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Roger Waters traz hoje o muro a Lisboa

"The Wall", o maior espetáculo de sempre concebido por uma banda rock, foi remontado, atualizado e politizado pelo seu criador, Roger Waters apresenta-o hoje e amanhã em Lisboa. (Veja vídeo no final do texto)
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Roger Waters e a marcha dos martelos de Gerald Scarfe - The Wall é uma obra de arte total

Um muro ergue-se em toda a extensão do palco (67 metros de comprimento por 11 de altura), separando os músicos do público. Um Stuka, bombardeiro alemão da II Guerra, mergulha sobre a assistência e despenha-se numa bola de fogo.

Há bonecos gigantescos, representando personagens da narrativa, um porco insuflável a pairar no ar, há crianças a cantar "Hey! Teacher! Leave them kids alone" (em Lisboa serão os alunos da Associação Cultural Moinho da Juventude, um projeto comunitário da Cova da Moura), há filmes de animação e imagens 3D projetadas num ecrã circular ou no próprio muro, há um sem-abrigo a pedir dinheiro para álcool e prostitutas, há um comício estilo nazi com um ditador a caçar na plateia "judeus, pretos e paneleiros".

Há imagens de soldados mortos em guerras e de outros a voltar para casa e a reencontrarem os filhos, e há o grande clímax, com o muro a desabar.

Um concerto, uma ópera, uma superprodução teatral


"The Wall" é um concerto, é uma ópera, é uma superprodução teatral, é o maior espetáculo de palco jamais concebido por uma banda rock. Segunda e terça-feira, o seu criador, Roger Waters, apresenta-o no Pavilhão Atlântico.

O álbum é hoje considerado um dos melhores de todos os tempos. A sua transposição para palco foi um sonho megalómano cuja concretização acabou num exemplo de perfeição, a escala para medir todos os grandes espetáculos que o mundo do rock iria tentar.

Contudo, a digressão dos Pink Floyd teve apenas 31 concertos, entre 7 de fevereiro de 1980 e 17 de junho de 1981, e depois disso Waters voltou a encená-lo uma única vez, em 1990, em Berlim, pelo que "The Wall" ao vivo se tornou matéria de lenda... até agora.

Aos 67 anos de idade e 30 após a produção original, Waters decidiu aproveitar os avanços tecnológicos para montar uma versão do espetáculo com custos (42 milhões de euros) que permitem ter lucro (em 1980/81 o prejuízo foi enorme) e levá-lo em digressão mundial (até ao momento estão previstas 117 apresentações).

Lisboa abre digressão europeia


Dias 21 e 22, em Lisboa, começa a fase europeia da tour (será a terceira passagem de Waters a solo por Portugal depois dos concertos de 4 e 5 de maio de 2002 no Pavilhão Atlântico - digressão "In the Flesh" - e do concerto de 2 de junho de 2006 no Rock in Rio Lisboa - digressão "The Dark Side of the Moon Live").

"The Wall" é composto por uma narrativa essencialmente autobiográfica (através da personagem Pink, Waters explora o principal trauma/fonte de inspiração artística da sua vida: a morte do pai, oficial inglês, na II Guerra Mundial - já o tinha feito em canções desde 1967 e a ele continuará a voltar até hoje; a mãe superprotetora; os professores que o ridicularizaram; a primeira mulher, que terminou o casamento pelo telefone).

E acrescenta-lhe pormenores de Syd Barrett (1946-2006), o primeiro líder dos Floyd, pois, genericamente, aquela é a vida de uma estrela rock. "Perdi o meu pai quando tinha alguns meses de idade e cresci carregando o peso de uma enorme sensação de culpa. Senti-me responsável pela morte dele. Sonhava que tinha morto alguém e que iria ser apanhado. Só perto dos 40 anos é que percebi o sonho", contou numa entrevista à BBC.

O conceito-chave foi o do muro simbolizando as barreiras que Pink ergue para se proteger daqueles que, por lhe serem próximos, sabem melhor que ninguém como o magoar (a mãe, o professor, a mulher), num processo de contínua alienação e isolamento do mundo. A sua génese é uma das histórias mais famosas da carreira dos Pink Floyd.

