Anterior
"Salazar era um doente afável e dócil. Tinha mais amigas do que amigos"
Seguinte
Já podemos arrumar Salazar na História? (parte I)
Página Inicial   >  Dossiês  >  Dossies Atualidade  >  Salazar: 40 anos  >  Salazar acreditava que ainda era chefe do Governo

Salazar acreditava que ainda era chefe do Governo

Desde que caiu da cadeira, a 3 de Agosto de 1968, até morrer, em 27 de Julho de 1970, o ditador deu uma única entrevista, ao jornalista francês Roland Faure. Vivia numa farsa, orquestrada por quantos o rodeavam, e acreditava que ainda era o Presidente do Conselho. Clique para aceder ao dossiê Salazar morreu há 40 anos
|
O ex-director do 'L'Aurore' na sua casa de Paris, mostra uma cópia da entrevista a Salazar, em Setembro de 1969

No Verão de 1969, o diário francês "L'Aurore" enviou a Lisboa o seu chefe de redacção, Roland Faure. O objectivo era ver o que mudara em Portugal desde que Marcello Caetano substituíra Oliveira Salazar, em 27 de Setembro de 1968.

Vítima de um acidente vascular-cerebral, que obrigara a uma delicada intervenção cirúrgica, o ditador ficara seriamente incapacitado. Para o seu lugar, o Presidente da República, Américo Tomás, nomeou Marcello Caetano. Salazar, porém, continuou a viver no palácio de São Bento, numa rotina e num ritual decalcados dos 36 anos de poder absoluto. Temiam os médicos que, depois de ter vencido a doença, não sobrevivesse à revelação da verdade. Foi assim que, familiares e colaboradores, amigos e funcionários, se conluiaram no forjar de uma vida de ficção, que se prolongou até ao último dia. Uma encenação a fazer lembrar o fabuloso filme Goodbye Lenine!, de Wolfgang Becker - com a diferença que existe entre a realidade e a ficção.

"L'Aurore" era um prestigiado diário francês, que jamais escondera a sua simpatia para com Salazar. E Roland Faure era um jornalista credenciado, conhecedor de Portugal, que já tinha entrevistado Salazar por três vezes. Além disso, sabia falar português. A ideia era fazer uma avaliação do país, um ano após a rendição de Salazar.

"Marcello Caetano nunca me falou de Salazar"


"Vim a Lisboa para entrevistar Marcello Caetano e não Salazar", conta ao "Expresso", na sua casa parisiense. Na agenda estava "a primeira grande entrevista a um jornal francês", para o que contava com o habitual apoio do Secretariado Nacional de Informação (SNI).

Caetano, que acabara de completar 63 anos, convidou-o para o Forte de Santo António do Estoril, a residência de Verão onde sempre fora recebido por Salazar. "O encontro prolongou-se por cerca de três horas, incluindo um almoço e um passeio junto ao mar. Era uma maneira de estar completamente diferente da de Salazar, que nunca me convidara para almoçar. Além disso, Caetano tinha introduzido uma grande inovação: governar em comunicação com os portugueses, o que Salazar sempre recusara." Durante a entrevista, "nunca me falou de Salazar". Até que o repórter revelou o interesse em se avistar com o seu antecessor. "Senti que ficou mal-humorado. Percebi que não tinha ficado nada satisfeito com a ideia. Disse-me mesmo: 'O presidente do Conselho não é ele, sou eu!'"

"A D. Maria só pôs uma condição" 


Roland Faure, o jornalista que entrevistou Salazar

Desde que Faure chegara a Lisboa que não cessara de ouvir rumores segundo os quais Salazar julgava que ainda governava. Já no hotel, chegaram-lhe mais boatos idênticos. Dizia-se que todos em redor de Salazar, já com 80 anos, se haviam comprometido a alimentar tal ilusão - a começar pela governanta, a famosa D. Maria, e a terminar no próprio Presidente Tomás. Disposto a apurar tão inacreditável história, Faure tentou a sua sorte. "Telefonei para São Bento e pedi para falar com a D. Maria, que já conhecia. Disse-lhe que teria muito gosto em rever o dr. Salazar. Eu sabia que só tinha uma hipótese em cem... Do outro lado, fez-se um silêncio, finalmente interrompido com a governanta a entreabrir uma porta: primeiro, tinha que falar com o médico. A resposta veio mais tarde: sim senhor, que fosse a São Bento no dia seguinte. A única condição foi a de não dizer a Salazar que já não era presidente do Conselho."

