Anterior
"Salazar era um doente afável e dócil. Tinha mais amigas do que amigos"
Seguinte
Já podemos arrumar Salazar na História? (parte I)
Página Inicial   >  Dossiês  >  Dossies Atualidade  >  Salazar: 40 anos  >   Salazar acreditava que ainda era chefe do Governo

Salazar acreditava que ainda era chefe do Governo

Desde que caiu da cadeira, a 3 de Agosto de 1968, até morrer, em 27 de Julho de 1970, o ditador deu uma única entrevista, ao jornalista francês Roland Faure. Vivia numa farsa, orquestrada por quantos o rodeavam, e acreditava que ainda era o Presidente do Conselho. Clique para aceder ao dossiê Salazar morreu há 40 anos
|
O ex-director do 'L'Aurore' na sua casa de Paris, mostra uma cópia da entrevista a Salazar, em Setembro de 1969

No Verão de 1969, o diário francês "L'Aurore" enviou a Lisboa o seu chefe de redacção, Roland Faure. O objectivo era ver o que mudara em Portugal desde que Marcello Caetano substituíra Oliveira Salazar, em 27 de Setembro de 1968.

Vítima de um acidente vascular-cerebral, que obrigara a uma delicada intervenção cirúrgica, o ditador ficara seriamente incapacitado. Para o seu lugar, o Presidente da República, Américo Tomás, nomeou Marcello Caetano. Salazar, porém, continuou a viver no palácio de São Bento, numa rotina e num ritual decalcados dos 36 anos de poder absoluto. Temiam os médicos que, depois de ter vencido a doença, não sobrevivesse à revelação da verdade. Foi assim que, familiares e colaboradores, amigos e funcionários, se conluiaram no forjar de uma vida de ficção, que se prolongou até ao último dia. Uma encenação a fazer lembrar o fabuloso filme Goodbye Lenine!, de Wolfgang Becker - com a diferença que existe entre a realidade e a ficção.

"L'Aurore" era um prestigiado diário francês, que jamais escondera a sua simpatia para com Salazar. E Roland Faure era um jornalista credenciado, conhecedor de Portugal, que já tinha entrevistado Salazar por três vezes. Além disso, sabia falar português. A ideia era fazer uma avaliação do país, um ano após a rendição de Salazar.

"Marcello Caetano nunca me falou de Salazar"


"Vim a Lisboa para entrevistar Marcello Caetano e não Salazar", conta ao "Expresso", na sua casa parisiense. Na agenda estava "a primeira grande entrevista a um jornal francês", para o que contava com o habitual apoio do Secretariado Nacional de Informação (SNI).

Caetano, que acabara de completar 63 anos, convidou-o para o Forte de Santo António do Estoril, a residência de Verão onde sempre fora recebido por Salazar. "O encontro prolongou-se por cerca de três horas, incluindo um almoço e um passeio junto ao mar. Era uma maneira de estar completamente diferente da de Salazar, que nunca me convidara para almoçar. Além disso, Caetano tinha introduzido uma grande inovação: governar em comunicação com os portugueses, o que Salazar sempre recusara." Durante a entrevista, "nunca me falou de Salazar". Até que o repórter revelou o interesse em se avistar com o seu antecessor. "Senti que ficou mal-humorado. Percebi que não tinha ficado nada satisfeito com a ideia. Disse-me mesmo: 'O presidente do Conselho não é ele, sou eu!'"

"A D. Maria só pôs uma condição" 


Roland Faure, o jornalista que entrevistou Salazar

Desde que Faure chegara a Lisboa que não cessara de ouvir rumores segundo os quais Salazar julgava que ainda governava. Já no hotel, chegaram-lhe mais boatos idênticos. Dizia-se que todos em redor de Salazar, já com 80 anos, se haviam comprometido a alimentar tal ilusão - a começar pela governanta, a famosa D. Maria, e a terminar no próprio Presidente Tomás. Disposto a apurar tão inacreditável história, Faure tentou a sua sorte. "Telefonei para São Bento e pedi para falar com a D. Maria, que já conhecia. Disse-lhe que teria muito gosto em rever o dr. Salazar. Eu sabia que só tinha uma hipótese em cem... Do outro lado, fez-se um silêncio, finalmente interrompido com a governanta a entreabrir uma porta: primeiro, tinha que falar com o médico. A resposta veio mais tarde: sim senhor, que fosse a São Bento no dia seguinte. A única condição foi a de não dizer a Salazar que já não era presidente do Conselho."

