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Alternativas à nacionalização

Ricardo Reis
8:00 Quarta feira, 4 de março de 2009

A resposta mais comum à crise bancária tem sido a nacionalização dos bancos. Embora não seja uma má ideia, tem dois defeitos que me preocupam. Em primeiro lugar, receio que a reprivatização venha muito tarde. Embora todas as pessoas de bom senso defendam a nacionalização como um remédio temporário, existe o risco de ela gerar um banco acomodado e ineficiente, mas politicamente poderoso, com interesse em atrasar ao máximo a reentrada dos ventos da concorrência.

Em segundo lugar, embora a nacionalização castigue os accionistas, que perdem o investimento, os gestores, que perdem o emprego, e os trabalhadores, com a contenção inevitável, os credores ficam a ganhar. Eles cobraram ao banco uma taxa de juro alta para os compensar do risco. Mas passam a não ter risco, porque o empréstimo é agora garantido pelo Estado. Em muitos bancos, os credores investiram vinte vezes mais dinheiro do que os accionistas, sendo igualmente culpados pelos problemas actuais. Recompensá-los com a nacionalização é injusto e um perigoso sinal para o futuro.

Existem duas alternativas a considerar. A primeira, é a reestruturação do banco de acordo com os princípios que se seguem em falências. Os accionistas actuais perdem tudo (os bancos já estão falidos de qualquer forma) e os credores vêem os seus empréstimos convertidos em novas acções. Passam assim a suportar o risco, e têm todo o incentivo em melhorar a gestão do banco. O Estado não entra com um tostão, cabendo-lhe apressar legalmente a reestruturação.

A segunda, é partir um banco falido em dois. Com os activos que tenham bom valor, cria-se um novo banco, o N(ovo)BPP e o NBPN, vendendo acções no mercado a novos investidores privados, talvez com algum apoio estatal no início. Sem o fardo dos activos tóxicos, o novo banco deverá funcionar bem. Os maus activos ficam no banco velho, ao cargo dos seus accionistas e credores, mas retira-se a sua licença bancária, ficando reduzido a gerir e tentar vender estes activos de forma a recuperar algum do investimento.

Para evitar quebrar-me em dois, esta é a minha última coluna neste espaço no Expresso. Obrigado, pela atenção.

Ricardo Reis, professor de Economia, Columbia University

Desafios para o euro

Ricardo Reis
8:00 Quarta feira, 18 de fevereiro de 2009

O euro fez dez anos a 1 de Janeiro. Esta primeira década foi um sucesso macroeconómico. O euro é a moeda de referência no sistema financeiro, só comparável com o dólar no valor das transacções e reservas. A inflação tem sido estável e previsível, e a credibilidade do BCE vê-se nas baixas taxas de juro de longo prazo. Estas permitem que países como Portugal paguem menos pelas suas dívidas do que no passado, e o risco da bancarrota internacional na dívida pública do país seja menor.

Por trás deste sucesso escondem-se alguns detalhes menos confortáveis. Nos anos 90, os defensores do euro argumentavam que o comércio intra-europeu iria disparar com a moeda única. Algumas estimativas falavam no dobro ou mesmo no triplo das transacções, por ser mais simples comparar preços na mesma moeda. Olhando para trás, o comércio aumentou na zona euro, na melhor das hipóteses, uns 10 ou 15%. Os portugueses podem saber hoje com mais certeza quanto custa o pão em Berlim, mas isso não os levou a deixar de comprar papos-secos e a começar a importar pão alemão.

A outra grande vantagem do euro seria o aprofundamento da ligação política entre as nações da União Europeia. Não sendo as relações internacionais a minha especialidade, pedi a opinião a alguns académicos.

A resposta foi unânime: os últimos 10 anos ficaram muito atrás dos anos 90 em termos de integração europeia. Os falhanços de sucessivos referendos, a ausência de uma política externa coerente, e as situações ridículas em que se colocam os deputados do Parlamento europeu, foram algumas das razões avançadas.

Por fim, o sucesso macroeconómico só agora vai ser posto à prova. Nos últimos 10 anos, a política monetária conservadora do BCE não fez grande diferença no crescimento económico de uma Europa com problemas estruturais. Mas agora que entramos em recessão, continuará o BCE obcecado com a inflação mantendo as taxas de juro bem acima dos EUA? E, com a produção industrial a descer só 3,9% na Alemanha, mas uns alarmantes 11% em Espanha, irá o BCE escolher a política monetária certa para o seu maior país ou aquela que mais interessa para a maioria dos europeus?