Eram 18h45 de 20 de Agosto quando Roland Faure entrou no palácio. Como escreveu na primeira página do jornal: "Eu ia ser o primeiro jornalista, desde há um ano, autorizado a ver, a interrogar e a ouvir o dr. Salazar." Na residência, cruzou-se com uma enfermeira, que auxiliava o oftalmologista que viera observar o ex-governante. Depois, foi a vez do ministro do Interior se avistar com Salazar. Já na sala, foi acolhido por D. Maria. "Foi muito simpática e amável. Já a tinha visto várias vezes e falava bem francês. Explicou-me que o dr. Salazar não conseguia caminhar sozinho, mesmo com a ajuda de uma bengala. E que, por ordens médicas, não lia os jornais, não via televisão, nem ouvia a rádio. Mas que estava informado de tudo, graças às visitas dos amigos." A conversa com D. Maria foi reproduzida no essencial na reportagem. A governanta voltou a recordar a única condição para a entrevista, "a de não lhe revelar que já não era o dono de Portugal".

"Salazar sabia tudo quanto se passara em França..." 


Salazar estava no jardim, junto a uma buganvília, sentado numa cadeira e aconchegado por almofadas amarelas", recorda Faure, quase 40 anos depois. "Paralisada do lado esquerdo, tinha a mão pousada sobre o joelho. Vestia um casaco branco, gravata preta e as inevitáveis botas. Reconheceu-me de imediato e voltou a revelar o seu excelente francês." O repórter ficou espantado: "Salazar dominava a actualidade política francesa. Sabia da substituição de Charles De Gaulle por Georges Pompidou", ocorrida em Abril desse ano. "Era bizarro: sabia tudo quanto se passara em França com De Gaulle e ignorava o que se passara consigo mesmo..."

Abordados outros temas internacionais, como assinalou o seu biógrafo Franco Nogueira, Salazar repetiu, "em resumo exacto, as suas teses de sempre". Distribuiu críticas pela ONU, EUA e sobretudo União Soviética, e interrogou mesmo: "Quem pode afirmar que os russos, se se instalarem na Lua, não tentarão utilizá-la como base de agressão?"

Mas esta foi apenas a introdução, após o que o francês orientou toda a conversa "no sentido de tentar confirmar" os fantásticos rumores que ouvira. "Falámos da doença e explicou que o Presidente Tomás o havia substituído à frente do Governo durante algum tempo. Não sabia que já tinha sido demitido há quase um ano das suas funções. Foi realmente uma confissão extraordinária: acreditava verdadeiramente que continuava no poder." Quanto a Marcello Caetano, "lembrara que fora seu ministro várias vezes, mas, agora, limitava-se a ensinar na Universidade".

Personagem de Shakespear: o rei que não quer morrer!


ANTT/Arquivos PIDE-DGS e Salazar O jornal 'L'Aurore' de 7 de Setembro de 1969

A conversa demorou cerca de uma hora. Foi D. Maria quem a interrompeu, já que havia duas senhoras "que estavam à espera de ser recebidas". Antes de abandonar o palácio, Faure conta, na entrevista, que lançou "um demorado olhar para a silhueta imobilizada sob a luz da pérgola. Como se tivesse necessidade de me assegurar que não estivera no palco fascinante de um teatro". E a terminar: "Estranha e dramática situação, impregnada da grandeza irreal deste personagem shakespeariano: o rei que não quer morrer..."

Faure escreveu durante toda a noite. "Como não tomara notas (nunca as tomei nas entrevistas com Salazar), precisava de ter a memória o mais fresca possível. Escrevi como se fosse uma câmara de filmar, a mostrar tudo quanto captara." Antes de deixar Lisboa, falou com o secretário de Estado da Informação e Turismo, Moreira Baptista. "Levou-me até Cascais. Contei-lhe que tinha entrevistado Salazar. Ficou estupefacto! Só me perguntou se ia publicar. Respondi-lhe que sim, que era um grande documento."