Eram 18h45 de 20 de Agosto quando Roland Faure entrou no palácio. Como escreveu na primeira página do jornal: "Eu ia ser o primeiro jornalista, desde há um ano, autorizado a ver, a interrogar e a ouvir o dr. Salazar." Na residência, cruzou-se com uma enfermeira, que auxiliava o oftalmologista que viera observar o ex-governante. Depois, foi a vez do ministro do Interior se avistar com Salazar. Já na sala, foi acolhido por D. Maria. "Foi muito simpática e amável. Já a tinha visto várias vezes e falava bem francês. Explicou-me que o dr. Salazar não conseguia caminhar sozinho, mesmo com a ajuda de uma bengala. E que, por ordens médicas, não lia os jornais, não via televisão, nem ouvia a rádio. Mas que estava informado de tudo, graças às visitas dos amigos." A conversa com D. Maria foi reproduzida no essencial na reportagem. A governanta voltou a recordar a única condição para a entrevista, "a de não lhe revelar que já não era o dono de Portugal".

"Salazar sabia tudo quanto se passara em França..." 


Salazar estava no jardim, junto a uma buganvília, sentado numa cadeira e aconchegado por almofadas amarelas", recorda Faure, quase 40 anos depois. "Paralisada do lado esquerdo, tinha a mão pousada sobre o joelho. Vestia um casaco branco, gravata preta e as inevitáveis botas. Reconheceu-me de imediato e voltou a revelar o seu excelente francês." O repórter ficou espantado: "Salazar dominava a actualidade política francesa. Sabia da substituição de Charles De Gaulle por Georges Pompidou", ocorrida em Abril desse ano. "Era bizarro: sabia tudo quanto se passara em França com De Gaulle e ignorava o que se passara consigo mesmo..."

Abordados outros temas internacionais, como assinalou o seu biógrafo Franco Nogueira, Salazar repetiu, "em resumo exacto, as suas teses de sempre". Distribuiu críticas pela ONU, EUA e sobretudo União Soviética, e interrogou mesmo: "Quem pode afirmar que os russos, se se instalarem na Lua, não tentarão utilizá-la como base de agressão?"

Mas esta foi apenas a introdução, após o que o francês orientou toda a conversa "no sentido de tentar confirmar" os fantásticos rumores que ouvira. "Falámos da doença e explicou que o Presidente Tomás o havia substituído à frente do Governo durante algum tempo. Não sabia que já tinha sido demitido há quase um ano das suas funções. Foi realmente uma confissão extraordinária: acreditava verdadeiramente que continuava no poder." Quanto a Marcello Caetano, "lembrara que fora seu ministro várias vezes, mas, agora, limitava-se a ensinar na Universidade".

Personagem de Shakespear: o rei que não quer morrer!


ANTT/Arquivos PIDE-DGS e Salazar O jornal 'L'Aurore' de 7 de Setembro de 1969

A conversa demorou cerca de uma hora. Foi D. Maria quem a interrompeu, já que havia duas senhoras "que estavam à espera de ser recebidas". Antes de abandonar o palácio, Faure conta, na entrevista, que lançou "um demorado olhar para a silhueta imobilizada sob a luz da pérgola. Como se tivesse necessidade de me assegurar que não estivera no palco fascinante de um teatro". E a terminar: "Estranha e dramática situação, impregnada da grandeza irreal deste personagem shakespeariano: o rei que não quer morrer..."

