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Assunção Cristas: Paulo Núncio foi “a pessoa que mais dificuldade teve em participar no anterior Governo”

Alberto Frias

Segundo a líder do CDS, Passos Coelho só abordou “vagamente” no Conselho de Ministros o facto de o Banco Espírito Santo poder ser um problema. O tema nunca foi discutido em “profundidade”, frisa

Um exemplo de idoneidade e de trabalho. Assunção Cristas, presidente do CDS, volta a defender Paulo Núncio, o ex-secretário de Estado responsável pela não divulgação das transferências para paraísos fiscais, entre 2011 e 2015, em entrevista ao “Público” esta segunda-feira.

“A pessoa que mais dificuldade teve em participar nesse Governo foi porventura Paulo Núncio, porque se viu a fazer o contrário do que muitas vezes tinha defendido no que diz respeito à redução da carga fiscal. Recordo-me – e para o CDS foi especialmente doloroso e para o Paulo Núncio foi certamente superlativamente doloroso – de ter defendido sempre uma diminuição dos escalões do IRS para baixar impostos e, depois, ela ter acontecido para aumentar impostos. Foi muito doloroso”, diz Assunção Cristas.

“O Conselho de Ministros nunca foi envolvido nas questões da banca”

Tal como já tinha afirmado anteriormente, Cristas volta a frisar que Pedro Passos Coelho só falou “vagamente” no facto de o Banco Espírito Santo poder vir a ser um problema. “O assunto BES nunca foi discutido em Conselho de Ministros com profundidade”, revela ao “Público”. Na “substância”, o ex-primeiro-ministro nunca envolveu os ministros nessa discussão. Questões relacionadas com a Caixa Geral de Depósitos, o BES ou o Banif nunca foram tema de discussão nas reuniões semanais às quintas-feiras.

“Recordo-me de uma vez ter sido referido a propósito dos doze mil milhões para a banca. Lembram-se, na altura o líder do PS, [António José] Seguro, sugeriu que se utilizasse uma parte desse dinheiro para injetar na economia. Lembro-me de, uma vez no Conselho de Ministros, o primeiro-ministro ter dito: não faz sentido fazermos isso porque não sabemos se não pode vir a aparecer algum problema. Lembro-me vagamente de ter referido que o BES poderia ser um problema. Acho que foi por aqui. Não posso garantir tudo porque, de vez em quando, havia um ou outro Conselho de Ministros em que eu não estava, por razões de representação do ministério. Mas discussão em profundidade do problema do BES, das soluções, das alternativas, das hipóteses, isso nunca aconteceu”, explica.

Para Assunção Cristas, esta exclusão de temas nunca foi algo estranho. “Fazia parte da visão do primeiro-ministro. O primeiro-ministro sempre teve uma visão que é esta: a banca e o pilar financeiro do resgate eram tratados pelo Banco de Portugal (BdP), que tinha as funções de supervisor independente, e o Governo não deveria meter-se nessas questões”, diz.

A ex-ministra da Agricultura do Governo de Passos Coelho revela ainda que assinou o decreto para a resolução do BES por email, a pedido da ministra das Finanças, quando estava de férias.


CGD: “Discordo em absoluto de uma tentativa de partidarização dos nomes no Banco de Portugal”

O CDS não era favorável à recondução de Carlos Costa na liderança do Banco de Portugal. Mas feita a nomeação, Carlos Costa deve ser intocável, defende Assunção Cristas.

“Há um ambiente ruidoso que não é favorável e que não reforça a instituição BdP. Como acho que o país vive e deve viver com instituições fortes, o nosso caminho deve ser o de procurar encontrar ideias e propostas que melhorem a acção dos reguladores, nomeadamente reforçando o Conselho Nacional de Supervisores Bancários, dando-lhe uma estrutura rotativa, um orçamento participado pelas várias entidades que fazem parte do sistema, com um secretariado, com um secretário-geral, para garantir uma melhor articulação entre todas as entidades. Mas discordo em absoluto de uma tentativa, que me parece bastante evidente, de partidarização dos nomes no BdP. Acho que isso é negativo para as instituições e, certamente, não contará com o CDS nessa matéria”, diz a líder centrista.

As diferenças (e semelhanças) de Passos e Costa

O discurso do ex-primeiro-ministro e do atual andam sempre em volta da mesma coisa: o défice. Para Assunção Cristas, isto não seria um problema, caso não tivesse a campanha eleitoral de Costa prometido o contrário.

Os resultados alcançados em 2016 também não a surpreendem. “Não me surpreendem porque percebi o que o Governo estava a fazer. Percebi isso de forma mais ou menos clara no Parlamento, mas de forma muito clara conversando, por exemplo, com a comunidade de embaixadores que está em Lisboa, com quem o primeiro-ministro comunica e lhes diz o que vai acontecer. E o que é que lhes diz de forma muito clara que não diz no Parlamento com a mesma clareza? ‘Não se preocupem, porque vamos cumprir o défice e até vamos superar as nossas metas porque temos o instrumento das cativações e controlamos a despesa através das cativações.’ Têm um conjunto de ferramentas que é limitado, mas têm uma que é eficaz: cortar a torneira aos ministérios. Portanto, não há, não se faz. Isso vê-se no investimento público, que caiu brutalmente para números nunca antes vistos. Aliás, o PCP e o BE nem dizem uma palavra sobre essa matéria. E as despesas correntes foram limitadas”, diz na mesma entrevista.

Venda do Novo Banco

Será a Lone Star um bom candidato para ficar com o Novo Banco? Assunção Cristas não se compromete. “Não faço ideia porque não conheço a proposta, o BdP é que a conhece. Se eu, no Governo, não conhecia estes detalhes da supervisão e da ação do BdP, muito menos agora na oposição”, garante.