Em Paris, a direcção do "L'Aurore" decidira publicar as duas entrevistas. Primeiro, a de Marcello Caetano, com uma chamada para a de Salazar, que saiu na edição de fim-de-semana, de 6 e 7 de Setembro. Era ilustrada com uma fotografia, inédita, do ditador, cedida por um deputado brasileiro amigo de Salazar, que a havia registado dois meses antes.

Do Brasil ao grande matutino da Direita


Roland Faure nasceu em 10 de Outubro de 1926. Incorporado no exército francês, ainda participou no final da II Guerra Mundial. Ingressou em 1947 no jornal "La France à Marseille", onde, já nos anos 50, ganhou o prémio para o melhor jovem jornalista de província de França. Era a época de ouro da imprensa diária: só em Marselha havia nove jornais - agora, resta um; e em Paris, havia 38 quotidianos, contra a meia dúzia de actuais sobreviventes. Com o prémio obtido, foi até ao Brasil. Na viagem, improvisou um programa de rádio para os passageiros do navio.

Desembarcou na baía de Guanabara em Janeiro de 1952 e acabou por ficar por muito mais tempo que o projectado. Foi mesmo um dos fundadores de um quinzenário em língua francesa: o "Le Journal Français du Brésil". Aprendeu português e ficou a conhecer bem o imenso Brasil. "No Rio, conheci mais gente que em França durante dez anos!"

Esteve do outro lado do Atlântico dois anos. De regresso a França, foi contratado pelo jornal "L'Aurore". Estava-se em Março de 1954 e ali ficaria até 1978, passando todos os postos da hierarquia, até chegar a director. Era o grande jornal da direita intelectual, com uma tiragem média de 400 mil exemplares - tantos quantos os do seu concorrente no mesmo segmento, o "Le Figaro". O líder incontestado era o "France Soir", com 1,3 milhões de cópias, enquanto o "Le Monde" se quedava pelos 80 mil. "Era um dos jornais mais ricos de França, graças às suas grandes receitas publicitárias."

Faure foi um dos mais requisitados repórteres internacionais. Acompanhou a guerra da Argélia, foi à China e ao Japão, aos Estados Unidos e a Moscovo. Cobriu a Conferência de Helsínquia e percorreu a Jugoslávia de Tito. Em Lisboa estreou-se em 1957, integrado numa delegação da Associação da Imprensa Latina da Europa e América, de que era o secretário-geral. "Era uma associação dos grandes patrões de imprensa. Salazar não nos recebeu, porque da delegação fazia parte um representante do 'Le Monde'." Antes, conhecera o Papa Pio XII, no âmbito de um grande colóquio realizado em Roma sobre o futuro da Imprensa.

1962: a primeira entrevista


Em Janeiro de 1961, Henrique Galvão, à frente de um punhado de homens, apoderou-se do navio de passageiros "Santa Maria" - uma grande operação mediática contra o regime de Salazar - e rumou ao porto brasileiro de Recife, onde se lhes juntou Humberto Delgado. O "L'Aurore" não tinha correspondente nem em Portugal nem no Brasil. Faure foi, naturalmente, o enviado especial. "Fui o primeiro a enviar uma entrevista com Galvão para a Europa, através do cabo submarino que unia o Rio de Janeiro à França. Falámos em português no navio. Estavam 38 graus à sombra - e não havia nenhuma sombra... Foi um grande 'scoop'!" Entrevistou também o general Delgado, de quem conserva "o seu entusiasmo, mas também um perfil intrigante". "Deu-me a impressão de não ser um homem de Estado, mas apenas um militar."

Em Julho do ano seguinte, foi enviado a Portugal. Era uma época em que o "Diário de Notícias", de Augusto de Castro, tinha o "L'Aurore" como principal referência. O director do "DN" convidou o repórter parisiense para almoçar em Cascais, acompanhado por um funcionário do SNI. Deste encontro, nasceu um outro, bem mais importante, e que Faure nem havia ousado pedir: com o próprio Oliveira Salazar. A entrevista decorreu a 30 de Julho na habitual residência de Verão do Presidente do Conselho, no Forte de Santo António, no Estoril. "Eram 11 horas da manhã e Salazar foi muito gentil e cordial. Abordámos praticamente temas de política internacional. Ele falava muito bem francês e riu-se muito quando lhe disse que também falava um pouco de português, mas com acento brasileiro. No final, apresentou-me Franco Nogueira, que era o ministro dos Negócios Estrangeiros, e que revi mais tarde numa conferência da NATO em Paris."

