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Luaty Beirão: eleições em Angola só “servem para legitimar ou continuar a fingir que estamos numa democracia”

Luis Barra

O ativista angolano revela que não vai votar a 23 de agosto nas presidenciais, mas vai “promover uma observação dos próprios eleitores”

As eleições em Angola, marcadas para 23 de agosto, só “servem para legitimar ou continuar a fingir que estamos numa democracia”, diz Luaty Beirão, músico e ativista angolano, que através de uma greve de fome de 36 dias deu a conhecer ao mundo a situação do país e embaraçou o Governo de Luanda, em entrevista ao “Público” e à Renascença esta quinta-feira.

Para Luaty, apesar de todas as previsões para as eleições presidenciais darem quase por certa uma vitória ao MPLA, partido de José Eduardo dos Santos, é importante que este esteja presente. O Presidente angolano esteve um mês em Espanha a fazer exames e tratamentosmédicos, e o seu estado de saúde levantou muitas questões. Já esta semana, regressou a Angola.

“É um alívio que esteja de volta, durante um mês estivemos em suspenso, com rumores e o silêncio dos responsáveis do Estado. É importante que ele tenha regressado e se aguente nas canelas, pelo menos até às eleições. Sabemos que os processos eleitorais não são transparentes, há indícios de fraude, a imprensa pública dá 90% de tempo ao MPLA e existe o uso de meios da CNE [Comissão Nacional de Eleições] para transportar elementos do MPLA. São indícios que nos fazem não estar seguros quanto à transparência do processo eleitoral. É quase certo que o MPLA volte a ‘ganhar’, mas é importante que ele [Eduardo dos Santos] esteja presente quando passar a chave do país”, diz Luaty Beirão.

O ativista revela também que não vai votar a 23 de agosto, mas vai “promover uma observação dos próprios eleitores”. “O processo está eivado de irregularidades, não há vontade de transparência de quem organiza. O partido no poder tem a mão em cima do processo eleitoral, controlou as listas através do Ministério da Administração do Território – cujo ministro é candidato a vice-presidente – e não deixa fazer uma auditoria aos cadernos eleitorais. Está a contratar empresas com centenas de queixas em processos anteriores sem as exigências do concurso público”, explica.

Angola pode estar agora a iniciar um momento de transição – ou não. O futuro, diz o ativista que recusa mais protagonismo, nunca se sabe. “Acho que não há um Mandela em Angola, no futuro nunca se sabe. Espero que algum Mandela venha a nascer em Angola e pacifique os corações e as almas. Há muitas feridas que não estão bem cicatrizadas e não há vontade de as sarar”, diz.