11
Anterior
Um dia perdido
Seguinte
Domingo
Página Inicial   >  Blogues  >  O modo do tempo  >   Sábado

Sábado

|

Hoje é sábado. É Sábado de manhã. Sábado não começou de dia. O relógio diz que começou há muitas horas. Sexta vazou e o Sábado começou a encher. Mas Sábado já tinha sido antecipado como o dia D, do mês M, do ano A, como quando se vê na agenda os Sábados de um mês, a meses luz desse tempo. Como quando assentamos em Dezembro um Sábado para Abril. E mesmo sem o termos marcado na agenda, o Sábado está entalado na agenda com todos os outros dias de Abril e todos os outros dias do ano, entre uma Sexta-feira e um Domingo.

 

Tal como a página na agenda do ano, no tempo da vida este Sábado de Hoje, dia 20 de Abril de 2013, era um dia possível. Agora que "é" Sábado, quando Ontem era amanhã e amanhã será Ontem, desenrola-se como um tapete pela ponta do fim, quando vazar para regressar Domingo, que não é um qualquer, mas é Domingo, 21 de Abril de 2013.

 

O Sábado pode ter sido uma data distante, mas apontada na agenda. O Sábado de Hoje pode ter sido apenas suposto sem nele pensarmos, como os dias em que calham os Sábados todos deste ano, ao fazer um calendário de actividades ou menos ao pensar neles em bloco. Mas o Sábado de hoje começa a formar-se bem no princípio da semana, quando à Segunda-feira está bem longe, mas ao largo.

 

À Segunda-feira o Sábado está atrás de todos os dias até descer até nós. Teremos de fazer a travessia de Segunda, Terça, Quarta, Quinta, Sexta feiras para chegarmos a Sábado. E hoje, Sábado a Segunda-feira está já a descer lá ao fundo, levando troços percorridos já esquecidos, mantendo à tona ainda destroços do que foi. Sábado tem ainda viva a Sexta e Quinta, quando começou. Porque à Quinta, Sábado é já depois de amanhã. Hoje, tem ainda atrás de si, Quarta-feira e Terça-feira. O Sábado está a desenrolar-se entre a semana toda que passou e o Domingo que aí vem com Segunda da próxima semana já a espreitar-nos e depois a Terça, a Quarta, a Quinta, a Sexta e o Sábado da próxima semana.

 

Estamos esticados entre esquinas que dobram as semanas, passadas e próximas, boiamos estendidos entre a semana passada e a anterior, há duas ou três semanas ou há um ano e a próxima semana, ou a que se lhe segue, o mês que vem ou o ano que vem.

 

Mas hoje é Sábado é dia de fazer o que se faz ao Sábado. Por ser Sábado não se faz o que se faz nos outros dias. Nem sequer ao Domingo se faz o que se faz ao Sábado. E mesmo que façamos exactamente o mesmo que fazemos aos dias de semana, por ser Sábado, nada é feito da mesma maneira, porque todos os minutos de um Sábado só podem ser minutos com conteúdos de vida ao Sábado. Mesmo que seja um dia de trabalho é Sábado. Diz-se que se trabalha ao Sábado de um modo diferente de como se diz que se trabalha a qualquer dia de semana, como se não fosse suposto ou se estivesse a fazer o que não se devia.

 

O Sábado é dia compras, de desporto, de ir ver o rio, de ir ver o mar, de ir ao campo, de ir almoçar com alguém. Na infância era dia de tardes inteiras de televisão. Outrora, era o dia depois de Sexta e era todo ele vivido à espera da noite.

 

A noite de Sábado é diferente de todas as noites. É Sábado à noite. Sábado à noite era dia de saídas à noite, de distracção de si e de diversão dispersa pelas horas que passavam tão rápidas que se não nos precavermos acordamos de repente ao Domingo. Sábado à noite pode ser o Sábado para os outros que saem, para as possibilidade todas que estão a acontecer e o nada que fazer que é o conteúdo das nossas vidas. A impossibilidade é mais triste quando nos acenam com possibilidades e possibilidades e possibilidades.

 

E agora que é Sábado de madrugada, de manhã, de tarde, de noite, quando quer que seja que for lida esta crónica que será, é e terá sido feito dele? Que é de mim, será e foi ao Sábado. Qual é o seu tom? Qual é o seu modo? Como me metamorfoseia? Que clima produz? Que atmosfera cria?

 

Há uma fragrância suave a desocupação do tempo que me leva a perguntar que faço da vida ao ocupar-me de tudo menos dela.

O sábado pode saber a melancolia. O Sábado pode ser euforia.

 

Mas este Sábado pode ser anónimo e ser como todos os dias que são todos iguais e que têm de ser todos atravessados, embora uns sejam mais baços do que outros, como a explosão de imagens simétricas a diminuir com a distância que provocamos ao pôr dois espelhos à frente um do outro.  

