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Robert Pattinson: "Os jovens querem ter tudo e já"

Robert Pattinson, o vampiro Edward de "Crepúsculo", está de volta, no filme "Remember Me". Leia a entrevista.

E quando Hollywood precisou de uma daquelas figuras masculinas que oferecem um amor de morrer e chorar por mais, o rapaz que se apresentou foi este, Robert Pattinson. Inglês, tímido, vampiro Edward para as amigas mais obcecadas, maçãs do rosto vermelhas numa pele branca e (por baixo da capa está o segredo) tudo misturado harmoniosamente numa cara magnífica que, não assim há tanto tempo, foi descoberta pela indústria visual da publicidade. Não é boato: o cabelo dele é mesmo farto e modelado nas jubas onduladas que, há muitos séculos, nas brumas do Norte, coroavam todos os príncipes das lendas dinamarquesas.

Pattinson, um moço de Londres que só deixou de ser adolescente há cinco minutos, reaparece agora a provar que é trabalhador dramático ambicioso - e muito mais do que uma peça minúscula no tsunami "Twilight" ("Crepúsculo").

O filme que o traz de volta chama-se "Remember Me". É mais à séria, com actores veteranos. Desta vez, aparece como nova-iorquino de nome Tyler, às turras com a vida e com as contracurvas do amor colegial.

Não foi nada fácil para Robert Pattinson trabalhar em Manhattan, tantos eram os cachos de meninas aos gritos quando ele tinha de fazer uma cena ao ar livre. A própria Emilie de Ravin, a actriz australiana que com ele contracena, confessou não ter ideia de que existissem tantas mulheres na Terra.

Está a terminar as filmagens do seu novo filme, "Bel Ami", baseado num clássico! Guy de Maupassant hoje, vampiro de Stephanie Meyer amanhã... Que carreira!. Fale-me de "Bel Ami" e desta sua experiência por um dos clássicos da literatura. É o oposto de "Remember Me". Pelo menos tenho essa impressão. Nunca fiz uma personagem assim. Totalmente amoral. É nesse sentido que digo que a personagem criada por Maupassant e esta que faço em "Remember Me" são opostos polares. A mentalidade é diferente. A única coisa que o Tyler do "Remember Me" e o Georges do "Bel Ami" têm em comum é o facto de ambos não terem desejos especiais. É esse vácuo que os mantém em movimento. Mas o Georges tem um grande ciúme da felicidade dos outros. O Tyler já nem isso sente. Aliás, é exactamente isso que mais o enfurece.

As suas personagens, vampirescas ou não, têm sempre um ar perdido. No seu caso pessoal, acho que é o contrário: as suas escolhas fazem acreditar numa grande curiosidade. Aposto que nunca se sente letárgico... Há umas semelhanças entre a minha atitude e a de Tyler em "Remember Me". Não é que ele esteja perdido. Está à procura. Perdidos são aqueles que estão tão metidos na sua rotina, nessa ideia fácil de segurança, que se esqueceram de viver. Ele ainda não. Nesse sentido, sou um pouco na mesma. Acho sempre que o dia pode ficar um bocadinho mais completo. Há sempre qualquer coisa que posso aproveitar, ganhar. Acredito que é possível irmos cada vez mais fundo se quisermos conhecer a realidade.

Como foi ir jantar a um restaurante com alguém de categoria ex-007 como é Pierce Brosnan? Deve ter sido um espanto. Foi um jantar óptimo. Havia sempre alguém a olhar de soslaio para a nossa mesa e a tentar ouvir o que estávamos a dizer. Ele é muitíssimo mais reconhecível que eu. Uma coisa que ele fez foi: sempre que alguém se punha a olhar ele ia ter com a pessoa, cumprimentava-a, apresentava-se e até perguntava como é que estava a decorrer o serão. A partir daí já ninguém tinha coragem de o incomodar, porque tinha deixado de ser apenas uma espécie de atracção de circo. Resultava sempre. E as pessoas regressavam a casa felizes, com histórias de uma conversa que tiveram com o Pierce, das boas maneiras dele, que até é simpático. É isso que as pessoas querem. Ter uma história para contar. Aprendi isso com ele. Observei-o, para ver como é que se faz com grande estilo.

O que tem aprendido com a fama? Não acha que já há demasiada gente a querer ser vedeta? Compreendo que seja assim. A fama artística é o cume do respeito porque, precisamente, nasce da vontade popular. A eleição nunca é feita por nepotismo. Qualquer pessoa pode chegar lá, atingir um determinado grau de fama e, com isso, receber os favores de toda a gente. Esse seria o primeiro aspecto. Segundo: acho que os jovens querem, cada vez mais, tudo feito imediatamente. Querem ter sucesso agora porque, ao que parece, ser jovem é o único ponto das nossas vidas em que se pode ter sucesso. Acho que a loucura geral tem um pouco a ver com isto. Há muitos jovens que perceberam que não têm de trabalhar até aos 75 anos só para receber, uma vez por mês, uma ajuda alimentar governamental em forma de cheque. Os jovens querem tudo agora. Ser artista famoso ainda é a maneira mais rápida de conseguir isso.

Lê revistas de mexericos? Não. Nunca me interessaram. Ninguém consegue sobreviver a um escrutínio tão íntimo. Não somos assim tão interessantes quando vistos de perto. No cinema é boa ideia conservar algum misticismo.

(Texto original publicado na Revista Única  da edição do Expresso de 27 de Março de 2010)


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