Ribatejo por simples acaso
Festa maior e a mais popular do Porto, o São João é, sobretudo, a noite de todas as folias, dos ranchos barulhentos, do clamor dos bandos que se interceptam, das rusgas de folgazões, do alho-porro (substituído pelos martelinhos de plástico), dos foguetes e balões, dos arraiais e das tão características cascatas, a atmosfera, digamos assim, carregada de Eros e Baco. "Noite delirante" lhe chamou o indispensável elucidador Hélder Pacheco ("Tradições Populares do Porto", Ed. Presença, 1985), que informa que o centro principal dos festejos se começou a deslocar, a partir de 1869, para as fontainhas. Já antes, a mesma localização fora apontada por Sant'Anna Dionísio ("Guia de Portugal", 4º Volume, tomo 1º, 1964): "Em fins de Junho, o terreiro das Fontainhas é uma espécie de Meca dos portuenses. Aí se concentram, tradicionalmente, os folguedos de São João." Pois bem, actualmente, com a construção de acesso à Ponte do Infante e a deslocalização das pessoas da zona, as Fontainhas perderam completamente a sua faceta de ponto fulcral das festas sãojoaneiras.
Se trago aqui estas lembranças, é porque a Rua Alexandre Herculano (aberta em 1877), aonde interessa agora ir, liga a Praça da Batalha à Rua e à Alameda das Fontainhas. Mais ou menos a meio da descida, do lado direito, no nº 219, o restaurante Casa de Pasto Ribatejo (este o nome que está na frontaria, nos cartões e na lapela dos empregados, embora muita gente lhe continue a chamar Adega Ribatejo). De historial antigo, abriu ao público com alvará em 1939, devendo-se a fundação a Manuel Sá, que uma vez almoçou tão bem numa localidade ribatejana que cismou pôr ao seu estabelecimento o nome da província das lezírias e dos toiros.
Sucedeu-lhe o filho Alberto, falecido em 2004, cujo filho também Alberto desistiu da continuação e vendeu a casa a Rogério Sá e Vítor Sá, primos entre si mas sem laço de parentesco com os anteriores. Houve obras de remodelação, Júlia Teles assumiu a gerência em 2005, todavia a sociedade desfez-se em Novembro de 2006: saiu Rogério (esse mesmo, o dono do Rogério do Redondo) e o economista Vítor Sá ficou como único proprietário.
Conquanto a estrutura continue a mesma - uma comprida sala de entrada, a das refeições propriamente dita e o belo terraço nas traseiras com latada e tudo -, as tais obras beneficiaram bastante o interior, tornando-o, sem luxos, mais aconchegado e confortável, a par da amesendação cabal e digna.
A lista de comidas que encontrei (almoço de 30/12/2008) comportava 7 Entradas, 1 Sopa, 6 Peixes e 7 Carnes. Das primeiras, nomeio as 6 que não se provaram: "amêijoas à Bulhão Pato" (€13), "presunto fatiado" (€6), "costeletinhas de porco preto grelhadas" (€4,50), "cogumelos salteados" (€3,50), "mexilhões à marinheiro" (€5) e "favas com chouriço" (€4,50). Apenas se sacou o "misto de salgadinhos" (€4,50), com pataniscas, bolinhos de bacalhau e croquetes em apreciável feição. Não posso esquecer a variedade do cesto do pão, com broa, papo-seco de massa de regueifa, bola e cacete de mistura.
No "peixe-galo frito com açorda" (€12,50), três postas em condições, levemente passadas por farinha, à parte a açorda de alho, azeite e coentros, regular. Os "filetes de pescada com arroz de feijão" (€12,50) deram para o brilharete deles e o arroz, caldoso, agradeceu a junção de grelos. A boa posta frita, agasalhada por meritória cebolada e rodeada pelas costumeiras batatas chips, enformaram vitoriosamente (o gadídeo no ponto exacto de demolha e a manter a gordurazinha intersticial) o "bacalhau à Braga" (€15,50).
Não dei por aquela parte do estômago vacum chamada folho, mas tal não obstou à validade das "tripas à moda do Porto" (€9,50), com tudo o mais, cominhos e guisado apurado. Na companhia de batata a murro virtual e couve aferventada, a "posta à mirandesa" (15,50) foi um vistoso tassalho de carne estimável, não obstante não fosse daquela que larga sumo ao cortar. O "galo caseiro de cabidela" (€18,50, 2 p.) muito bem no resto dos componentes, excepto no vinagre, do qual carecia de mais um golpe.
Existem 6 sobremesas doces, tendo-se colhido um superior "leite-creme" (€3), um correcto "pudim Abade de Priscos" (€3) e umas simpáticas "queijadinhas" (€0,60, a unidade). Carta de vinhos curta, sem datas mas com classificações: 21 tintos, 12 brancos, 7 verdes, 4 espumantes e 2 champanhes. Serviço eficaz e cordial.
Ora aqui está, num ambiente acolhedor, um restaurante que, não tendo nada a ver com o Ribatejo, soube ao longo de sete décadas manter-se fiel à matriz culinária portuguesa e portuense, despertando a vontade de voltar.
Porto
Tel. 222 008 991
(fecha aos Domingos)


Rui Duarte Silva
