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Vítor Bento: “Para o PS, este era o momento ideal para ter eleições”

M\303\201RIO CRUZ / LUSA

Sem a ajuda prestada pelo Banco Central Europeu em 2011, aquando da crise financeira, é provável que as finanças portuguesas ainda hoje estivessem em muito mau estado, diz o economista

Não é só Francisco Assis, eurodeputado do PS, que vê na conjuntura atual o momento certo para António Costa convocar eleições legislativas antecipadas. Para o economista Vítor Bento, a turbulência à esquerda em volta da descida da TSU é um sinal de que foi “esgotado o consenso redistributivo em que se baseou a ação até aqui” – o acordo do PS com PCP, Verdes e Bloco de Esquerda.

“Daqui para a afrente não há mais para reverter ou distribuir e, desse ponto de vista, receio que a sustentabilidade da coligação se torne mais difícil, e que as diferenças de conceptualização do mundo entre os dois lados, o PS e os partidos mais à esquerda, comecem a acentuar-se e a tornarem-se mais difíceis”, diz Bento em entrevista ao “Público”, esta quarta-feira.

Uma forma de precaver mais momentos de instabilidade futura seria o PS convocar eleições legislativas. “Para o PS, provavelmente, este seria o momento ideal para ter eleições. Começa a aproximar-se da maioria absoluta, não creio que a atinja, mas a possibilidade de se tornar o principal partido no Parlamento muda a relação de forças que hoje existe e diminui a sua dependência da componente mais à esquerda. Poderá ter de continuar a fazer alianças, mas já não depende de dois partidos, o que significa que fica com mais flexibilidade e que pode, inclusivamente, optar por fazer o que sempre fez no passado, que é negociar apoios à esquerda e à direita pontualmente”, explica o economista.

Durante os anos da troika, houve um tratamento “imprudente” do setor financeiro

“Hoje é claro que houve um tratamento imprudente da componente financeira durante o programa de ajustamento”, frisa Vítor Bento nas declarações ao “Público”. Segundo o economista, o Governo de Passos Coelho escondeu uma “crise bancária que existia” e deixou que rebentasse fora de tempo, em vez de lidar com ela.

Motivos para tal? “Não sei. Se calhar valia a pena que isso fosse apurado. Pode ter sido um excesso de fé, de que o problema se resolvia por si, de que se déssemos tempo ao tempo os bancos acabariam por internalizar essas perdas com a sua própria rentabilidade”, diz.

“Era preferível que [a crise] tivesse sido enfrentada durante o período em que se estava sob a troika, em que se tinha a cooperação dos parceiros para a sua solução e, portanto, poderia ter havido um envolvimento maior, uma co-responsabilização na sua resolução”, explica.

Sem a ajuda do BCE…

Sem a ajuda prestada pelo Banco Central Europeu em 2011, aquando da crise financeira, é provável que as finanças portuguesas ainda estivessem em muito mau estado, defende Vítor Bento.

“Dificilmente as taxas conseguiriam estar no nível em que estão, e a tensão que isso criava, quer direta quer indiretamente, seria grande. Também é verdade que a crise da zona euro foi muito mal gerida e agravou mais os problemas do que os resolveu. Tratámos uma infeção com anti-inflamatórios, aliviaram-se as inflamações, mas o germe da infeção mantém-se”, analisa.

Tal como em entrevistas anteriores, o economista volta a defender que se deveria ter encontrado uma solução sistémica para a crise financeira que assolou a Europa. “A zona euro nunca olhou para a zona de uma forma sistémica. Olhou para a crise, não como uma crise geral, da responsabilidade do conjunto, mas como uma soma de crises individuais, e tratou-as de forma individual, esquecendo os efeitos sistémicos que tinham. Portanto, desse ponto de vista, não resolveu, e isso continua a ser uma vulnerabilidade”, diz.