A banda isolada dos fãs


Em 1977, no estádio olímpico de Montreal, Canadá, no último concerto da digressão "In the Flesh" (que promovia o álbum "Animals"), Waters, exasperado por o público estar mais interessado em beber, gritar e soltar fogo de artifício do que em ouvir a música, perdeu a cabeça e cuspiu numa pessoa que estava junto ao palco.

Nos dias seguintes vai desenvolvendo a ideia de um muro, atrás do qual a banda toca isolada dos fãs. A meio de 1978 apresenta ao grupo dois esboços de álbuns 'conceptuais' que tinha feito sozinho: "The Wall" e "The Pros and Cons of Hitch Hiking". A banda escolhe "The Wall" (o outro virá a ser, em 1984, o seu primeiro disco a solo).

As gravações decorrem em França, para onde os Pink Floyd se mudam por problemas com o fisco, e culminam com a segunda mudança na formação do grupo (a primeira foi a saída da Barrett e a entrada de David Gilmour em 1968), quando Waters despede o teclista Rick Wright e este se submete à humilhação de terminar as gravações e fazer os concertos como músico contratado.

O espectáculo, o filme


Feito o álbum, e com o single 'Another Brick in the Wall (Part II)' a chegar ao topo das tabelas, Waters avança para a produção do espetáculo, apoiado pelo cartoonista Gerald Scarfe (que trabalhava com eles desde "Wish You Were Here" e que criou os bonecos e as famosas animações) e pelo arquiteto Mark Fisher.

Segue-se o projeto de fazer um filme. É contratado o realizador britânico Alan Parker e, para o papel de Pink, o músico Bob Geldof.

No novo livro de Scarfe, Roger conta a seguinte história: "Quando foi oferecido o papel principal a Bob Geldof, ele estava num táxi com o seu manager e disse 'não estou interessado, odeio os Pink Floyd', e o manager disse-lhe 'acho que seria bom para a tua carreira'. O que ele não sabia era que o taxista era o meu irmão!"

A produção do filme é outra odisseia de polémicas e discussões, e este só é concluído depois de Waters ter sido forçado a 'ceder' o controlo artístico ao realizador. "Acho que a versão de palco foi melhor que a de cinema. O filme tem partes boas. A animação de Scarfe é fenomenal, e o modo como o Alan lidou com os aspetos da infância foi muito bom, mas não consegui simpatizar com o personagem principal" (in "Mojo").

"The Wall" era a obra da sua vida e fez vir ao de cima as suas obsessões de domínio artístico que levariam ao desmembramento da banda. Logicamente, a relação de trabalho entre Waters e o guitarrista David Gilmour foi-se deteriorando.

A perda dos direitos


O álbum seguinte, "The Final Cut", de 1983, que tem por base material que esteve para ser usado na banda sonora do filme, é integralmente escrito por Waters. O baixista sai do grupo em 1985 e inicia uma batalha legal pelos direitos sobre o nome Pink Floyd, que acaba por perder para Gilmour e Nick Mason, o baterista.

Só a 2 de julho de 2005, no festival Live 8, os quatro membros da banda se voltariam a reunir pela primeira vez em 24 anos (desde o último concerto de "The Wall" em Londres). Um momento irrepetível, pois Rick Wright faleceu em 2008.

A história demonstra que, afastada a possibilidade de trabalho criativo como Pink Floyd, a relação entre Waters e Gilmour voltou a ser de amizade.

No dia 10 de julho do ano passado voltaram a tocar juntos, num evento de beneficência em Oxfordshire, e com humor escolheram para tema de abertura 'To Know Him Is To Love Him', dos Teddy Bears (Gilmour propôs a Waters que, se ele aceitasse, retribuiria tocando 'Confortably Numb' num dos espetáculos de "The Wall", o que se prevê que venha a acontecer em maio, em Londres, pois os seis concertos na O2 Arena vão ser filmados para edição em DVD).

O muro no século XXI


Agora, "The Wall" renasce no século XXI. Renasce como um monumento nostálgico (são usadas muitas imagens dos concertos de 1981 - que Waters anunciou à "Classic Rock" que irá editar em DVD), mas atualizado através de uma enorme politização.

