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Pedro Duarte propõe congresso programático no PSD antes da disputa de liderança

Tiago Miranda

Paulo Rangel demarca-se de temas habituais de Rui Rio. Pacheco Pereira reclama regresso à social-democracia. Antes do Conselho Nacional, marcam-se posições no debate público

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Pedro Duarte, ex-presidente da JSD, crítico de Pedro Passos Coelho e um dos nomes que têm sido apontados como eventual candidato à liderança social-democrata, defende que o partido deve concentrar-se nas políticas antes de debater os rostos. Propõe, para isso, a organização de um congresso programático antes da realização de diretas para a escolha do próximo presidente do PSD.

Num de três artigos assinados esta terça-feira no jornal “Público” por figuras de relevo do PSD (os outros dois são Paulo Rangel e José Pacheco Pereira) sobre os desafios do partido, Pedro Duarte diz temer, depois do “desastroso resultado autárquico”, que o PSD “entre numa disputa, infantilizada e impercetível aos olhos dos portugueses, em torno de rostos e personagens. Impulsos primários dividirão o partido entre os ‘nossos’ e os ‘deles’ numa corrida desenfreada para alcançar não se sabe bem o quê. Perceberemos pouco as diferenças políticas em causa, mas reluzirão os ‘perfis’ e os chavões.”

Em alternativa a este “erro colossal”, Pedro Duarte defende que “o problema do PSD não reside nos seus quadros (apesar de desprezados nos tempos recentes). O embaraço está na sua obsoleta organização, no seu estilo de liderança e, principalmente, na ausência de um programa político decente e inspirador. O estorvo está no dogmatismo financista e neoliberal, ultrapassado pela realidade, mas obsessivamente imposto.”

Para romper com este estado de coisas, o antigo líder da “jota”, que foi uma das poucas vozes que criticaram Passos no último congresso, avança com “uma proposta pública aos dirigentes do PSD”: “A convocação imediata de um congresso para discutir ideias, projetos, estratégias e políticas. Sem disputa de liderança, nesta primeira fase. Entendamo-nos sobre a agenda e a proposta que o PSD quer apresentar aos portugueses. Discuta-se de forma livre, sem condicionalismos, nem dependências de candidatos ou lugares. Para que, num momento posterior, se faça a escolha dos melhores protagonistas e se lancem uns verdadeiros Estados Gerais da Social Democracia em Portugal, trazendo a sociedade civil para este movimento.”

Um caminho que poderá reposicionar o PSD onde PEdro Duarte o quer ver: com uma alternativa ao centro, com "uma oposição construtiva e alternativa, com sólidos valores humanistas e com visão de futuro".

Rangel faz marcação a temas de Rio

O eurodeputado Paulo Rangel, o último adversário de Passos em diretas, também escreve no “Público” sobre o que o PSD deve fazer depois dos resultados “francamente negativos” das autárquicas. Ainda mais graves, diz, porque “o PSD é genética e sociologicamente um partido das autarquias e dos territórios”, com uma “larga e funda implantação territorial” no seu ADN. Uma identidade que “temos e queremos preservar”, frisa Rangel. “A todo o transe. A todo o custo.”

A “derrota dura” exige “reflexão, avaliação e debate”, que “é possível fazer no curto prazo”. Uma reflexão que, avisa Rangel, deve estar “à altura [desta] derrota”, e “não deve esfumar-se numa luta de personalidades ou num choque de séquitos e aparelhos”.

Tal como Pedro Duarte, Rangel reclama para o PSD o “código genético” fundado “na dignidade da pessoa humana e nos direitos fundamentais, na democracia e no Estado de Direito”. e neste ponto, o euroideputado faz marcação cerrada a alguns dos temas recorrentes do discurso de Rui Rio, muito crítico do poder judicial e do papel dos media na sociedade. “O PSD tem de ser inflexível na defesa da independência dos tribunais e da liberdade de imprensa e de expressão. Insisto: tanto externa como internamente! O nosso modelo é a democracia liberal, e não há que ter vergonha de dizê-lo, a democracia liberal ocidental.”

Rangel defende um partido que é “pela liberdade, mas não é liberal”, que é “pela igualdade solidária”, “um partido aberto e cosmopolita, respeitador da diferença”, “eclético”, com “conservadores e progressistas” e que “não corre atrás do politicamente correcto”.

Pacheco diz que há dois caminhos: cosmética ou virar de página

Pacheco Pereira, ex-dirigente do PSD e comentador político, veio igualmente a terreiro nas páginas do “Público”, denunciar “uma crise profunda, que não é conjuntural, mas estrutural, e não data de agora” no seu partido. “Se nada for feito pelos seus militantes, o PSD mudará de carácter consolidando a sua deriva à direita, tentado pelo populismo, e terá um tamanho médio.”

Pacheco fala na “perda de valor da ‘marca’ PSD” e vê dois caminhos possíveis pela frente: “pode haver uma ou outra afirmação cosmética, e tudo continuar na mesma, seja com Passos Coelho ou com um seu seguidor e discípulo, ou pode haver alguma mudança, que, mesmo sendo pouca, se for na direcção certa, pode começar a virar uma página negra da história partidária.”

E avisa: “Não vai ser fácil, exatamente porque não é apenas um problema de mudar de líder, mas sim de mudar de grupo dirigente, principalmente em Lisboa e Porto e, mais importante do que tudo isso, mudar de política.”

Pacheco, que é apoiante de Rui Rio, elogia o trabalho que este fez quando era secretário-geral do PSD durante a liderança de Marcelo Rebelo de Sousa, tendo lançado um processo de refiliação “contra o caciquismo e as fraudes no registo de militantes” – facto que ainda hoje lhe merece a antipatia de boa parte do partido.

Fazendo a história do PSD, Pacheco nota que o partido nunca foi de direita, mas que Passos Coelho tendo criar “um partido neoliberal, tendo como modelo Singapura, considerando que a ‘economia’ eram as empresas e os trabalhadores um ‘custo’ que devia ser domado, apontando como alvo para a austeridade a classe média e deixando os pobres sofrer com o custo dos despedimentos e numa redoma assistencial”.

“Era um projeto de engenharia social, completamente alheio ao programa social-democrata do PSD, que ruiu quando o PS conseguiu conciliar um certo desenvolvimento económico com a ‘reversão’ de medidas”, relata o social-democrata. Com esse caminho, diz Pacheco, o PSD entregou o centro ao PS, e encostou-se à direita com o CDS. É essa “esquizofrenia política”, escreve, a “doença que está a encolher o PSD”.