Siga-nos

Perfil

Expresso

Revista de imprensa

Catarina Martins: “Qualquer país europeu que se leve a sério deve estar preparado para o fim do euro ou para sair do euro”

Luís Barra

Para a líder do Bloco de Esquerda o Novo Banco deve ser nacionalizado, mas isso não quer dizer que fique para sempre nas mãos do Estado. As PPP de construção podem continuar, para já. O BE não quer descer a TSU, mas há alternativas

Portugal não pode ficar dependente da Europa para reestruturar a sua dívida pública: veja-se o que aconteceu à Grécia, com a Alemanha a recusar-se a abrir o tema da reestruturação da dívida, aponta Catarina Martins, líder do Bloco de Esquerda, em entrevista ao “Público” esta segunda-feira. “Qualquer país europeu que se leve a sério deve estar preparado para o fim do euro ou para sair do euro”, defende.

Para a líder do Bloco, Portugal “não deve limitar a sua economia ou destruir a sua capacidade produtiva em nome de uma moeda, que é um problema e não um instrumento da economia”. Mais: “Acho que não há ninguém na Europa que hoje aposte muito na sustentabilidade do euro”, diz.

Catarina Martins sustenta a tese de que eventualmente será necessário avançar com a reestruturação unilateral da dívida. “Achamos que não há outra forma. Nós gostaríamos que houvesse. (...) O que o BE diz não é que não era bom que houvesse uma solução europeia, é que temos de ser sérios, olhar para a correlação de forças que existe e compreender que, se ficarmos à espera de uma solução europeia, podemos ficar em maus lençóis”, revela Catarina Martins.

“Não estamos a fazer tiro ao acordo de concertação”

O Bloco de Esquerda está contra a descida da Taxa Social Única (TSU), como já é público, mas isso não quer dizer que tenha começado um período de profunda divergência para com o Governo de António Costa. Segundo Catarina Martins, o BE não está a “fazer tiro ao acordo de concertação social” alcançado com as empresas e está mesmo disposto a passar medidas que substituam o chumbo da redução da TSU.

“Reconhecemos que há empresas com imensas dificuldades. E que para proteger a capacidade produtiva do país e o emprego deve haver acordos em que o Governo arranja soluções para essas empresas. Mas aí é preciso ver onde estão os maiores problemas das empresas. As empresas em Portugal, principalmente as de alto consumo energético, têm uma factura de energia muito superior à das suas congéneres europeias. Tudo o que seja para descer essa factura de energia tem seguramente o apoio do BE”, diz.

A líder do Bloco de Esquerda entende ainda que o “Governo foi imprudente” ao avançar para a descida da TSU, considerando que o PSD manteria a mesma posição do ano passado e poderia garantir o acordo. Culpa do Governo, diz Catarina, mas também estranheza pela posição dos sociais-democratas: “É um pouco incompreensível que, em democracia, um partido vote contra tudo o diz defender, como o PSD neste caso”, sublinha.

“Não conheço nenhuma nacionalização que seja permanente”

Mesmo que os fundos norte-americanos deixem de exigir garantias públicas, o Bloco de Esquerda prefere que o Novo Banco seja nacionalizado, revela Catarina Martins ao “Público”.

“Não existe nenhuma oferta que proteja o país de perdas futuras. Ainda por cima, a resolução foi de tal forma mal feita pelo próprio Banco de Portugal – a primeira e a segunda – que nós temos processos de litigância que são feitos, porque foram protegidos certos credores em detrimento de outros”, diz.

Mas isso também não quer dizer que o Novo Banco fique para sempre nas mãos do Estado. “Eu não conheço nenhuma nacionalização que seja permanente, nem nenhuma privatização que seja permanente. Eu até olhava para o BES, que foi nacionalizado, privatizado e nacionalizado outra vez. E, portanto, a democracia é isso: uma decisão em cada momento”, revela.

PPP. Uma “base minimal” de acordo

Há parcerias público-privadas (PPP) de construção de hospitais e há PPP de gestão de hospitais. Num Portugal ideal, de acordo com o programa do Bloco, nenhuma das duas existiriam, mas não sendo ainda possível alcançar esse patamar de acordo com o Governo, as primeiras a eliminar serão sempre as parcerias público-privadas de gestão, diz Catarina.

“Não queremos PPP novas, temos dito ao Governo que somos contra, e há PPP de construção que estão em vigor. A proposta que fazemos ao PS, neste momento, é uma proposta minimal que é sobre a gestão dos hospitais – e aproveitando que os contratos estão a chegar ao fim e os podemos reverter para a gestão pública sem nenhuma litigância, sem nenhum custo para o Estado, nada. É uma decisão que não vai contra o programa do PS”, explica ao matutino.

Para a bloquista, os privados “não trouxeram nada para os hospitais”. “Foram buscar os seus gestores ao SNS, foram buscar tudo ao SNS, não deram nada. Tudo o que fizeram foi tirar know how ao SNS para os seus próprios hospitais privados, tirar lucro, naturalmente, porque lhes foi remunerado o trabalho de gestão ao longo deste tempo.”