Faure escreveu durante toda a noite. "Como não tomara notas (nunca as tomei nas entrevistas com Salazar), precisava de ter a memória o mais fresca possível. Escrevi como se fosse uma câmara de filmar, a mostrar tudo quanto captara." Antes de deixar Lisboa, falou com o secretário de Estado da Informação e Turismo, Moreira Baptista. "Levou-me até Cascais. Contei-lhe que tinha entrevistado Salazar. Ficou estupefacto! Só me perguntou se ia publicar. Respondi-lhe que sim, que era um grande documento."

Em Paris, a direcção do "L'Aurore" decidira publicar as duas entrevistas. Primeiro, a de Marcello Caetano, com uma chamada para a de Salazar, que saiu na edição de fim-de-semana, de 6 e 7 de Setembro. Era ilustrada com uma fotografia, inédita, do ditador, cedida por um deputado brasileiro amigo de Salazar, que a havia registado dois meses antes.

Do Brasil ao grande matutino da Direita


Roland Faure nasceu em 10 de Outubro de 1926. Incorporado no exército francês, ainda participou no final da II Guerra Mundial. Ingressou em 1947 no jornal "La France à Marseille", onde, já nos anos 50, ganhou o prémio para o melhor jovem jornalista de província de França. Era a época de ouro da imprensa diária: só em Marselha havia nove jornais - agora, resta um; e em Paris, havia 38 quotidianos, contra a meia dúzia de actuais sobreviventes. Com o prémio obtido, foi até ao Brasil. Na viagem, improvisou um programa de rádio para os passageiros do navio.

Desembarcou na baía de Guanabara em Janeiro de 1952 e acabou por ficar por muito mais tempo que o projectado. Foi mesmo um dos fundadores de um quinzenário em língua francesa: o "Le Journal Français du Brésil". Aprendeu português e ficou a conhecer bem o imenso Brasil. "No Rio, conheci mais gente que em França durante dez anos!"

Esteve do outro lado do Atlântico dois anos. De regresso a França, foi contratado pelo jornal "L'Aurore". Estava-se em Março de 1954 e ali ficaria até 1978, passando todos os postos da hierarquia, até chegar a director. Era o grande jornal da direita intelectual, com uma tiragem média de 400 mil exemplares - tantos quantos os do seu concorrente no mesmo segmento, o "Le Figaro". O líder incontestado era o "France Soir", com 1,3 milhões de cópias, enquanto o "Le Monde" se quedava pelos 80 mil. "Era um dos jornais mais ricos de França, graças às suas grandes receitas publicitárias."

Faure foi um dos mais requisitados repórteres internacionais. Acompanhou a guerra da Argélia, foi à China e ao Japão, aos Estados Unidos e a Moscovo. Cobriu a Conferência de Helsínquia e percorreu a Jugoslávia de Tito. Em Lisboa estreou-se em 1957, integrado numa delegação da Associação da Imprensa Latina da Europa e América, de que era o secretário-geral. "Era uma associação dos grandes patrões de imprensa. Salazar não nos recebeu, porque da delegação fazia parte um representante do 'Le Monde'." Antes, conhecera o Papa Pio XII, no âmbito de um grande colóquio realizado em Roma sobre o futuro da Imprensa.

1962: a primeira entrevista


Em Janeiro de 1961, Henrique Galvão, à frente de um punhado de homens, apoderou-se do navio de passageiros "Santa Maria" - uma grande operação mediática contra o regime de Salazar - e rumou ao porto brasileiro de Recife, onde se lhes juntou Humberto Delgado. O "L'Aurore" não tinha correspondente nem em Portugal nem no Brasil. Faure foi, naturalmente, o enviado especial. "Fui o primeiro a enviar uma entrevista com Galvão para a Europa, através do cabo submarino que unia o Rio de Janeiro à França. Falámos em português no navio. Estavam 38 graus à sombra - e não havia nenhuma sombra... Foi um grande 'scoop'!" Entrevistou também o general Delgado, de quem conserva "o seu entusiasmo, mas também um perfil intrigante". "Deu-me a impressão de não ser um homem de Estado, mas apenas um militar."