A entrevista saiu em dois números seguidos: a 20 e 21 de Agosto de 1962, ambas na página 2. Em agradecimento, o repórter enviou a Salazar um livro, acompanhado de uma nota manuscrita, que figura no Arquivo Salazar. Faure explica: "O livro constitui uma recordação desta entrevista que ficará, para mim, entre as mais enriquecedoras e, em todo o caso, a mais desejada da minha vida de jornalista." Em anos seguintes, enviaria pelo menos dois cartões de boas-festas, ambos calorosos. Num deles, manifestava "a esperança de ter o privilégio" de se encontrar proximamente com Salazar.

Um aperto de mão na inauguração da ponte


Em 1964, já chefe de redacção, fez uma segunda entrevista a Salazar, publicada a 9 de Outubro. Dois anos depois, nova visita e novo encontro, ainda que breve. E em 1967 veio cobrir a inauguração da Ponte Salazar - com a PIDE, sempre vigilante, a guardar num processo que já abrira uma cópia da respectiva acreditação. "Desta vez, só apertámos as mãos, quando ele cumprimentou os repórteres."

A entrevista que ficou para a história foi a quarta e última, já com Salazar fora do Governo. Nos meios políticos e na imprensa internacional, teve mesmo o efeito de uma bomba. Tanto mais que tinha uma dupla chancela de credibilidade: a do respeitado jornal da direita francesa e a do seu chefe de redacção, assumidos admiradores de Salazar. Não havia que duvidar da sua autenticidade. Como anotou Franco Nogueira no sexto e último volume de Salazar: "'L'Aurore' é um jornal respeitável, e Roland Faure um jornalista íntegro. Não se pode duvidar de que, na essência, a entrevista corresponde a uma realidade."

Apreendidos os três mil exemplares do 'L'Aurore'


A repercussão em Portugal das duas entrevistas foi muito desigual. "A de Caetano foi citada na imprensa. Da de Salazar, nenhum jornal português, que eu saiba, publicou uma linha. Além disso, os cerca de três mil exemplares do "L'Aurore" que iam todos os dias para Portugal foram bloqueados", por forma a não chegarem aos leitores portugueses. "E o 'stock' em Paris esgotou-se."

Em Portugal, com efeito, a Censura velou para que nada transparecesse da primeira e última entrevista de Salazar após o acidente vascular. Num despacho que então escreveu, o correspondente em Lisboa do "The Daily Telegraph", Bruce Loudon, classificou a entrevista de "indiscutivelmente embaraçosa", mas acrescentou que "os censores do Governo actuaram rapidamente" e "só deram autorização para serem publicadas pequenas informações" marginais no contexto da reportagem. Também o "The Star of Johannesburg" comentava a "rápida actuação" da Censura, "suprimindo os trechos nos quais o dr. Salazar fazia extraordinárias revelações". Já o diário espanhol "Hoy" preferia acentuar a "quase fantasmagórica situação em que vive o antigo chefe do Governo português".

Caetano ficou furioso


Roland Faure mostra algumas das figuras com que se cruzou ao longo da vida. No 'quadro de honra', dois portugueses: Oliveira Salazar e Mário Soares

Ao contrário do que acontecera anteriormente, Lisboa "fez um silêncio absoluto". Faure soube "mais tarde que Marcello Caetano tinha ficado furioso". "Foi a ruptura. Nunca mais tive qualquer contacto com Portugal durante a ditadura."

Roland Faure diz que nunca se considerou "um especialista de Portugal". E sublinha, mais que uma vez, que não fez "a apologia de Salazar". "Foi uma entrevista completamente inesperada, mas sempre falei apenas do que vi e do que me disse. A verdade é que Salazar desempenhou um papel histórico. Esteve à frente do Estado durante 40 anos num período dramático. Tinha uma forte vertente anti-americana, muito semelhante a De Gaulle. Era indiscutivelmente um homem com convicções e com um forte sentido do serviço à Pátria e a todo o império. Julgava que trazia consigo os destinos do país. E construiu um estado autoritário, com tudo o que isso represente." Refere, em concreto, a polícia política e o exílio de Mário Soares.

