18 de abril de 2014 às 22:01
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Santa Luzia: Capital do Polvo

Cada vez há menos barcos, o tempo em que todas as famílias se dedicavam à pesca do polvo acabou há várias décadas, mas Santa Luzia, no concelho de Tavira, continua a ostentar, com orgulho e legitimidade, o estatuto de Capital do Polvo. A atividade começou no início do século XX naquela localidade e, hoje em dia, as embarcações que ainda sobrevivem dedicam-se praticamente em exclusivo à captura do polvo
Domingos Viegas (Jornal do Algarve)
O antigo pescador António Salvé-Rainha junto a uma pilha de covos, utensílios que vieram substituir os alcatruzes
Domingos Viegas/Jornal do Algarve O antigo pescador António Salvé-Rainha junto a uma pilha de covos, utensílios que vieram substituir os alcatruzes
 

A história da localidade de Santa Luzia, concelho de Tavira, esteve sempre ligada ao mar e à pesca, desde a sua fundação, em 1577, ano em que pescadores ergueram uma ermida dedicada a Santa Luzia, protetora daqueles que sofrem de problemas de visão.

A localidade acabou por se desenvolver em torno à referida ermida e os seus habitantes dedicavam-se à pesca, através das artes de xávega e do anzol. Mais tarde, a partir de 1842 e durante os meses de verão, muitos dos locais repartiam aquela atividade com a do copejo do atum na armação do Barril.

A partir de 1927 a população começou a trocar a xávega e os anzóis pelos alcatruzes, passando a dedicar-se quase exclusivamente à pesca do polvo desde o final do verão até ao início do verão seguinte. E assim foi ao longo de várias décadas. Ainda hoje, Santa Luzia é conhecida como a Capital do Polvo. Não havia filho de pescador de polvo que não enveredasse por esta atividade, que representava o motor da economia local e o ganha pão de praticamente todas as famílias.

"Estava na escola e já andava ao mar. Saí da escola com 11 anos, depois de completar a quarta classe, e passei a dedicar-me exclusivamente à pesca, com o meu pai. Antigamente até as mulheres andavam ao mar", lembra António Salvé-Rainha, de 76 anos, que só deixou a pesca do polvo há cerca de um ano.

 

Capturas caíram quase 60 por cento

 

Porém, nos últimos anos tem-se assistido a uma grande quebra na quantidade de polvo pescado, a atividade é cada vez menos rentável e a população começou a enveredar por outras formas de garantir o seu sustento. Só este ano a quantidade de capturas foi de quase menos 60 por cento do valor registado em 2010.

"A pesca do polvo está a diminuir. O pessoal vai para a reforma e os mais novos já não querem saber disto. Pode haver dois ou três rapazes mais novos. As pessoas não estão a ver o futuro e está tudo a fugir da pesca", conta José Maria Mestre, 47 anos, um dos pescadores que continuam a resistir, apesar das dificuldades.

Em Santa Luzia, restam cerca de 30 pequenas embarcações que se dedicam à pesca do polvo, cada uma com quatro ou cinco pescadores. Os velhos alcatruzes, feitos de barro, foram dando lugar aos denominados covos, autênticas gaiolas que passaram a capturar quantidades de polvo muito maiores. A sua utilização começou no norte do país, estendeu-se por toda a costa portuguesa e chegou a Santa Luzia há cerca de uma década. A utilização do caranguejo como isco e a inexistência de um período de defeso são outros dos fatores que os pescadores da pequena pesca de Santa Luzia apontam como responsáveis pela diminuição dos stocks.

"Lembro-me que, quando eu era miúdo, havia aqui mais de 70 barcos. Agora há menos embarcações, mas o esforço de pesca triplicou. Antigamente, cada embarcação não utilizava mais de 500 ou 600 covos. Hoje, já há barcos a pescar com 10 mil ou 12 mil covos", explica José Maria Mestre, que não poupa críticas a quem utiliza o que considera um número exagerado de artes.

"Na nossa associação não há pescadores com essa maneira de ver as coisas. Os que pescam com essas quantidades são destruidores. São autênticos vândalos, que só pensam na sua própria algibeira e não pensam no futuro. Estão obcecados. Nem sei que nome dar a essa gente. Se ninguém jogar mão a isto, daqui a alguns anos está tudo destruído", alerta aquele pescador e dirigente da Associação de Armadores e Pescadores de Tavira.