Ricardo Reis, professor de Economia, Columbia University

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Expansões fiscais

8:00 Quarta feira, 4 de fevereiro de 2009

O Ocidente prepara-se para iniciar uma das maiores expansões fiscais de sempre em tempo de paz. Os EUA planeiam o seu maior défice no pós-guerra, a conservadora Alemanha abre os cordões à bolsa todos os dias, e até Portugal está disposto a trilhar este caminho apesar do recente esforço na redução do défice. Uma questão em aberto é se esta expansão deve ser feita aumentando a despesa pública ou reduzindo os impostos. Neste ponto, os economistas dividem-se em dois campos.

Os keynesianos preferem a despesa pública. Para eles, numa crise como esta falta a procura de bens. Quando o governo gasta €1 milhão, cria uma procura por bens neste valor. Por sua vez, o aumento da procura aumenta a produção e a riqueza, que levam as pessoas a consumirem mais, aumentando a procura, num efeito multiplicador da expansão inicial. Uma redução dos impostos em €1 milhão, em contrapartida, é em parte poupada pelas pessoas, pelo que o aumento inicial da procura é sempre inferior a um milhão. Por isso, é menos eficaz do que o aumento na despesa pública.

Os neoclássicos acham antes que o problema está na oferta. Para eles, se o governo gasta €1 milhão a construir um museu novo, isso retira recursos já de si escassos às famílias. As pessoas respondem construindo menos edifícios privados, e o produto final não se altera muito. Em contrapartida, baixando os impostos sobre o rendimento, cada hora a mais a trabalhar ou cada euro a mais investido rendem mais. A baixa de impostos estimula maior produção na economia.

Tendo em conta esta incerteza teórica, os economistas viram-se para os dados. Há alguns anos, Blanchard e Perotti estimaram que €1 a mais de despesa ou €1 a menos de impostos resultam ambos em €1 a mais no PIB. Melhores dados e técnicas recentemente levaram Valerie Ramey a medir que €1 de despesa aumenta o PIB em €1,4, enquanto Christina Romer (a economista-chefe da administração Obama) estima que €1 a menos de impostos eleva o PIB entre €2 a €4.

O plano de $1 bilião de Obama toma o meio-campo: metade vai para o aumento da despesa, metade para baixar os impostos. Vamos ver como será o plano português.

Ricardo Reis, professor de Economia, Columbia University

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O verdadeiro pânico

8:00 Quarta feira, 21 de janeiro de 2009

Não têm faltado más notícias para Portugal nos últimos tempos: recessão para 2009, desemprego a subir, empresas históricas a fechar. Mas, as notícias mais assustadoras têm vindo dos remotos spreads e ratings, que só agora capturaram a atenção da imprensa.

Nos últimos 10 anos, Portugal transformou-se num país altamente endividado ao exterior. A dívida é cerca de 90% do PIB, e todos os anos acrescentamos 8 a 9%. Se, de repente, os estrangeiros deixassem de nos emprestar este dinheiro, Portugal teria uma crise económica como nunca teve no último século. Fábricas fechadas porque não conseguem importar os materiais necessários, desemprego a saltar para os 20%, revoltas sociais, um ditador populista ao poder. Este cenário parece inconcebível, mas ocorreu na Argentina há poucos anos, quando os números da sua economia tinham semelhanças com a nossa situação.

Porque é que os estrangeiros fariam isso? Quem empresta ao Estado enfrenta dois riscos: a inflação, que implica que o dinheiro que recebo do Estado mais tarde em pagamento vale menos em bens reais; e a falência do Estado que pode não pagar. Desde que entrámos no euro, o primeiro risco desapareceu, e o segundo devia ser mínimo, pois desde o século XIX que o Estado português honra as suas dívidas. Por isso mesmo, desde 1999, a diferença entre a taxa de juro que os portugueses e os alemães pagam nas suas dívidas tem sido quase zero.

Nos últimos meses, aconteceu uma coisa quase impensável: esta diferença, ou spread, trepou para os 1,1%! Este número diz que os mercados internacionais acham que é bem provável que Portugal deixe o euro ou declare falência nos próximos 10 anos. Os dois riscos não são independentes, pois se Portugal não pagar as dívidas, pode ser expulso do euro; basta lembrar que um dos maiores detentores da dívida portuguesa é o próprio BCE. Esta semana, mais uma má notícia, quando a S&P reviu para cima a sua avaliação, ou rating, do risco da dívida portuguesa.

A probabilidade desta catástrofe ainda é pequena. Mas, para quem acompanhou o que aconteceu na Argentina, só o facto de ela estar na mesa é suficiente para fazer perder o sono.

Ricardo Reis, professor de Economia, Columbia University

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Genes ou socialização?