Faure viria a ser director do "L'Aurore". Em 1978, porém, recusou-se a trabalhar com o novo patrão do jornal, Robert Hersant, um assaz controverso empresário e político, dono de um enorme império mediático, que incluía o concorrente "Le Figaro" - com o qual o "L'Aurore" viria a fundir-se. "O 'L'Aurore' sempre fora um jornal independente. "Recusei-me a ser conivente com o projecto do novo proprietário e demiti-me."

Condecorado por Pompidou, Mitterrand e Chirac 


No ano seguinte, foi nomeado director de informação da Radio France, de que viria a ser presidente. Em 1987, lançou a prestigiada France Info, a primeira rádio de informação contínua na Europa. No mesmo ano foi nomeado presidente da Universidade Radiofónica e Televisiva Internacional, criada pela UNESCO. Nesta qualidade, convidou Mário Soares para uma iniciativa, em Monte Carlo. "O Presidente Soares comentou a minha entrevista com Salazar: 'Você escreveu uma página de história!'"

Administrador da France-Presse, pertenceu ao Conselho Superior do Audiovisual, a entidade reguladora do sector. Jacques Chirac condecorou-o com a muito prestigiada Comenda da Legião de Honra. Antes, fora agraciado por François Mitterrand e Georges Pompidou. Reformado, a sua casa de Paris tem uma vista soberba para os jardins do Luxemburgo. Numa das paredes de casa, mostra com orgulho uma enorme moldura que lhe foi oferecida pelos netos, com fotografias de algumas das figuras mundiais com quem se cruzou profissionalmente. Nomes sonantes da música clássica e da comunicação social; estadistas como Raymond Barre, Mitterrand, Chirac, o príncipe Alberto do Mónaco, Golda Meir ou Richard Nixon. Convenientemente separados, lá estão, também, Mário Soares e Salazar - na entrevista de 1962, no Forte do Estoril, onde viria a cair, seis anos depois...


Como sabe, Marcello Caetano não faz parte do Governo

"Salazar julga que ainda governa Portugal..."

Era o título da entrevista, publicada pelo diário francês "L'Aurore", de 6 e 7 de Setembro de 1969. Na capa, uma enorme chamada, com o antetítulo "Um documento excepcional". Publicam-se os principais excertos sobre o Governo e Marcello Caetano, que a Censura impediu que fossem conhecidos:

Durante a sua doença, até que ponto participou na direcção dos negócios do Estado?
Ainda não estou completamente restabelecido e a minha única e verdadeira preocupação é de conservar força suficiente para continuar a assumir as minhas funções.

Recebe aqui os ministros do Governo?
(Sem hesitação, o doutor Salazar responde:) Sim, aqui mesmo, é mais agradável neste jardim que dentro de casa.

Todos os ministros vêm aqui prestar conta do respectivo departamento?
Sim.

E dá-lhes directivas?
Eu não imponho as decisões. Elas são tomadas colectivamente pelo Conselho de Ministros.

Que se reúnem aqui?
Não, as decisões aqui esboçadas são tomadas oficialmente nos conselhos a que preside o Presidente da República no seu palácio.

Mas todos os ministros do actual Governo foram escolhidos por si e têm a sua confiança?
Sim, evidentemente.

E se algum deles não aplicasse a política por si definida, demitia-o e substituía-o por outro?
Pois claro diz, com toda a naturalidade, com um gesto negligente da mão direita.

(...) Eu sabia que só dispunha de mais três ou quatro minutos, o tempo para a governanta regressar do interior da casa, acompanhada de outros visitantes. Arrisquei então uma última questão: aquela que eu talvez não devesse colocar.

Desde há algum tempo que se fala muito de um dos seus antigos ministros, Marcello Caetano. Que pensa dele?
Dez segundos de silêncio que me pareceram demasiado longos. Depois, o doutor Salazar disse muito naturalmente:

Conheço bem Marcello Caetano. Foi várias vezes meu ministro e aprecio-o. Ele gosta do poder: não para retirar quaisquer benefícios pessoais ou para a família: é muito honesto. Mas gosta do poder pelo poder. Para ter a impressão exaltante de deixar a sua marca nos acontecimentos. É inteligente e tem autoridade, mas está errado em não querer trabalhar connosco no Governo. Porque, como sabe, ele não faz parte do Governo. Continua a ensinar Direito na Universidade e escreve-me às vezes, a dizer-me o que pensa das minhas iniciativas. Nem sempre as aprova - e tem a coragem de mo dizer. Admiro a sua coragem. Mas parece não compreender que, para agir com eficácia, para ter peso sobre os acontecimentos, é preciso estar no Governo.

