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Cristas: “Passos entendia que podia haver um risco de eleições legislativas antes das autárquicas”

Alberto Frias

Para a líder do CDS, Paulo Portas tem qualidades suficientes para suceder a Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa já a terá tratado com um misto de condescendência e de arrogância no Parlamento e ler as memórias de Cavaco Silva não é uma prioridade para breve

Passos Coelho não quis apoiar a candidatura de Assunção Cristas à capital. Existia um acordo nas bases dos dois partidos, mas ao nível direção isso não foi possível. “Havia a questão do Porto e havia a questão de apresentar um candidato a Lisboa. Mas, para mim, as questões nunca foram particularmente claras. Para mim, é claro que não havia uma vontade”, conta Assunção Cristas, presidente do CDS, esta terça-feira, na segunda parte de uma grande entrevista dada ao “Público”.

O ex-primeiro-ministro estava com a cabeça nas legislativas, antes das autárquicas. Passos esperava que o Governo de António Costa caísse. “Em final de agosto, quando falei com o dr. Passos Coelho sobre a questão das autárquicas e a questão de Lisboa, creio que o nosso quadro de cenário político era muito diferente. Eu estava já convencida na altura que as eleições autárquicas iam ser o primeiro ato eleitoral nesta legislatura. E, portanto, que o primeiro desafio para CDS e PSD seriam as autárquicas – e que era aí que tínhamos de apostar tudo, nomeadamente em candidaturas fortes, que pudessem tirar câmaras ao PS. O quadro e o cenário de pensamento do dr. Passos Coelho não era esse: na altura, em final de agosto, ele entendia que podia haver um risco de eleições legislativas antes das eleições autárquicas. Ele até, enfim, me felicitou pela coragem de avançar para Lisboa, mas via aqui algum risco – de como é que faria, se houvesse eleições legislativas antes das eleições autárquicas. Mas isso, para mim, era uma questão perfeitamente arrumada na minha cabeça – achava que não ia haver”, conta Assunção Cristas.

Quinta-feira e outros dias

Há literatura e literatura, e o livro de memórias do ex-Presidente da República Cavaco Silva não faz parte do topo de prioridades de Assunção Cristas para os próximos tempos. “Quando tiver algum tempo, sendo certo que o meu tempo livre é muito limitado e eu tenho vários livros de literatura que estão à espera de tempo. Portanto, o que eu lhe posso dizer é que não está no topo das minhas prioridades, embora tenha ido ao lançamento e visto aquilo que veio na comunicação social”, diz.

Paulo Portas, o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa?

“Creio que, se ele um dia entender regressar à vida política ativa, terá de fazer um caminho nesse sentido. Acho que não é impossível, de forma nenhuma. É muito novo e pode dar muito ao país. Não sei se isso está nos seus planos, mas certamente terá de mudar de vida para que isso um dia venha a acontecer”, assumiu a líder do CDS-PP.

O legado de Paulo Portas

Já passou um ano desde que Paulo Portas saiu da liderança do CDS, depois de ter sido um dos rostos mais presentes do Executivo de Pedro Passos Coelho, e que Assunção Cristas assumiu a liderança do partido. Entretanto, o partido já aceitou a nova líder “completamente” e não há saudades de Portas, garante Cristas.

“Já na altura, quando foi o congresso e quando dei a volta pelo partido em preparação da moção, pois só a escrevi depois ter estado com todas as estruturas, senti que as pessoas estavam muito gratas a Paulo Portas por tudo o que tinha dado ao CDS e ao país durante tantos anos. Mas não estavam propriamente chorosas no sentido de acharem: ai que pena que se vai embora e devia continuar. Não era esse o sentimento do partido na altura. Era: concluiu um ciclo, respeitamos, aceitamos e vamos para a frente. Agora acho que o partido está muito mobilizado, empenhado na construção das eleições autárquicas”, diz.

Ao nível político, a presidente do CDS faz questão também de separar os novos métodos de trabalho que impôs no partido, desde a saída de Portas. “O que temos procurado fazer é trabalhar intensamente temas”, revela.

No tempo da liderança de Paulo Portas, “não sei se fazia assim tanto. Não tanto. Teve momentos. Acho que se sistematicamente formos comparar sessões legislativas e pensar quantas vezes e quantos temas o CDS sistematicamente trouxe ao debate, temas tratados sob várias dimensões, com profundidade, com propostas agregadas para os vários temas, pensando num ano de trabalho, deve ser difícil encontrar anos tão produtivos quanto este”, explica ao “Público”.

Questionada ainda pelo matutino se o António Costa a trata por vezes com um misto de condescendência e de arrogância, Assunção Cristas diz que sim. “Por várias vezes, já senti isso, mas eu prefiro ignorar e passar por cima. Se entro em questões que acabam por levar a uma dimensão mais pessoal, para não dizer de género, acho que estou a ir por mau caminho. Essas coisas que não me agradam pessoalmente procuro minimizá-las”, conta.

[Texto atualizado às 9h08]