15:12 Terça feira, 6 de janeiro de 2009

Qual dos dois é o maior determinante das nossas características, da personalidade, saúde, ou sucesso? Alguns, por ventura mais ligados às ciências naturais, apostam nos genes, apontando para as fortes correlações entre determinadas sequências genéticas e muitos dos nossos traços de personalidade. Outros, mais ligados às ciências sociais, realçam o estudo de gémeos separados à nascença que, apesar de geneticamente quase idênticos, são muito diferentes em adultos como resultado de diferentes famílias, educações e experiências de vida.

Recentemente, o economista Douglas Almond fez uma contribuição intrigante para este debate. Ele concentrou-se na saúde dos fetos na barriga das suas mães, e sobretudo na sua exposição a factores ambientais. Num primeiro estudo, Almond observa fetos entre 1917 e 1918 dentro da barriga de mães semelhantes numa série de características que podemos medir, com residência em diferentes áreas dos EUA. Nestes dois anos, diferentes regiões foram afectadas em diferentes alturas pela epidemia da gripe, que matou mais de meio milhão de americanos. Usando esta variação, combinada com dados do censo pós-1940 para os então adultos que foram fetos em 1917-18, Almond pôde ver se as pessoas cujas mães foram expostas à gripe têm menos saúde, educação ou dinheiro.

Num segundo estudo, Almond usa dados suecos aquando do desastre de Chernobyl. A nuvem radioactiva que resultou do desastre viajou da Rússia para a Suécia afectando diferentes regiões em diferentes alturas. Num terceiro estudo, Almond usa o jejum durante o Ramadão para comparar a saúde e estado socioeconómico dos muçulmanos concebidos nesse mês com os outros.

O resultado dos três estudos é forte: a exposição a factores ambientais durante a gestação tem efeitos bastante pronunciados na nossa saúde e rendimentos em adultos. Estes resultados baralham o habitual debate entre genes e socialização: os genes que herdamos são determinados na concepção e a socialização começa depois do nascimento. Ou, talvez parte dos nossos determinantes biológicos vão para lá da nossa herança genética, e talvez a nossa socialização comece ainda no ventre.

Ricardo Reis, professor de Economia, Columbia University

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Previsões e 'heróis'

8:00 Segunda feira, 22 de dezembro de 2008

O nosso conhecimento sobre os fenómenos económicos ainda é bastante limitado. A ciência económica tem pouco mais de 100 anos, e os seus objectos de estudo são mais complexos do que um átomo ou uma célula. As limitações da economia sentem-se sobretudo na sua fraca capacidade de previsão. Quando um economista faz uma previsão correcta torna-se um herói.

Acertar uma previsão, no entanto, implica mais do que sugerir o acontecimento. Não basta dizer que o mundo vai acabar. É preciso, primeiro, explicar de que forma vai acabar, ou seja, descrever correctamente o mecanismo ou a cadeia de eventos, assim como as circunstâncias em que esta previsão é mais ou menos provável. Segundo, é preciso acertar no "timing", ou seja, dizer quando acaba, se daqui a um dia ou daqui a 10 anos.

Milton Friedman é um dos gigantes da economia em parte porque, numa famosa palestra em 1967, previu a estagflação dos anos 70, descrevendo com precisão de que forma a política monetária da altura traria problemas. A crise actual está também a produzir os seus heróis.

O principal deles é Robert Shiller. Em 1996, ele avisou que a bolsa de valores estava sobrevalorizada. O valor da bolsa durante o último mês está precisamente no nível que Shiller previu há 12 anos. Para além disso, ele detectou em 2002 uma bolha no mercado imobiliário, e previu que uma descida abrupta no valor das casas poria em risco todo o sistema financeiro.

Existem também muitos que se fazem passar por heróis. O mais famoso é Nouriel Roubini, que tem lembrado a todos ter previsto uma crise há 10 anos. Só que Roubini previu como causa da crise o défice externo americano. Este levaria a uma perda de confiança dos investidores estrangeiros, causando o colapso do dólar. Bem pelo contrário, desde o começo da crise, o dólar tem apreciado de valor, e o influxo de capitais para os EUA é maior do que nunca. Para além isso, Roubini diz há 10 anos que a crise está iminente.

Portugal tem uma grande tradição de "velhos do Restelo" que prevêem a toda hora o fim do mundo. Quando as dificuldades surgem, correm a afirmar-se como visionários. Mas convém distinguir rabugice de sabedoria.

