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Caso dos Comandos. Exército faz autocrítica ao calendário do curso

Mortos. Dylan da Silva e Hugo Abreu, os dois militares que morreram durante o curso de Comandos

tiago miranda

Conhecidas as conclusões da Inspeção Técnica Extraordinária ao 127.º curso de Comandos, que vitimou mortalmente Hugo Abreu e Dylan Silva em setembro

O curso 127 dos Comandos foi antecipado cerca de um mês devido à reposição dos feriados e a um conjunto de regras e normas que acabaram por nunca existir na prática. Esta é uma das conclusões da Inspeção Técnica Extraordinária ao Curso de Comandos, feita pelo Exército, e divulgada esta terça-feira pela TSF.

O curso foi antecipado para 3 de setembro, tendo o treino mais exigente, conhecido por 'Prova Zero', sido realizado no dia 4. Só que nesse domingo as temperaturas no Campo de Tiro de Alcochete (o local da prova) atingiram os 40 graus, contribuindo para as mortes de Hugo Abreu e Dylan Silva, ambos de 20 anos, vítimas de um "golpe de calor". Vinte e um instruendos foram assistidos durante aquele dia na tenda médica, que não tinha ar condicionado.

O Regimento de Comandos pediu a antecipação com base no "Referencial de Curso" e na "decisão do Governo de repor os feriados" e com "justificações centradas em razões administrativas/logísticas que devem ser reavaliadas" quando afetam a calendarização dos cursos.

A investigação interna decorre paralelamente com o inquérito do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa e Polícia Judiciária Militar, e que fez nove arguidos no caso, todos em liberdade.

De acordo com esta Inspeção Técnica Extraordinária, os cursos de Comandos estavam a ser feitos sem um documento (o "Referencial de Curso") que desde 2013 devia definir, por exemplo, de forma clara, a estrutura do curso dado aos instruendos.

Este referencial, que foi definido pelo Exército com uma nova metodologia desde 2013, nunca foi aprovado para o curso de Comandos. Apenas existia um "perfil de formação", aprovado em 2002, claramente desatualizado e sem a metodologia de 2013.

Uma Inspeção Geral Ordinária (da Inspeção Geral do Exército) feita ao curso em 2009 já "enfatizava" que a falta de referenciais de curso era um "vazio grave em termos de responsabilidades a atribuir no caso de acidentes graves".

O novo relatório agora concluído acrescenta, também, que sem esses referenciais aprovados "não se pode afirmar que os cursos estão testados".

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