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Poiares Maduro: segundo resgate “não é muito provável” no curto prazo porque clima na União Europeia “é de grande facilitismo”

Foto:Goncalo Rosa da Silva

Quanto chegar o momento certo, António Costa tentará “libertar-se dos seus colegas de coligação”, diz Poiares Maduro, pois sabe que estes têm políticas europeias muito diferentes das do PS.

Miguel Poiares Maduro, ex-ministro-adjunto de Pedro Passos Coelho, está preocupado com a estagnação económica do país. Segundo o social-democrata, Portugal “cresce, pouco, mas cresce, o desemprego tem diminuído e algumas classes da nossa população tiveram alguma recuperação de rendimentos. É natural que a sensação mais comum no país seja otimista.” Mas talvez o Governo de António Costa não esteja a acautelar todos os cenários possíveis.

“A minha preocupação imediata é com o risco de estagnação económica e, sobretudo, de não tirarmos suficiente partido daquilo que é o potencial crescimento que qualquer país tem após um período de ajustamento forte como nós tivemos. Agora, não excluo a possibilidade de um segundo resgate vir a ocorrer”, assume em entrevista ao jornal online “ECO” esta segunda-feira. Um segundo resgate no curto prazo “não é muito provável”, diz, “porque, neste momento, o clima na União Europeia é de grande facilitismo em relação a todas as situações nacionais.”

“Há uma grande permissividade relativamente a um conjunto de matérias dos Estados-membros, porque se entende que a União tem um tal défice de popularidade, de apoio e legitimidade social e popular que a melhor forma de lidar com isso — não estou certo que seja necessariamente assim, mas é a forma que as instituições europeias neste momento estão a seguir — é a de não entrar em conflito com os seus Estados-membros. Por isso acho muito pouco provável que a União Europeia venha a tentar disciplinar um país como Portugal. E, nesse contexto, vai dar-lhe o máximo de margem possível. Ao mesmo tempo, vai procurar garantir que Portugal não esteja numa situação que obrigue ao aparecimento de uma nova crise com que a Europa tenha de lidar”, justificou.

Execução do Portugal 2020 e o défice

Para Poiares Maduro, o défice público só foi cumprido devido a um corte no investimento. “E isso teve consequências ao nível do Portugal 2020, porque há uma contrapartida que tem que ser assegurada pelo orçamento nacional e que este Governo não estava em condições de assegurar”, apontou.

“O défice foi fundamentalmente cumprido do lado da despesa, por via de uma redução do investimento e com algumas medidas extraordinárias. O Governo teve uma estratégia que, fundamentalmente, assentou em conseguir satisfazer as preocupações imediatas de um conjunto de grupos sociais que foram a base eleitoral desta maioria”,disse.

Crise na coligação PS, BE, PCP e Verdes?

Quanto chegar o momento certo, António Costa tentará “libertar-se dos seus colegas de coligação”, diz Poiares Maduro, pois sabe que estes têm políticas europeias muito diferentes das do PS.

“A leitura que faço é que a expectativa de António Costa é ter eleições a curto-médio prazo, depois de um conjunto de políticas destinadas a obter ganhos políticos mas que, do meu ponto de vista, não são sustentáveis a longo prazo. Chegou ao limite. Digamos que este será o último ano antes de terem de ser tomadas decisões importantes quanto a um conjunto de matérias. Sendo essa a circunstância, penso que quererá desencadear uma crise política, enquanto tem popularidade”, explicou.

Esta crise, segundo o professor universitário, poderá ocorrer ainda este ano. “A crise política está dependente de António Costa a conseguir sem ser visto como o responsável dessa crise política. Porque o facto de não ter ganho as eleições tem um reflexo importante na forma como pode criar uma crise política. Se for percebido como tendo sido ele o responsável da crise política, toda a gente se vai voltar a recordar do António Costa que ascendeu ao poder daquela forma, um pouco matreira e não muito séria. E aí terá um custo a pagar”, disse.

António Costa irá, então, “procurar criar condições para que o BE e o PCP lhe ofereçam essa crise política”. “Eu não sei é se o BE e o PCP, — nesta altura não me parece — , têm interesse em oferecer essa crise política”.