Mas diz-se que foi o senhor que não o quis mais como ministro...
Talvez, talvez...

Texto publicado na edição do Expresso de 2 de Agosto de 2008, na revista Única


Opinião


Multimédia

Edwin. O rapaz que aprendeu a sonhar

O que Edwin sabia sobre a vida era sobreviver. Na cabeça dele não cabiam sonhos e os dias eram passados à procura de comida para ele e para a mãe e para o irmão. A fome espreitava nos cantos da barraca de palha no Quénia e ele escondia-se dela como podia - chupar as pedras era uma forma de a enganar. Mas a sorte dele mudou porque alguém viu nele outra coisa. E tudo começou numa dança. Agora, os mesmos dedos que agarravam as pedras tocam hoje teclas de um piano Bechstein. E os pés dele já não estão nus mas calçados. Com chuteiras. Primeiro no Benfica, agora no Estoril, o miúdo de 15 anos que fala como gente grande descobriu que tinha um sonho: ser futebolista. Como Drogba.

Todas as ilhas têm a sua nuvem

Raul Brandão chamou-lhe 'A Ilha Branca'. Como viajante digo que tem um verde diferente das outras oito que com ela formam o arquipélago dos Açores. É tenra, mansa, repousante e simultaneamente desafiante. Esconde segredos como a lenda da Maria Encantada e um vulcão florestado a meio do século passado que nos transporta para uma dimensão sulfurosa e mágica. Obrigatória para projetos de férias de natureza.

Em três quartos de hora não se esquece só a idade. "Esquece-se o mundo"

Maria do Céu dá três voltas ao lar sempre que pode. Edviges vai a todos os velórios, faz hidroginástica e sopas de letras. António dá um apoio na Igreja e nos escuteiros. Tudo é uma ajuda para passar os dias quando se tornam todos iguais. No Pinhal Interior Sul, a região mais envelhecida da União Europeia, quase um terço da população tem mais de 65 anos. Os mais velhos ficaram, os mais novos partiram.

Profissão: Sniper

O Expresso foi ver como são selecionados, que armas usam, para que missões estão preparados os snipers da Força de Operações Especiais do Exército. São uma elite dentro da elite. Um pelotão restrito. Anónimo. Treinam diariamente com um único objetivo: eliminar um alvo à primeira, mesmo que esteja a centenas de metros. Humano ou material. Sem dramas morais, dizem.

Xarém com conquilhas

Especialista em pratos de confeção acessível, com ingredientes ao alcance de qualquer pessoa, Tiger escolheu a gastronomia como forma de estar na vida. Veja, confecione, desfrute e impressione com esta nova receita.

O que se passa dentro da cabeça dele

O que leva um tipo a quem iam amputando uma perna a regressar ao sítio onde os ossos se desfizeram, uma e outra vez, e testar os limites do seu corpo? Resposta: a busca pelo salto perfeito, que ele diz existir dentro dele e que ele encontrará mais dia menos dia. É a fé e a confiança que o movem e o levam a pular para lá do que é exigido a um campeão olímpico e mundial que não tem mais nada a provar a ninguém - a não ser a ele próprio. Este é um trabalho que publicámos em agosto de 2014, quando o saltador se preparava para os Europeus e falava das metas que tinha traçado para 2015 e 2016: mostrar que não estava acabado. Sete meses depois, provou-o no Europeu de pista coberta em Praga, onde venceu este fim de semana.

Amadeu, que aprendeu o mundo no campo e tinha o coração na ponta dos dedos

Em Portugal, a dedicação à língua mirandesa tem nome próprio: Amadeu Ferreira, o jurista da CMVM que - quando todos diziam que "era uma loucura impossível" - arranjou tempo para traduzir "Os Lusíadas", a "Mensagem", os quatro Evangelhos da Bíblia e ainda duas aventuras do Asterix para uma língua que pertence a um cantinho do nordeste português e é falada por menos de 15 mil pessoas. No final de 2014 deu ao Expresso aquela que viria a ser a sua última entrevista. Morreu no passado domingo e esta quinta-feira foi lançada a sua biografia, "O fio das lembranças", com quase 800 páginas.

