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Ana Rita Cavaco: “Há grávidas a serem empurradas de hospital para hospital”

ACUSAÇÕES “Foi quando cheguei e percebi que tudo o que estou a combater lá fora tinha cá dentro: interesses instalados, pessoas que acham que os cargos servem para viverem à custa deles”, disse a bastonária dos enfermeiros, Ana Rita Cavaco, ao Expresso em fevereiro

ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

Ana Rita Cavaco, militante do PSD e membro do Conselho Nacional do partido, recusa a ideia que esta greve seja uma questão política

Desta segunda-feira até sexta, os enfermeiros com título de especialidade estarão em greve nos hospitais portugueses. Ana Rita Cavaco, bastonária da Ordem dos Enfermeiros, em entrevista ao “Público” , acusa o Governo de dizer “que está tudo bem”, quando “há blocos de parto fechados a partir de determinadas horas. Há grávidas a serem empurradas de hospital para hospital”.

A bastonária releva, ainda na mesma entrevista, que não concorda com a estratégia encontrada por alguns movimentos sindicais dos enfermeiros, que incitaram à entrega dos títulos de especialidade. “Quando iniciaram a entrega de títulos, nós tentámos demovê-los desse caminho. Dissemos sempre que entendíamos que esse não era o melhor caminho. Agora, se eles avançaram, a Ordem é obrigada a apreciar. Mas eu pessoalmente e a Ordem não somos fãs desta forma de protesto”, disse.

Segundo Ana Rita Cavaco, a Ordem dos Enfermeiros não faz, “nunca fez nem nunca fará” actividade sindical. “O que nós queremos é que haja uma solução para o agigantar de problemas. A Ordem tem que estar solidária com os movimentos espontâneos que surgiram porque sabemos o que está a acontecer. Há ano e meio que fazemos o que nos compete, que é alertar e enviar à tutela, aos grupos parlamentares e à comissão de saúde estas questões”, explicou.

Mais: para a bastonária há uma incongruência por parte do ministério da Saúde: ao mesmo tempo que aqueles que têm título de especialidade não recebem como tal, o executivo de António Costa quer que até ao final do ano sejam aprovadas mais seis títulos de especialista.

“O próprio ministério vai pedindo à Ordem que aumente o número de especialidades. Neste momento existem seis [enfermagem comunitária, médico-cirúrgica, de reabilitação, de saúde infantil e pediátrica, de saúde materna e obstétrica e saúde mental e psiquiátrica], com 16 mil enfermeiros. Até ao final do ano, vamos criar mais três: saúde familiar, cuidados paliativos e perioperatório. Em 2005, congelaram a progressão. Em 2009, acabaram com a carreira de especialista. Por um lado o Governo quer especialistas, mas depois isso não tem nenhuma correspondência na carreira”, disse.

Ana Rita Cavaco, militante do PSD e membro do Conselho Nacional do partido, recusou também que esta greve fosse uma questão política.

“Eu nunca escondi o cargo que tinha no PSD, até porque acho que o mal é haver poucos enfermeiros com intervenção política. E eu sou do braço esquerdo da social-democracia. Tenho um vice-presidente que é candidato a uma câmara socialista, tenho militantes do PCP, do CDS-PP, do Bloco. Disse desde o início que não ia admitir que se fizesse política com a vida das pessoas. Não há partidos aqui dentro. Nas minhas intervenções no Conselho Nacional do PSD, para o qual fui sempre eleita por listas independentes, fui a maior crítica do ministro Paulo Macedo, no governo anterior. Se hoje o partido do governo fosse o PSD estaríamos exactamente na mesma situação”, explicou.