Em Julho do ano seguinte, foi enviado a Portugal. Era uma época em que o "Diário de Notícias", de Augusto de Castro, tinha o "L'Aurore" como principal referência. O director do "DN" convidou o repórter parisiense para almoçar em Cascais, acompanhado por um funcionário do SNI. Deste encontro, nasceu um outro, bem mais importante, e que Faure nem havia ousado pedir: com o próprio Oliveira Salazar. A entrevista decorreu a 30 de Julho na habitual residência de Verão do Presidente do Conselho, no Forte de Santo António, no Estoril. "Eram 11 horas da manhã e Salazar foi muito gentil e cordial. Abordámos praticamente temas de política internacional. Ele falava muito bem francês e riu-se muito quando lhe disse que também falava um pouco de português, mas com acento brasileiro. No final, apresentou-me Franco Nogueira, que era o ministro dos Negócios Estrangeiros, e que revi mais tarde numa conferência da NATO em Paris."

A entrevista saiu em dois números seguidos: a 20 e 21 de Agosto de 1962, ambas na página 2. Em agradecimento, o repórter enviou a Salazar um livro, acompanhado de uma nota manuscrita, que figura no Arquivo Salazar. Faure explica: "O livro constitui uma recordação desta entrevista que ficará, para mim, entre as mais enriquecedoras e, em todo o caso, a mais desejada da minha vida de jornalista." Em anos seguintes, enviaria pelo menos dois cartões de boas-festas, ambos calorosos. Num deles, manifestava "a esperança de ter o privilégio" de se encontrar proximamente com Salazar.

Um aperto de mão na inauguração da ponte


Em 1964, já chefe de redacção, fez uma segunda entrevista a Salazar, publicada a 9 de Outubro. Dois anos depois, nova visita e novo encontro, ainda que breve. E em 1967 veio cobrir a inauguração da Ponte Salazar - com a PIDE, sempre vigilante, a guardar num processo que já abrira uma cópia da respectiva acreditação. "Desta vez, só apertámos as mãos, quando ele cumprimentou os repórteres."

A entrevista que ficou para a história foi a quarta e última, já com Salazar fora do Governo. Nos meios políticos e na imprensa internacional, teve mesmo o efeito de uma bomba. Tanto mais que tinha uma dupla chancela de credibilidade: a do respeitado jornal da direita francesa e a do seu chefe de redacção, assumidos admiradores de Salazar. Não havia que duvidar da sua autenticidade. Como anotou Franco Nogueira no sexto e último volume de Salazar: "'L'Aurore' é um jornal respeitável, e Roland Faure um jornalista íntegro. Não se pode duvidar de que, na essência, a entrevista corresponde a uma realidade."

Apreendidos os três mil exemplares do 'L'Aurore'


A repercussão em Portugal das duas entrevistas foi muito desigual. "A de Caetano foi citada na imprensa. Da de Salazar, nenhum jornal português, que eu saiba, publicou uma linha. Além disso, os cerca de três mil exemplares do "L'Aurore" que iam todos os dias para Portugal foram bloqueados", por forma a não chegarem aos leitores portugueses. "E o 'stock' em Paris esgotou-se."

Em Portugal, com efeito, a Censura velou para que nada transparecesse da primeira e última entrevista de Salazar após o acidente vascular. Num despacho que então escreveu, o correspondente em Lisboa do "The Daily Telegraph", Bruce Loudon, classificou a entrevista de "indiscutivelmente embaraçosa", mas acrescentou que "os censores do Governo actuaram rapidamente" e "só deram autorização para serem publicadas pequenas informações" marginais no contexto da reportagem. Também o "The Star of Johannesburg" comentava a "rápida actuação" da Censura, "suprimindo os trechos nos quais o dr. Salazar fazia extraordinárias revelações". Já o diário espanhol "Hoy" preferia acentuar a "quase fantasmagórica situação em que vive o antigo chefe do Governo português".

Caetano ficou furioso


Roland Faure mostra algumas das figuras com que se cruzou ao longo da vida. No 'quadro de honra', dois portugueses: Oliveira Salazar e Mário Soares

Ao contrário do que acontecera anteriormente, Lisboa "fez um silêncio absoluto". Faure soube "mais tarde que Marcello Caetano tinha ficado furioso". "Foi a ruptura. Nunca mais tive qualquer contacto com Portugal durante a ditadura."

