. Várias vezes fui à Polícia Marítima, à GNR ou às Câmaras de Vila do Bispo e Aljezur. Falei com Comandantes e Presidentes, enviei cartas e fotos ao Turismo do Algarve, ao Ministério do Ambiente e muitas outras entidades (in)competentes. Não aconteceu nada, e todos os anos chegaram mais campistas e mais lixo!
Há grupos (de espanhóis e franceses) que ficam o Verão inteiro, vivendo do dinheiro da venda de drogas a turistas na Praia do Amado. Rolotes com acessórios ficam 5 - 6 meses no Parque Natural e ninguém se interessa. No ano passado, estava um camião da Rep. Checa na Punta Ruiva, tão grande que o dono alugava camas! Até já existem páginas na internet que divulguam a informação:“vão ao Algarve, lá podem acampar na praia de borla e a Polícia não se interessa“!
É mais do que preferível ficar numa tenda nas dunas da Costa Vicentina, em vez de hotel em Albufeira ou Portimão...
Porque é que a GNR e a PM assistem de olhos fechados sem fazer nada?
Lembro-me bem dos tempos em que a GNR até acordava os campistas selvagens à noite multando na hora quem apenas estava perto das dunas. ...
 
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