Ricardo Reis, professor de Economia, Columbia University

Salvar bancos

8:00 Segunda feira, 8 de dezembro de 2008

Os bancos recolhem o dinheiro das pessoas sem tempo para o gerir, e emprestam-no a outros com projectos rentáveis. Não é fácil entrar neste negócio de um momento para o outro; exige experiência comercial, capacidade de distinguir projectos viáveis e inviáveis, e muita vigilância dos pagamentos. Estas funções são tão essenciais quanto o uso de comboios e aeroportos. Da mesma forma que a falência súbita da CP ou da ANA levariam ao caos, também seria desastroso se o sistema bancário fechasse as portas, mesmo que só temporariamente. Daí, a necessidade de salvar bancos.

Infelizmente, os bancos são instituições frágeis, pois têm dívidas aos depositantes à ordem, mas créditos em investimentos a longo prazo. Por isso, estão expostos a crises de liquidez. Se todos tentam levantar dinheiro ao mesmo tempo, o banco não pode satisfazê-los porque tem o dinheiro empatado. Para salvar um banco de um problema de liquidez, é preciso emprestar-lhe dinheiro no curto prazo e esperar pelo fim rentável dos investimentos de longo prazo.

Se o problema não for de liquidez, mas de rentabilidade, pode-se justificar salvar o banco pela sua importância da mesma forma que cobrimos os prejuízos da CP. Salvar o banco não implica, no entanto, salvar os seus actores. O fracasso de um banco é responsabilidade dos seus accionistas, credores, gestores e trabalhadores. Salvá-los seria encorajá-los a repetirem os mesmos erros.

Castigar os accionistas e os gestores é a parte mais fácil (mas por vezes esquecida). Quando o Estado intervém com capitais públicos, deve receber acções em troca, pelo que os accionistas anteriores perdem tudo. Porque o Estado é o novo dono, pode e deve despedir de imediato os gestores.

Quanto aos credores, com a excepção dos depositantes, deve-se renegociar a dívida tal como o tribunal faria em caso de falência. Por fim, impõe-se a reestruturação da empresa, incluindo despedimentos, assim como a contenção salarial.

Salvar um banco também não implica comunismo. Tendo mantido o banco aberto e castigado os actores anteriores, o Estado deve, o mais cedo possível, vender o banco aos privados que o saibam gerir melhor.

Ricardo Reis, professor de Economia, Columbia University

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Países pequenos

8:00 Segunda feira, 24 de novembro de 2008

Imagine que, no meio de um "boom" mundial no turismo, o grupo Pestana aumentava drasticamente o seu volume de negócios, investindo em dezenas de hotéis na América do Sul. Um dia, inesperadamente, rebentam guerras civis na região e vários ditadores sobem ao poder. Os turistas deixam de querer lá ir, os hotéis são expropriados, e o grupo Pestana vai à falência. Milhares de portugueses credores do grupo Pestana perdem milhões de euros.

O governo do continente decide intervir. Usando uma lei antiterrorista, declara que os madeirenses são terroristas e congela os seus bens no continente. De nada serve ao Banif argumentar que não tem nada a ver com o assunto, nem ao governo madeirense protestar que o Pestana é um grupo privado. A Madeira herda dívidas maiores do que toda a riqueza que produz ao longo de um ano. Percebendo que a Madeira está à beira da falência, os investidores correm a tirar o seu dinheiro da ilha, e até os cartões de crédito são suspensos. Incapaz de comprar comida no exterior, receia-se a fome na ilha. A Madeira vira-se para o FMI e para a União Europeia, mas Portugal continental usa a sua diplomacia para bloquear todas as tentativas de financiamento. "Primeiro recebemos nós", impõem os continentais. Nenhum país ou organização quer sacrificar as relações com Portugal por causa de 250 mil pessoas no meio do Atlântico.

Este cenário difícil de acreditar está, em traços largos, a acontecer hoje entre a Islândia e o Reino Unido. No seguimento da crise financeira mundial, os bancos islandeses foram à falência, deixando dívidas no Reino Unido. O governo britânico aplicou leis antiterroristas para congelar os bens islandeses e usa a sua influência para bloquear empréstimos à ilha. De país mais desenvolvido no mundo (segundo a ONU), a Islândia passou a país à beira da catástrofe.

Portugal é um país pequeno. A nossa diplomacia, tal como a islandesa, assenta na esperança de os grandes países nos acorrerem em caso de crise. Como os islandeses aprenderam, os grandes países querem saber dos seus interesses, e se for preciso, sacrificam tanto os islandeses como os portugueses.

Ricardo Reis, professor de Economia, Columbia University

Depressão?

