20 de junho de 2013 às 13:23
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Scans e uploads de 2010 e depois

Teresa Peña

Com o fim de mais um ano manda a tradição que se façam balanços, por um lado, e intenções ou previsões, por outro. Resistirei nestas linhas à tentação de listar os êxitos da física deste ano? Quanto a previsões, e porque a ciência é cheia de surpresas, prefiro prever o que não poderá, em vez do que poderá, acontecer.

Por maior que seja, a lista do que aconteceu em física durante um ano é sempre parcial e distorcida: a ciência faz-se e desfaz-se, e pode necessitar de tempo para se revelar em pleno, para as ideias se enraizarem ou se evaporarem. Por exemplo, o LHC ter entrado em funcionamento a 10 de Março foi importante, mas agora é mais relevante que centenas de estudantes de doutoramento vão ter o privilégio de digerir os resultados nesta nova fronteira extrema de energia, e que novas perspectivas surjam das suas dissertações de doutoramento. Noutras fronteiras, conseguiu-se criar um condensado de Bose-Einstein feito de fotões e ainda lasers de fonões (simplificadamente, lasers de som). Como vão as promessas de inovação assim levantadas, respectivamente, no fabrico de células solares e em técnicas de imagiologia 3D, concretizar-se? 

A física tem inexoravelmente passado do laboratório, e dos computadores, para a vida. Um dos exemplos que escolhemos para este número especial é o das aplicações à Biologia e à Medicina. Foi no século XVIII que de forma generalizada se afirmou o potencial da aplicação da ciência na vida quotidiana, em particular na medicina e na saúde: nos salões privados encenaram-se entretenimentos bizarros, alguns com base nas aplicações da recém-descoberta electricidade à medicina. E nem sempre só rãs foram utilizadas. Houve mesmo desvarios de aplicações de choques eléctricos em pessoas para curar cegamente doenças. Hoje o optimismo nas aplicações da ciência é menos ingénuo, mas uma dose certa deste optimismo ainda faz bem: é preciso para disparar a imaginação e o engenho. A experiência ao longo dos tempos fez-nos mais cépticos, o que também não faz mal: o cientista é um progressista conservador. E com as aplicações na medicina há razão redobrada para não se poder experimentar tudo, e é mais que essencial o cruzamento interdisciplinar da ciência (dura) com as questões do direito, ética e política (do bem colectivo e bem privado).

Até noutros sectores sem ser a saúde, esta ligação entre a ciência e o direito tem de ser, e vai ser cada vez mais, a regra. Aqui nos USA onde escrevo este editorial, uma das polémicas do Outono/Inverno foi a utilização de scans para segurança nos aeroportos. Outros scans poderão vir a tornar-se vulgares no futuro. Por exemplo, a tecnologia baseada em Arterial Spin Labeling (ASL) incorporada à imagiologia por Ressonância Magnética, de que se fala neste número, avalia com precisão a hemodinâmica cerebral, e poderá vir a ser utilizada em programas para monitorizar populações, de forma a precocemente se aplicarem tratamentos que travem ou aliviem o desenvolvimento da doença de Alzheimer (em Portugal o número de mortes por ano declaradas como devidas a esta doença, passou de 200 em 1995 para 1500 em 2010!) . As questões éticas e de direito que tais programas de prevenção levantam excedem certamente em gravitas e consequências, a da violação do pudor privado dos strip virtuais dos aeroportos. É provável que nas sociedades com grande duração e qualidade média de vida, passada a crise económica de hoje, programas como este se juntem aos programas nacionais de vacinação infantil de há cinquenta anos.

Com a possibilidade de os scans actuais revelarem actividade cerebral e serem cartografias de pensamento, no ponto em que estamos, apenas acredito que em 2011, e nos anos mais próximos, ainda não vai ser possível fazer o downloads ou uploads de indivíduos - com o todo das memórias, convicções, personalidade, manias e desejos de cada um - com o click de uma tecla de computador. E apenas a simulação de um indivíduo, uma outra forma de clonagem sem tubos de ensaio, não poderá vir a ser possível? Talvez. Mas a nova humanidade só poderá surgir quando hardware e software se misturarem num só, como no cérebro. Não será em 2011, certamente. (No máximo, no equivalente aos salões sociais e redes de partilha de conhecimento do século XVIII - o Facebook - a febre de exposição colectiva pode acabar em posts de scans e filmes coloridos de cérebros, iluminados como árvores de Natal, mas só isso por enquanto... )

Outra certeza, esta ainda mais certa, é que 2011 vai ser o Ano Internacional da Química - IYC - em comemoração dos 100 anos de atribuição do prémio Nobel da Química a Marie Curie, como declarado pela UNESCO. E ainda o ano das comemorações do centenário da descoberta do núcleo do átomo por Ernest Rutherford, entre as quais a Rutherford Centennial Conference on Nuclear Physics, a realizar em Manchester no mês de Agosto.

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