Roland Faure diz que nunca se considerou "um especialista de Portugal". E sublinha, mais que uma vez, que não fez "a apologia de Salazar". "Foi uma entrevista completamente inesperada, mas sempre falei apenas do que vi e do que me disse. A verdade é que Salazar desempenhou um papel histórico. Esteve à frente do Estado durante 40 anos num período dramático. Tinha uma forte vertente anti-americana, muito semelhante a De Gaulle. Era indiscutivelmente um homem com convicções e com um forte sentido do serviço à Pátria e a todo o império. Julgava que trazia consigo os destinos do país. E construiu um estado autoritário, com tudo o que isso represente." Refere, em concreto, a polícia política e o exílio de Mário Soares.

Faure viria a ser director do "L'Aurore". Em 1978, porém, recusou-se a trabalhar com o novo patrão do jornal, Robert Hersant, um assaz controverso empresário e político, dono de um enorme império mediático, que incluía o concorrente "Le Figaro" - com o qual o "L'Aurore" viria a fundir-se. "O 'L'Aurore' sempre fora um jornal independente. "Recusei-me a ser conivente com o projecto do novo proprietário e demiti-me."

Condecorado por Pompidou, Mitterrand e Chirac 


No ano seguinte, foi nomeado director de informação da Radio France, de que viria a ser presidente. Em 1987, lançou a prestigiada France Info, a primeira rádio de informação contínua na Europa. No mesmo ano foi nomeado presidente da Universidade Radiofónica e Televisiva Internacional, criada pela UNESCO. Nesta qualidade, convidou Mário Soares para uma iniciativa, em Monte Carlo. "O Presidente Soares comentou a minha entrevista com Salazar: 'Você escreveu uma página de história!'"

Administrador da France-Presse, pertenceu ao Conselho Superior do Audiovisual, a entidade reguladora do sector. Jacques Chirac condecorou-o com a muito prestigiada Comenda da Legião de Honra. Antes, fora agraciado por François Mitterrand e Georges Pompidou. Reformado, a sua casa de Paris tem uma vista soberba para os jardins do Luxemburgo. Numa das paredes de casa, mostra com orgulho uma enorme moldura que lhe foi oferecida pelos netos, com fotografias de algumas das figuras mundiais com quem se cruzou profissionalmente. Nomes sonantes da música clássica e da comunicação social; estadistas como Raymond Barre, Mitterrand, Chirac, o príncipe Alberto do Mónaco, Golda Meir ou Richard Nixon. Convenientemente separados, lá estão, também, Mário Soares e Salazar - na entrevista de 1962, no Forte do Estoril, onde viria a cair, seis anos depois...


Como sabe, Marcello Caetano não faz parte do Governo

"Salazar julga que ainda governa Portugal..."

Era o título da entrevista, publicada pelo diário francês "L'Aurore", de 6 e 7 de Setembro de 1969. Na capa, uma enorme chamada, com o antetítulo "Um documento excepcional". Publicam-se os principais excertos sobre o Governo e Marcello Caetano, que a Censura impediu que fossem conhecidos:

Durante a sua doença, até que ponto participou na direcção dos negócios do Estado?
Ainda não estou completamente restabelecido e a minha única e verdadeira preocupação é de conservar força suficiente para continuar a assumir as minhas funções.

Recebe aqui os ministros do Governo?
(Sem hesitação, o doutor Salazar responde:) Sim, aqui mesmo, é mais agradável neste jardim que dentro de casa.

Todos os ministros vêm aqui prestar conta do respectivo departamento?
Sim.

E dá-lhes directivas?
Eu não imponho as decisões. Elas são tomadas colectivamente pelo Conselho de Ministros.

Que se reúnem aqui?
Não, as decisões aqui esboçadas são tomadas oficialmente nos conselhos a que preside o Presidente da República no seu palácio.

Mas todos os ministros do actual Governo foram escolhidos por si e têm a sua confiança?
Sim, evidentemente.