Temos 16 imagens que não explicam o mundo, mas que ajudam a compreendê-lo

O júri do World Press Photo queria dar o prémio maior da edição deste ano (e talvez das edição todas) a uma fotografia com "potencial para se tornar icónica". A primeira imagem desta fotogaleria, por ser "esteticamente poderosa" e "revelar humanidade", é o que o júri procurava. A fotografia de um casal homossexual russo, a grande vencedora, é a primeira de 16 imagens de uma seleção onde há Messi desolado, migrantes em condições indignas no Mediterrâneo, a aflição do ébola, mistérios afins e etc - são os contrastes do mundo.

Vamos falar de sexo. Seis portugueses revelam tudo o que lhes dá prazer na cama

Neste primeiro episódio de uma série que vai durar sete semanas, seis entrevistados falam abertamente sobre aquilo que lhes dá mais satisfação na intimidade. Sexo em grupo, sexo na gravidez, prazer sem orgasmo e melhor sexo após a menopausa são alguns dos temas referidos nos testemunhos desta semana. O psiquiatra Francisco Allen Gomes explica ainda a razão de muitas mulheres fingirem o orgasmo. O Expresso e a SIC falaram com 33 portugueses que deram a cara e o testemunho de como são na cama. Ao longo das próximas sete semanas, contamos-lhe tudo.

Elvis. Gostamos ou não gostamos?

Ele não é consensual, mas é incontornável. Dispunha de penteado majestoso e patilha marota, aparentava olhar matador e pose atrevida. E deixou canções: umas fáceis e outras nem tanto, por vezes previsíveis e às vezes inesperadas, ora gentis ora aceleradas. E ele, Elvis, nasceu em janeiro de 1934 - há precisamente 40 anos, ao oitavo dia. Temos quatro textos sobre o artista: Nicolau Santos, Rui Gustavo, Nicolau Pais e João Cândido da Silva explicam o que apreciam, o que toleram e o que não suportam.

A última viagem do navio indesejado

Construído nos Estaleiros de Viana e pensado para fazer a ligação entre ilhas nos Açores, o Atlântida foi recusado pelo Governo Regional por alegadamente não atingir a velocidade pretendida. Contando com os custos associados à dissolução do contrato, o prejuízo ascendeu a 70 milhões de euros. Foi agora comprado a "preço de saldo", para mudar de nome e ser reconvertido num cruzeiro na Amazónia. Fizemos a última viagem do Atlântida e vamos mostrar-lhe os segredos do navio.

Desfile de vedetas

Saiba tudo sobre os modelos concorrentes ao Carro do Ano 2015/Troféu Essilor Volante de Cristal. Conheça o essencial sobre os 20 automóveis participantes nesta iniciativa, da estética, às características técnicas, do preço ao consumo. A apresentação ficará completa no dia 3 de janeiro.

Tudo o que precisa de saber sobre o ébola. Em dois minutos

Porque é que este está a ser o pior surto da história? Como é que os primeiros sintomas se confundem com os de outras doenças? É possível viajar depois de ter contraído o vírus, sem transmitir a doença? E estamos ou não perto de ter uma vacina? O Expresso procurou as respostas a estas e outras dúvidas sobre o ébola.

Desacelerámos a realidade para observar a euforia da liberdade

Ela, Jacarandá, é algarvia. Ele, Katmandu, é espanhol. São linces e agora experimentam a responsabilidade da liberdade: foram soltos esta terça-feira numa herdade alentejana, próxima de Mértola, eles que saíram de centros de reprodução em cativeiro. Foi inédito: nunca tinha acontecido algo assim em Portugal. Estivemos lá e ensaiámos o slow motion.


Comentários 25 Comentar
ordenar por:
mais votados
Surrealismos de uma ditadura

Durante 42 anos (1926 - 1968), Portugal foi surrealmente governado.

Durante 2 anos (1968 - 1979, a ditadura surrealizou-se a si própria.

