"Se ela estivesse morta cheirava mal!"
O marido havia falecido há pouco tempo e a senhora deixou de ser vista por ali a passear como de costume, principalmente aos fins-de-semana. A única vizinha que se deu ao trabalho de ir à GNR fazer uma participação ficou perplexa quando os agentes, parados à porta do apartamento da desaparecida, nada fizeram.
"Então mas e se ela está ali dentro morta?" Perguntou a senhora já com alguma idade e muita ingenuidade...Os agentes riram-se entredentes, em estilo gozão como se fossem uma equipa do CSI depois de ouvir alguém dizer uma barbaridade de técnica forense e responderam com a sapiência de Sherlock's da Rinchoa:
"Ó minha senhora se ela estivesse morta cheirava mal". Brilhante. Portanto daqui conclui-se que uma pessoa só pode estar morta se cheirar mal. Se morrer na neve e ali permanecer enterrada durante 500 anos está viva. Apenas congelada como uma posta de maruca. E as inúmeras pessoas com quem nos cruzamos diariamente no metro e tresandam como doninhas porque não conhecem o conceito de sabão estão para estes dois estarolas da GNR aparentemente mortas. Sendo assim eu mesmo já tive o desprazer de viajar numa carruagem com 35 franceses mortos. E faziam mais barulho que uma excursão de putos da C+S. Há quem morra só dos pés ou da boca. Chamada morte por chulé ou por mau hálito.
Resultado desta macacada: os cadáveres da senhora e da sua única companhia, um pequeno cão, estiveram 9 anos, REPITO: 9 ANOS à espera de serem encontrados. Coisa que só aconteceu quando a porta foi finalmente aberta depois de a casa ter sido vendida num leilão das finanças.
Esta senhora vivia nos arredores de Lisboa, e não num canto qualquer do Portugal perdido. Teve dois azares. Vivia numa sociedade que já não olha para o lado a não ser para invejar o carro novo do vizinho ou o rabiosque da colega de trabalho e apanhou pela frente dois senhores que de agentes da GNR só têm a farda, impedindo-a pelo menos de ser tratada após falecer com a dignidade que qualquer um merece. Morreu só e assim permaneceu.
O 100 Reféns tem uma página no Facebook. Apareça e pode trazer companhia: http://www.facebook.com/?ref=logo#!/pages/Blogue-100-Refens/144947845566183