E se algum deles não aplicasse a política por si definida, demitia-o e substituía-o por outro?
Pois claro diz, com toda a naturalidade, com um gesto negligente da mão direita.

(...) Eu sabia que só dispunha de mais três ou quatro minutos, o tempo para a governanta regressar do interior da casa, acompanhada de outros visitantes. Arrisquei então uma última questão: aquela que eu talvez não devesse colocar.

Desde há algum tempo que se fala muito de um dos seus antigos ministros, Marcello Caetano. Que pensa dele?
Dez segundos de silêncio que me pareceram demasiado longos. Depois, o doutor Salazar disse muito naturalmente:

Conheço bem Marcello Caetano. Foi várias vezes meu ministro e aprecio-o. Ele gosta do poder: não para retirar quaisquer benefícios pessoais ou para a família: é muito honesto. Mas gosta do poder pelo poder. Para ter a impressão exaltante de deixar a sua marca nos acontecimentos. É inteligente e tem autoridade, mas está errado em não querer trabalhar connosco no Governo. Porque, como sabe, ele não faz parte do Governo. Continua a ensinar Direito na Universidade e escreve-me às vezes, a dizer-me o que pensa das minhas iniciativas. Nem sempre as aprova - e tem a coragem de mo dizer. Admiro a sua coragem. Mas parece não compreender que, para agir com eficácia, para ter peso sobre os acontecimentos, é preciso estar no Governo.

Mas diz-se que foi o senhor que não o quis mais como ministro...
Talvez, talvez...

Texto publicado na edição do Expresso de 2 de Agosto de 2008, na revista Única


Opinião


Multimédia

Tudo o que precisa de saber sobre o ébola, em dois minutos

Porque é que este está a ser o pior surto da história? Como é que os primeiros sintomas se confundem com os de outras doenças? É possível viajar depois de ter contraído o vírus, sem transmitir a doença? E estamos ou não perto de ter uma vacina? O Expresso procurou as respostas a estas e outras dúvidas sobre o ébola.

Vai pagar mais ou menos IRS? Veja as simulações

Reforma do imposto protege quem tem dependentes a cargo, mas pode penalizar os restantes contribuintes. Função pública e pensionistas vão ter mais dinheiro disponível. Veja simulações para vários casos.

Costeletas de borrego com migas de castanhas

Especialista em pratos de confeção acessível, com ingredientes ao alcance de qualquer pessoa, Tiger escolheu a gastronomia como forma de estar na vida. Veja, confecione, desfrute e impressione.

A última viagem do navio indesejado

Construído nos Estaleiros de Viana e pensado para fazer a ligação entre ilhas nos Açores, o Atlântida foi recusado pelo Governo Regional por alegadamente não atingir a velocidade pretendida. Contando com os custos associados à dissolução do contrato, o prejuízo ascendeu a 70 milhões de euros. Foi agora comprado a "preço de saldo", para mudar de nome e ser reconvertido num cruzeiro na Amazónia. Fizemos a última viagem do Atlântida e vamos mostrar-lhe os segredos do navio.

Strogonoff de peixe espada preto

Faz agora cinco anos que o Chefe Tiger, especialista em pratos de confeção acessível e com ingredientes ao alcance de qualquer pessoa, começou esta aventura gastronómica. Veja, confecione, desfrute e impressione.

Caril de banana

Faz agora cinco anos que o Chefe Tiger, especialista em pratos de confeção acessível e com ingredientes ao alcance de qualquer pessoa, começou esta aventura gastronómica. Veja, confecione, desfrute e impressione.

Tem três minutinhos? Vamos explicar-lhe o que muda no orçamento de 350 mil portugueses (e no de muitas empresas)

O novo salário mínimo entrou em vigor. São mais €20 brutos para cerca de 350 mil portugueses (números do Ministério da Segurança Social, porque os sindicatos falam em 500 mil trabalhadores). Mudou o valor, mas também os descontos que as empresas fazem para a Segurança Social. Porque se trata de uma medida que afeta a vida de muitos portugueses, queremos explicar o que se perde e o que se ganha, o que se altera e o que se mantém.