António Salvé-Rainha, por seu turno, considera que é tudo uma questão de consciência: "Antigamente não havia legislação, mas quando os polvos eram demasiado pequenos não os trazia-mos para terra. Agora há legislação, mas apanham tudo. É uma coisa que tem que estar na consciência do pescador".

 

Espanhóis são os principais clientes na lota

 

O facto de o polvo ser cada vez mais escasso tem feito com que o seu valor aumente, uma situação que tem ajudado a que o que resta da pequena pesca ainda não tenha desaparecido completamente naquela comunidade piscatória. Atualmente, cada quilo de polvo é vendido em lota a preços que rondam os sete ou os oito euros. Em Santa Luzia, é adquirido, principalmente, por compradores espanhóis.

"Felizmente, não temos razão de queixa em relação ao preço de venda em lota. A procura tem aumentado e o preço tem subido. Mas se não fossem os espanhóis, certamente acontecia o mesmo que acontece com outras espécies de pescado. Mas eles valorizam muito o polvo e essa tem sido a nossa sorte", conta José Maria Mestre, reafirmando que "se houvesse mais controlo de artes, conseguia-se recuperar os stocks, mas assim cada vez haverá menos polvo".

 

Saudades das grandes pescarias de outros tempos

 

Porém a realidade era muito diferente há algumas décadas atrás. António Salvé-Rainha ainda se lembra das "grandes pescarias" que se faziam noutros tempos, só com alcatruzes e com barcos à vela e a remos. A vida era mais dura, mas não era necessário gastar dinheiro em isco nem em gasóleo. O facto de só os polvos de maiores dimensões se esconderem nos alcatruzes "para descansar" também ajudava a que não fossem capturados os mais pequenos. Hoje entram nos covos para se alimentar com o isco polvos de todos os tamanhos, explicam os pescadores.

"Era muito mais perigoso, havia muitas tragédias. Mas mesmo só com alcatruzes fazia-se umas pescas que era uma maravilha. Quando a pesca não dava, era porque os polvos estavam a fazer criação. Depois, quando carregavam os temporais, apareciam os polvos já grandes", conta aquele pescador, frisando que quando chegavam os meses de verão "ninguém apanhava polvo", pois "trabalhava-se nas armações de atum, ia-se às sacadas [redes que apanhavam carapau e sardinha]... Essa é outra das diferenças em relação ao que acontece atualmente. Agora pesca-se 365 dias por ano".

Há cerca de meia dúzia de anos, ainda chegou a ser criado um período de defeso para o polvo. Porém, o Estado não subsidiava os pescadores durante essa paragem e estes acabaram por pedir a sua anulação. "Ainda por cima acontecia no mês de setembro, o que também já não servia de muito. O polvo começa a ter ovas a partir do mês de maio. E está com ovas durante mais dois ou três meses", explica António Salvé-Rainha.

Além de agora se pescar praticamente todos os dias do ano, outra das diferenças em relação ao que acontecia há várias décadas é o horário, que cada vez está mais alargado, facto que contribuiu também para que o esforço de pesca seja ainda maior.

"Naquela altura saía-mos para o mar por volta das quatro ou cinco da madrugada e regressávamos por volta do meio dia. Agora já vão à meia noite e, alguns, até vão antes. Como têm mais artes, demoram mais tempo...", conta António Salvé-Rainha.

 

Assado, cozido ou guisado...

 

Naquela altura, e devido ao facto de não haver congelação, praticamente todo o polvo que era apanhado em Santa Luzia tinha como destino a seca. Depois de seco era vendido em fardos, principalmente, para o norte do país. Por isso, só nas zonas à beira-mar, onde se pescava, é que aquele produto era consumido em fresco.

O polvo seco era consumido, principalmente, assado. O fresco era, essencialmente, cozido ou guisado com batatas. Outro dos pratos "estrela" é a salada de polvo, uma das receitas mais simples, mas, curiosamente, também uma das mais apreciadas ainda hoje: depois de cozido, o polvo é partido aos bocadinhos e acrescenta-se ovo cozido, tomate, pimento e cebola. Consome-se fria e temperada com azeite e vinagre. "E, claro, a garrafinha de vinho para acompanhar...", sugere António Salvé-Rainha.

Mas a gastronomia ligada ao polvo vai muito mais além daquilo que saía da panela ou tacho com mais frequência há várias décadas atrás. E muitas destas especialidades podem ser apreciadas nos diversos restaurantes da localidade. Afinal trata-se da Capital do Polvo, um estatuto que Santa Luzia adquiriu com todo o mérito e toda a legitimidade.

(mais informação em www.jornaldoalgarve.pt )

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