"Não quis andar por aí a lamentar-me das misérias da minha juventude. Decidi desenvolver o contexto antiguerra da obra. Falar sobre o eixo do mal, como fez Bush, coloca certos países e culturas do lado de fora de um muro que define fronteiras nacionais e ideológicas. Por isso trabalhei esse aspeto no contexto do espetáculo. O problema são os fanáticos religiosos, seja Bush, Blair ou outro. Eles é que são os queimadores de livros. São os extremismos religiosos que causam a maioria dos tormentos no mundo", afirmou numa entrevista ao "Sunday Times".

Waters também colocou no Facebook um pedido para que pessoas que tenham perdido entes queridos numa guerra lhe enviem fotos e dados dos falecidos para projetar no muro durante o espetáculo.

"Quero usar o muro para homenagear soldados que morreram em batalha. Gostava de ter mais respostas do Médio Oriente. Parece-me bem usar estas imagens para passar a ideia central de tudo isto: o que é importante é o indivíduo e a sua vida, a sua família e as suas vidas, não uma linha no mapa ou o petróleo no solo. Compreendo a dor dos familiares dos que morreram. A foto do meu pai também irá estar no muro", disse à BBC.

"O 'The Wall' original fala de medo e de revolta. É sobre um jovem que vive amedrontado e que decide cortar a comunicação com os outros seres humanos. Vejo isso, potencialmente, como uma alegoria sobre a forma como as nações se relacionam entre si. A política dos nacionalismos, nestes 30 anos, tornou-se mais transparente. É mais fácil percebermos como estamos a ser controlados. Por consequência, é mais fácil resistirmos. Por isso, esta produção é mais política, mais universal que a original", declarou numa conferência de imprensa na Bélgica.

Narrativa mais aberta a interpretações


"Não nos podemos ver livres do Pink. A narrativa está lá, mas está mais aberta a interpretações. Por exemplo, a mãe, agora, simboliza o governo. Em termos musicais, é uma espécie de versão alargada do álbum, porque há três solos em 'Another Brick Part 2' em vez de um e uma passagem mais longa antes de 'Goodbye Cruel World' para dar tempo à equipa técnica de terminar o muro."

Esta ponte entre 'Another Brick in the Wall (Part III)' e 'Goodbye Cruel World' pode ouvir-se no disco ao vivo e tem o título 'The Last Few Bricks'. Faltou-lhe referir 'What Shall We Do Now?', o prolongamento de 'Empty Spaces', que sempre fez parte da versão de palco.

Waters está convicto que este é o tempo certo para fazer passar a sua mensagem política (ainda no passado fim de semana assinou um artigo no "The Guardian" pedindo solidariedade à indústria musical para derrubar o muro que Israel construiu na Cisjordânia).

Já tinha feito uma promessa à BBC: "Ninguém me irá conseguir impedir de tocar em Jerusalém ou Belém." "Pode ser que este espetáculo alimente opiniões ou gritos de revolta", dizia na mesma entrevista. "Seria muito fácil para mim ou para várias gerações sentarmos-nos a ouvir o iPod ou a jogar jogos de vídeo enquanto Roma arde à nossa volta. A tecnologia da informação permite-nos compreender os problemas dos outros, independentemente de fronteiras internacionais ou ideológicas."

Essa é a mesma tecnologia que nos permite ler os milhares de depoimentos que desde setembro de 2010 estão a ser colocados online por pessoas que acabaram de ver o espetáculo e que se podem resumir com um verso que Waters canta cinco minutos após o início de "The Wall": "A million tear-stained eyes." Em Portugal, 32 mil vão partilhar a experiência de se juntar a esse "milhão de olhos em lágrimas".  



Texto publicado na revista Atual de 19 de março de 2011


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Romper os muros da segregação
Roger Waters em Lisboa com o The Wall, farto de futebol e alienado deste tipo de espectáculos e suas audiências, decidiu de produzir este álbum e espectáculo para romper os muros da segregação, diz sim a educação individual não à colectiva; saber dizer NÃO, se revoltar contra o status quo dos governos onde tudo é geopolítico e financeiro, para Roger Waters no fim seria interessante de ver a reacção dos nossos espíritos a esta sociedade e vida (se o tivéssemos), seria um; "mas que foda é que andamos aqui a fazer nesta porcaria de mundo?".
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