Cantaril com risotto de espargos

Faz agora cinco anos que o Chefe Tiger, especialista em pratos de confeção acessível e com ingredientes ao alcance de qualquer pessoa, começou esta aventura gastronómica. Veja, confecione, desfrute e impressione.

Music fighter: temos Marco Paulo e Bruno Nogueira numa batalha épica

Está preparado para um dos encontros mais improváveis na história da música portuguesa? O humorista Bruno Nogueira e a cantora Manuela Azevedo, dos Clã, pegaram em várias músicas consideradas "pimba" - daquelas que ninguém admite ouvir mas que, no fundo, todos vão dançar assim que começam a tocar - e deram-lhe novos arranjos, num projeto que chegou aos coliseus de Lisboa e do Porto.  "Ninguém, ninguém", de Marco Paulo, tem possivelmente a introdução mais acelerada e frenética do panorama musical português. Mas, no frente-a-frente, quem é o mais rápido? Vai um tira-teimas à antiga?

Dez verdades assustadoras sobre filmes de terror

Este vídeo é como o monstro de "Frankenstein": ganhou vida graças à colagem de partes de alguns dos filmes mais aterrorizantes de sempre. Com uma ratazana mutante e os organizadores do festival de cinema de terror MotelX pelo meio. O Expresso foi à procura das razões que explicam o fascínio pelo terror, com muito sangue (feito de corante alimentar) à mistura. 

A paixão do vinil

Se para muitos o vinil é apenas uma moda que faz parte da cultura do revivalismo vintage, para outros ver o disco girar nunca deixou de ser algo habitual.

Portugal foi herdado, comprado ou conquistado?

Era agosto em Lisboa e, às portas de Alcântara, milhares de homens lutavam por dois reis, participando numa batalha decisiva para os espanhóis e ainda hoje maldita. Aconteceu em agosto de 1580. Mais de 400 anos depois, o Expresso deu-lhe vida, fazendo uma reconstituição do confronto através do recorte e animação digital de uma gravura anónima da época.

O Maradona dos bancos centrais

Dizer que Mario Draghi está a ser uma espécie de Maradona dos bancos centrais pode parecer estranho. Mas não é exagerado. Os jornalistas João Silvestre e Jorge Nascimento Rodrigues explicaram porquê num conjunto de artigos publicado no Expresso em Novembro de 2013 e que venceu em junho deste ano o prémio de jornalismo económico do Santander e da Universidade Nova. O trabalho observa ainda o desempenho de Ben Bernanke no combate à crise, revisita a situação em Portugal e arrisca um ranking dos 25 principais governadores de bancos centrais. Republicamos os artigos num formato especial desenvolvido para a web.

Com Deus na alma e o diabo no corpo

Quem os vê de fora pode pensar que estão possuídos. Eles preferem sublinhar o lado espiritual e terapêutico desta dança - chamam-lhe "krump" e nasceu nos bairros pobres dos Estados Unidos. De Los Angeles para Chelas, em Lisboa, já ajudou a tirar jovens do crime. Ligue o som bem alto e entre com o Expresso no bairro. E faça o teste: veja se consegue ficar quieto.

O Cabo da Roca depois da tragédia que matou casal polaco

Os turistas portugueses e estrangeiros que visitam o Cabo da Roca, em Sintra, continuam a desafiar a vida nas falésias, mesmo depois da tragédia que resultou na morte de um casal polaco, cujos filhos menores estavam também no local. Durante a visita do Expresso, um segurança tentou alertar os turistas para o perigo e refere a morte do casal polaco. O apelo não teve grande efeito. Veja as imagens.


Comentários 25 Comentar
ordenar por:
mais votados
Surrealismos de uma ditadura

Durante 42 anos (1926 - 1968), Portugal foi surrealmente governado.

Durante 2 anos (1968 - 1979, a ditadura surrealizou-se a si própria.

Como é que se chamava o entrevistador francês?

Fauré - Requiem - Libera Me

http://www.youtube.com/wa...

