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Augusto Santos Silva: “Devemos respeitar a Rússia como o que ela é”

MIGUEL A. LOPES / Lusa

Não respeitar os russos foi um erro “que os americanos chegaram a cometer”. A Rússia não é só uma potência regional: “é um membro permanente do Conselho de Segurança”, frisou o ministro dos Negócios Estrangeiros, em entrevista ao “Diário de Notícias” esta quinta-feira

A Rússia foi uma dor de cabeça ao nível mundial em 2016. E no próximo ano a situação não deverá melhorar, especialmente com a proximidade que se avizinha entre Vladimir Putin e Donald Trump. “Devemos respeitar a Rússia como o que ela é”, diz Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros, em entrevista ao “Diário de Notícias” esta quinta-feira.

Para o governante, criar mais tensões será um erro crasso. “Os russos entenderam - não vou discutir se bem ou mal - que o Ocidente não os tratou de forma digna na sequência do fim da Guerra Fria. E grande parte da política interna do presidente Putin tem que ver com a sua visão soberanista, não é? De restaurar a soberania territorial da Rússia e de restaurar ou procurar restaurar o prestígio internacional da Rússia”, diagnostica Santos Silva. Ou seja, a Rússia tem o ego ferido.

Não respeitar os russos foi um erro “que os americanos chegaram a cometer”. A Rússia não é só uma potência regional. “A Rússia é um membro permanente do Conselho de Segurança. Basta isso para perceber que é um grande ator do sistema mundial”, frisou o ministro dos Negócios Estrangeiros.

Outros destaques da mesma entrevista

Sobre o Brexit

“A primeira coisa absolutamente essencial é que o Reino Unido clarifique a sua posição. Porque o Reino Unido continua a dizer que quer a maior proximidade possível da União Europeia - entenda-se, integração no mercado único europeu - e, ao mesmo tempo, controlar o seu fluxo migratório. E essas duas coisas são impossíveis ao mesmo tempo. Quem aceita as três liberdades de circulação de capitais, de bens e de serviços no mercado único tem de aceitar também a quarta, a liberdade de circulação de trabalhadores. O Reino Unido, até agora, ainda não clarificou essa posição.”

Sobre o desempenho de Hollande na presidência francesa

“Creio que o desempenho do presidente francês foi suficientemente negativo para ele próprio ter compreendido que não tinha condições para se recandidatar e que a sua renúncia era a decisão que mais ajudava o Partido Socialista.”

Sobre Bernie Sanders

“O que Sanders disse e diz, nos Estados Unidos, é tipicamente a social-democracia nórdica. É centro-esquerda puro. Só que nos Estados Unidos, dado o contexto, é uma coisa completamente diferente, porque Sanders não diz metade do que o Corbyn diz. Mas, portanto, na família do Partido Socialista europeu há essa posição que, numa frase, poderia caracterizar-se assim: é preciso assumir que a social-democracia teve o seu tempo e que nós agora temos de radicalizar a social-democracia, puxando-a mais para a esquerda.”

Sobre os Estados Unidos da América de Donald Trump

“É de esperar que os Estados Unidos venham a ter uma posição menos favorável ao comércio internacional, menos favorável ao engajamento no multilateralismo do engajamento nas alianças político-militares transatlânticas, menos preocupada em valorizar regimes democráticos face a regimes autoritários.”

Sobre as reinvidicações populistas na praça pública

“Em relação àquelas vozes que, no âmbito da minha família política, dizem que é preciso incorporar as preocupações que os populistas exprimem, já disse o que pensava: julgo que incorporar essa agenda é a pior maneira de proceder.”