8:00 Segunda feira, 10 de novembro de 2008

A crise de 2008 nos EUA tem semelhanças assustadoras com a crise de 1928-29. Ambas vieram depois de uma década de prosperidade, ambas foram precedidas por uma queda no preço das casas e uma contracção no sector da construção, e em ambas a bolsa caiu a pique e o consumo retraiu-se. Mas o que transformou a crise de 28-29 na depressão de 28-40 foram os erros de política que esperemos não repetir:

1. O colapso dos bancos. Entre 30-33, dezenas de bancos faliram levando ao desaparecimento de depósitos e empréstimos e à contracção da liquidez na economia. O Fed, na altura, não fez nada e deixou a economia caminhar para a deflação. Em 2008, o Fed tem estado superactivo intervindo para evitar quedas de liquidez e baixando a taxa de juro para combater a deflação.

2. O padrão-ouro. Na altura, os governos fixavam as taxas de câmbio da moeda ao preço do ouro. Por isso, a taxa de câmbio não pôde ajustar-se em resposta aos problemas nos EUA, e a depressão propagou-se por todo o mundo. Hoje em dia, na maior parte do mundo desenvolvido, as taxas de câmbio podem ajustar-se livremente, e as quebras no valor do dólar têm atenuado a crise. Mas, na Ásia, Europa de Leste, e América Latina, há muitas taxas fixas que vão trazer problemas nos próximos meses.

3. Os cartéis e os sindicatos. Entre 33-39, persuadido pelos pedidos de empresários e trabalhadores, Roosevelt permitiu monopólios e cartéis em várias indústrias e apoiou o crescimento dos sindicatos. Como resultado, os salários dos (poucos) que tinham emprego e os lucros de algumas empresas foram bem altos, enquanto outros sofriam. Hoje, algumas intervenções apressadas dos governos para 'ajudar' o sistema financeiro, assim como alguma retórica socialista, são causa para preocupação.

4. O proteccionismo. Depois da depressão, os maiores países erigiram barreiras ao comércio internacional que só com a globalização dos anos 90 foram finalmente removidas. Pequenas economias abertas (como Portugal hoje) sofreram mais. É este o meu maior receio para a crise actual. Recuos na liberdade das pessoas e do comércio como reacção à recessão são uma forma rápida de criar uma depressão.

Ricardo Reis, professor de Economia, Columbia University

A evolução da crise

8:00 Segunda feira, 10 de novembro de 2008

Dois desenvolvimentos na crise financeira destacam-se nos últimos quinze dias.

1. Morreu o plano Paulson, nasceu o plano Paulson. O primeiro plano era uma aberração, como escreveram quase todos os académicos economistas. Uma alternativa que descrevi aqui há duas semanas seria injectar capital público nos bancos. Há poucos dias, engolindo um enorme sapo, Paulson enterrou o seu plano original e reorientou o dinheiro aprovado precisamente para esta alternativa. Embora esteja na direcção certa, o novo plano tem erros. O mais clamoroso é que permite que os bancos recapitalizados continuem a pagar dividendos, abrindo o caminho a que se descapitalizem de novo.

2. A volatilidade do preço das acções. Para quem tem poupanças investidas na bolsa, os últimos dias não têm sido fáceis. Ao fim de cada dia, o mercado perde ou ganha aquilo que normalmente perde ou ganha ao fim de um ano. Antes de culpar os gananciosos, os especuladores, ou as bruxas, convém notar que há três boas razões para esta volatilidade.

Primeiro, os problemas nos bancos levaram ao encerramento das linhas de crédito de muitos investidores. Por isso, eles têm sido aos poucos forçados a vender as suas acções, enquanto outros (com liquidez) são atraídos pelos preços baixos, levando a volatilidade.

Segundo, nos últimos dias tivemos revisões na probabilidade de uma recessão, anúncios de prejuízos em vários sectores, e novidades sobre a fragilidade de mais bancos. Estas notícias justificam a reavaliação brusca de muitas empresas.

Terceiro, o Estado americano não se tem portado bem. Um dia, a empresa X está falida, só tendo umas coisas sem valor. As acções valem zero. No dia seguinte, o Governo anuncia que lhe vai dar 10 milhões em troca dessas coisas. As acções valem 10 milhões. No dia seguinte, diz que afinal a compra tem de ir ao congresso e só será aprovada com 50% de probabilidade. As acções valem 5 milhões. O congresso aprova, mas afinal ainda se vai discutir o preço a pagar, que tanto pode ser 1 como 10 milhões. E por fim, decide que não compra nada, mas vai manter a empresa em funcionamento até que ela dê lucro novamente. A volatilidade explica-se.

Ricardo Reis, professor de Economia, Columbia University

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