Salazar bipolar
O Salazar de Filipe Ribeiro de Meneses é um Salazar misterioso e profundamente ambíguo, cheio de contradições e até de incertezas. A primeira característica - o mistério - enquadra-se na visão mainstream que o país desenvolveu sobre o ditador. A segunda característica, pelo contrário, choca de frente com os lugares-comuns.
A narrativa do costume diz-nos que Salazar não passava de um lacaio da Igreja. Uma horda de pensadores e historiadores (reais ou de bancada) defende que Salazar era um mero seminarista, um tentáculo da Igreja no Estado. Filipe Ribeiro de Meneses nega este ponto. A relação entre Salazar e a Igreja foi ambígua, nos anos calmos, e conflituosa, nos anos mauzinhos. O ditador, por exemplo, não perdoava a fraqueza de Cerejeira perante a oposição católica (os "católicos progressistas"). E é evidente que Salazar deixou de lado o seu catolicismo político quando chegou ao poder máximo. Depois, a narrativa oficiosa defende que Salazar detestava o desenvolvimento económico e que, por isso, só deixou pobreza. Ora, Filipe Ribeiro de Meneses relembra que o país conheceu um período de desenvolvimento com o Estado Novo. Até 1961, esse desenvolvimento foi feito com muitos travões, dado que Salazar queria controlar com punho de ferro a actividade económica (ex.: conter o investimento externo). Após 1961, as coisas mudaram. Porquê? Por causa da guerra colonial. Para sustentar aquele esforço militar, Salazar sabia que tinha de criar mais riqueza, e, por isso, começou a abrir o país ao exterior. Desta forma paradoxal, a guerra em África acabou por ser um factor de abertura de Portugal ao mundo ocidental (na economia, no turismo, etc.). E este ponto leva-nos ao paradoxo que está no centro do Salazar de Meneses, um paradoxo que nem o próprio autor consegue compreender por completo, a saber: Salazar foi o homem que colocou Portugal na Europa, mas também foi o homem que nos levou para uma guerra sem sentido nas selvas de África.
Dentro da visão mainstream, Salazar é o símbolo do isolamento de Portugal em relação à Europa e EUA. Não sendo falsa, esta ideia tem, todavia, alguns obstáculos. Em primeiro lugar, Portugal foi membro fundador da NATO. Em segundo lugar, como já vimos, a integração de Portugal nas redes económicas europeias começou com o Estado Novo. O fortíssimo crescimento económico registado entre 1950 e 1973 (o maior da nossa história) resulta dessa integração europeia. Não por acaso, Portugal entrou na EFTA em 1960. Como cereja no topo deste bolo europeísta, constatamos ainda que, em 1962, o Estado Novo pediu a adesão de Portugal à CEE. Filipe Ribeiro de Meneses diz-nos que Salazar pediu 15 anos para preparar Portugal para essa adesão . Perante estes factos europeístas, a pergunta só pode uma: mas o que ia na cabeça de Salazar? Na resposta, temos de sair, mais uma vez, da visão costumeira: Salazar não tinha assim tantas certezas sobre aquilo que queria para o país. O ditador tinha muitas dúvidas e contradições naqueles neurónios beirões, e, por isso, acabou por colocou Portugal num paradoxo absurdo: o país que caminhava para uma guerra sem sentido em África era o mesmo país que caminhava para a integração ocidental e europeia (NATO, EFTA, abertura económica, primeiro namoro com a CEE).
Como salienta Filipe Ribeiro de Menezes, esta tensão entre a via modernizadora na Europa e a via ultra-nacionalista em África acabaria por ser a fórmula da implosão do Estado Novo. Os portugueses dos anos 70 queriam ser europeus, queriam ser como os outros europeus. Já não queriam ser heróis ou cruzados do predomínio europeu/ocidental sobre o resto do mundo. Em 1974, os portugueses já não eram bipolares.