Interpretação portuguesa... como convém à situação de todo um povo que esperou quase 5 décadas para obter a tão desejada e merecida LIBERDADE!
Errata: Durante 2 anos (1968 - 1970)
Re: Surrealismos de uma ditadura
Re: Surrealismos de uma ditadura
Re: Surrealismos de uma ditadura
Re: Surrealismos de uma ditadura
Re: Surrealismos de uma ditadura
Re: Surrealismos de uma ditadura
Re: Surrealismos de uma ditadura
Porque no te tratas?
Re: Porque no te tratas?
Porque no te tratas?
Re: Surrealismos de uma ditadura
Re: Surrealismos de uma ditadura
Re: Surrealismos de uma ditadura
Re: Surrealismos de uma ditadura
Ora. Ainda não perdeu a esperança, porque a
esperança é a última coisa a perder-se...
Marcelo Caetano,o hipócrita
Salazar,em estado senil. Américo Tomás, sempre imbecil.
Se ele soubesse...
Se ele soubesse a verdade,levantava-se de um salto e
sentava-se outra vez na cadeira.
Pois....
E, depois da entrevista, o credenciado jornalista, foi ter com o Pai Natal, e foram os dois jantar fora.
Deixem o homem em paz, e parem com as aldrabices. Nunca vi tanto trapalhão a falar do que não sabe. E, de uma maneira, que ninguém o leva preso!
Só tenho pena é que a Mãe de Salazar não esteja grávida...
Re: Pois....
Noticia ridicula
Um homem que governou durante 40 anos, e de repente deixa de assinar decretos, deixa de ter conselhos de ministros, deixa de viajar pelo país, e acham que ele pensava que ainda governava??
Isto é do mais surreal!! Vem agora um jornalista francês fazer um frete... a propaganda anti-salazarista perdura mais do que seria necessário... se deixassem de inventar porcarias como esta estavam a ser mais espertos...
SALAZAR - DITADOR OU DEFENSOR DE DIREITOS ?
Meu Caro Paulo Pedroso.

Tenho que dar-lhe os meus parabéns pelo que inseriu neste Espaço; Bem Redigido, Bem Argumentado, Bem Visto; Bem elaborado.
Sobre isso nada a dizer muito pelo contrário.... mas JÁ SE DEU CONTA QUE SOMENTE DISSE/RELATOU COISAS NEGATIVAS? SERÁ QUE DURANTE QUASE 40 ANOS O PM SALAZAR NADA FEZ DE BOM? NÃO ME PERGUNTE O QUÊ PORQUE O SEU ESTUDO ATÉ À EXAUSTÃO NÃO ME PERMITE COMPETIR CONSIGO.
Sei que antes do 25 de Abril MUITA MAS MESMO MUITA COISA ESTAVA ERRADA... mas seria TUDO ? não creio; NADA FOI FEITO DE BOM ? creio que sim mas isso terá de ser respondido pos si se pretender ser ISENTO NAS SUAS APRECIAÇÕES.
Sei que este meu comentário irá criar um certo Mal Estar em pessoas com Fomação Débil mas estarei preparado para tudo.
Só uma pergunta ? Como é possível numa DITADURA obter um Diploma de Jurista - Advogado (Dr. Alvaro Cunhal) se este estava Preso como Preso Político? Como interpreta o comentário do Prof Dr. Marcelo Caetano sobre o QI do Dr. Alvaro Cunhal comparativamente com o QI Dr. Mário Soares?
Eu, tenho um Vício... para alem de continuar a trabalhar, não consigo dormir sem previamente ler pelo menos uma hora; e leio coisas da Esquerda, Centro e Direita e posteriormente penso com a Cabeça.

Parabéns pelo seu Artigo bem Escrito e Fundamentado mas Incompleto porque não fala da "Outra" parte.

Bom fim de semana

Horizonte e Mar
Re: SALAZAR - DITADOR OU DEFENSOR DE DIREITOS ?
Re: SALAZAR - DITADOR OU DEFENSOR DE DIREITOS ?
Comentários 25 Comentar

Últimas


Pub