 

 

 

 

 


Opinião


Multimédia

Cheesecake com manjericão e doce de tomate

Especialista em pratos de confeção acessível, com ingredientes ao alcance de qualquer pessoa, Tiger escolheu a gastronomia como forma de estar na vida. Veja, confecione, desfrute e impressione.

Voámos num F-16

Um piloto da Força Aérea voou com uma câmara GoPro do Expresso e temos imagens inéditas e exclusivas para lhe mostrar num trabalho multimédia.

Salada de salmão com sorvete de manga

Especialista em pratos de confeção acessível, com ingredientes ao alcance de qualquer pessoa, Tiger escolheu a gastronomia como forma de estar na vida. Veja, confecione, desfrute e impressione.

Por faróis nunca dantes navegados

São a salvaguarda dos navegantes, a luz que tranquiliza o mar. Há 48 faróis em Portugal continental e nas ilhas. Este é um acontecimento único: todos os faróis e 1830 km de costa disponíveis num mesmo trabalho. Para entendê-los e vê-los, basta navegar neste artigo.

Parecem casulos onde gente hiberna à espera de ver terra

No Porto de Manaus não há barcos, mas autocarros bíblicos que caminham sobre água. Têm vários andares e estão cheios de camas de rede que parecem casulos onde homens, mulheres e crianças aguardam o destino. E há gente a vender o que houver e tiver de ser junto ao Porto. "Como há Copa, tem por aí muito gringo que vem ter com 'nóis'. E então fica mais fácil vender"

O adeus de Lobo Antunes às aulas de medicina

O neurocirurgião deu terça-feira a sua "Última Lição" no auditório do Instituto de Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, na véspera de deixar o seu trabalho no serviço nacional de saúde.

Jaguar volta a fabricar desportivo dos anos 60

Até ao verão será fabricado um número limitado de desportivos Jaguar E-Type Lightweight, seguindo todas as especificações originais, incluindo a continuação do número de série das unidades produzidas em 1963.

"Naquela altura estavam continuamente a acontecer primeiras coisas"

Mais do que uma manifestação, o 'primeiro' 1º de Maio é recordado como a grande festa da Revolução dos Cravos, quando o povo saiu às ruas em massa e a união das esquerdas era um sonho possível. "O 1º de Maio seria mais uma primeira coisa, porque naquela altura estavam continuamente a acontecer primeiras coisas." Foi há 40 anos.

Este trabalho não foi visado por qualquer comissão de censura

Aquilo que hoje é uma expressão anacrónica estava em relevo na primeira página do "República", a 25 de Abril de 1974: "Este jornal não foi visado por qualquer comissão de censura". Quarenta anos depois da Revolução, veja os jornais, ouça os sons e compreenda como decorreu o "dia inicial inteiro e limpo", como lhe chamou Sophia. O Expresso falou ainda com cinco gerações de 40 anos e percorreu a "geografia" das Ruas 25 de Abril de todo o país, falando com quem lá mora. Veja a reportagem multimédia.


Comentários 11 Comentar
ordenar por:
mais votados
'Sábado :-)
Caro António Caeiro, fala-lhe aqui o João Pedro do Sábado. Quando nos diz que "Teremos de fazer a travessia de Segunda, Terça, Quarta, Quinta, Sexta feiras para chegarmos a Sábado", nada de mais errado. Nós fazemos coisas diferentes ao Sábado porque somos diferentes ao Sábado. Não atravessamos a semana, saltamos sobre ela. O João Pedro existente ao Sábado é diferente do João Pedro dos dias de semana, e diferente do João Pedro ao Domingo. O primeiro é relaxado e descontraído, o segundo é tenso e preocupado com o trabalho, o terceiro é formal, parcial aos rituais do Domingo, de família e outros, e um bocadinho ansioso pelo dia a seguir.
Enquanto o JP dos dias de semana subordina-se ao contrato que tem com a sobrevivência, o do Sábado está livre para explorar o seu âmago. Ele aparece e desaparece, perseguindo as suas ambições pessoais, e toda a fiada dos seus sábados. É que o ontem e o amanhã de cada sábado, é também um sábado.
Tenho que deixá-lo por agora. Este JP gosta de ver o Midsumer Murders, e depois disso, dá lugar ao JP de Domingo. Vemos-nos outra vez no próximo Sábado.
PS.: O Expresso está a fazer outra vez a gracinha de não lhe publicitar esta sua última crónica. Talvez precise de verificar se falta uma data ou flag, na edição do Blog. Até lá, o seu texto que aparece na primeira página do Expresso Online é, muito apropriadamente, "Um dia perdido".
Qual? O "Sábado", claro! :-D
Espero que não o encontre só no "Domingo".
Obrigado
contraditório
re: Contraditório (1/3)
repetitio
re: repetitio
re: Contraditório (2/3)
Cont.
II.
re: Contraditório (3/3)
re: Contraditório (Expresso)
Comentários 11 Comentar

Últimas

Ver mais

Edição Diária 17.Abr.2014

Leia no seu telemóvel, tablet e computador
PUBLICIDADE

Pub