Como é que se chamava o entrevistador francês?

Fauré - Requiem - Libera Me

http://www.youtube.com/wa...

Interpretação portuguesa... como convém à situação de todo um povo que esperou quase 5 décadas para obter a tão desejada e merecida LIBERDADE!
Errata: Durante 2 anos (1968 - 1970)
Re: Surrealismos de uma ditadura
Re: Surrealismos de uma ditadura
Re: Surrealismos de uma ditadura
Re: Surrealismos de uma ditadura
Re: Surrealismos de uma ditadura
Re: Surrealismos de uma ditadura
Re: Surrealismos de uma ditadura
Porque no te tratas?
Re: Porque no te tratas?
Porque no te tratas?
Re: Surrealismos de uma ditadura
Re: Surrealismos de uma ditadura
Re: Surrealismos de uma ditadura
Re: Surrealismos de uma ditadura
Ora. Ainda não perdeu a esperança, porque a
esperança é a última coisa a perder-se...
Marcelo Caetano,o hipócrita
Salazar,em estado senil. Américo Tomás, sempre imbecil.
Se ele soubesse...
Se ele soubesse a verdade,levantava-se de um salto e
sentava-se outra vez na cadeira.
Pois....
E, depois da entrevista, o credenciado jornalista, foi ter com o Pai Natal, e foram os dois jantar fora.
Deixem o homem em paz, e parem com as aldrabices. Nunca vi tanto trapalhão a falar do que não sabe. E, de uma maneira, que ninguém o leva preso!
Só tenho pena é que a Mãe de Salazar não esteja grávida...
Re: Pois....
Noticia ridicula
Um homem que governou durante 40 anos, e de repente deixa de assinar decretos, deixa de ter conselhos de ministros, deixa de viajar pelo país, e acham que ele pensava que ainda governava??
Isto é do mais surreal!! Vem agora um jornalista francês fazer um frete... a propaganda anti-salazarista perdura mais do que seria necessário... se deixassem de inventar porcarias como esta estavam a ser mais espertos...
SALAZAR - DITADOR OU DEFENSOR DE DIREITOS ?
Meu Caro Paulo Pedroso.

Tenho que dar-lhe os meus parabéns pelo que inseriu neste Espaço; Bem Redigido, Bem Argumentado, Bem Visto; Bem elaborado.
Sobre isso nada a dizer muito pelo contrário.... mas JÁ SE DEU CONTA QUE SOMENTE DISSE/RELATOU COISAS NEGATIVAS? SERÁ QUE DURANTE QUASE 40 ANOS O PM SALAZAR NADA FEZ DE BOM? NÃO ME PERGUNTE O QUÊ PORQUE O SEU ESTUDO ATÉ À EXAUSTÃO NÃO ME PERMITE COMPETIR CONSIGO.
Sei que antes do 25 de Abril MUITA MAS MESMO MUITA COISA ESTAVA ERRADA... mas seria TUDO ? não creio; NADA FOI FEITO DE BOM ? creio que sim mas isso terá de ser respondido pos si se pretender ser ISENTO NAS SUAS APRECIAÇÕES.
Sei que este meu comentário irá criar um certo Mal Estar em pessoas com Fomação Débil mas estarei preparado para tudo.
Só uma pergunta ? Como é possível numa DITADURA obter um Diploma de Jurista - Advogado (Dr. Alvaro Cunhal) se este estava Preso como Preso Político? Como interpreta o comentário do Prof Dr. Marcelo Caetano sobre o QI do Dr. Alvaro Cunhal comparativamente com o QI Dr. Mário Soares?
Eu, tenho um Vício... para alem de continuar a trabalhar, não consigo dormir sem previamente ler pelo menos uma hora; e leio coisas da Esquerda, Centro e Direita e posteriormente penso com a Cabeça.

Parabéns pelo seu Artigo bem Escrito e Fundamentado mas Incompleto porque não fala da "Outra" parte.

Bom fim de semana

Horizonte e Mar
Re: SALAZAR - DITADOR OU DEFENSOR DE DIREITOS ?
Re: SALAZAR - DITADOR OU DEFENSOR DE DIREITOS ?
Comentários 25 Comentar

Últimas

Receba a nova Newsletter
Ver Exemplo

Pub