Siga-nos

Perfil

Expresso

Revista de imprensa

Maria Luís: Governo “não está de todo” a resolver os problemas da banca, mas sim a criar um “enorme ruído”

Marcos Borga

Questionada sobre os relatórios trimestrais da Comissão de Auditoria da Caixa Geral de Depósitos de 2014 da Inspeção-Geral das Finanças “atrasados” por seis meses, que vieram a público esta semana, a ex-ministra das Finanças não assume qualquer culpa e negau que esses documentos tivessem qualquer importância ou o atraso no despacho “relevância”

O Governo de António Costa “não está de todo” a resolver os problemas da banca, defende Maria Luís Albuquerque em entrevista ao “Jornal de Negócios” esta quinta-feira. Pelo contrário, acrescenta a ex-ministra das Finanças, está a criar um “enorme ruído”, uma “enorme instabilidade”.

“O caso da gestão da Caixa dá para escrever um manual do que não fazer. Está tudo errado. Sendo o maior banco do sistema, isto tem obviamente repercussões negativas para todo o sistema financeiro. Portanto, os problemas não estão a ser resolvidos”, diz.

Para a ex-ministra, sempre que se faz uma pergunta ao Governo sobre a Caixa e que exige “alguma transparência” a resposta é de que se trata de “problemas do passado”. “Acho no mínimo irónico que este Governo liderado pelo Dr. António Costa fale de problemas do passado. Porque os problemas do sistema financeiro que nós encontrámos em 2011, de facto são de um Governo de que ele próprio fazia parte, que é o Governo do Engenheiro Sócrates. Mas, de facto, a herança do sistema financeiro era pesadíssima. Nós não tínhamos um banco a precisar de capital, tínhamos todo um sistema financeiro que deixou de ter acesso a mercado. Comparar a situação em que este Governo recebeu o sistema financeiro com a situação em que nós o recebemos em 2011, não tem comparação”, acusa.

Olhando para trás, Maria Luís Albuquerque nega também que tivesse sido possível para o PSD e o CDS tomarem decisões diferentes das que tomaram no que toca à banca, principalmente devido aos “condicionalismos” que existiam.

“Neste momento faz todo o sentido a Caixa ser pública”

O jornal “Público” noticiou esta semana que entre março e setembro de 2015 o Ministério das Finanças, na época liderado por Maria Luís Albuquerque, teve pelo menos dois pareceres da Inspeção-Geral das Finanças relativos a relatórios trimestrais da Comissão de Auditoria da Caixa Geral de Depósitos de 2014, que mostravam um agravamento das imparidades do banco público. Questionada sobre esta revelação pelo “Negócios”, a ex-ministra das Finanças não assume qualquer culpa.

Nega mesmo que esses documentos tivessem qualquer importância. “Absolutamente nada a mais do que aquilo que são documentos públicos, conhecidos, e que aliás foram tornados públicos no início do ano de 2015. Já são conhecidos há muito tempo”, diz.

Nem o atraso de seis meses no despacho dos documentos teve relevância. “Não há nenhum problema de transparência, não houve nada que tivesse de ter um seguimento, um follow-up, alguma coisa que não fosse já conhecida não só do Governo mas até do público em geral, por força da publicação das contas e dos respetivos relatórios”, responde.

Mais: para a social-democrata, “seguramente o que quer que por lá se passasse [na Caixa] não era urgente”, porque já passou um ano desde o que Governo de António Costa entrou em funções “e até agora não se passou nada” e “ainda não incumpriu nada”.

Questionada ainda sobre o futuro da CGD e sobre qual seria a posição do PSD quanto a uma abertura do capital do banco do Estado a privados, a ex-ministra das Finanças diz que a Caixa deveria ser “um esteio de estabilidade no sistema financeiro” e que neste momento, tendo em conta o processo de recapitalização em curso, “faz todo o sentido que a Caixa seja pública”.

“Associar resultados de eleições autárquicas a questões nacionais é que já me parece abusivo”

Com o Governo, o PS e António Costa num pico de popularidade em várias sondagens, o PSD já prepara baterias para as eleições autárquicas. Mas o resultado dessas eleições, dentro do partido, pode ter mais do que consequências locais. “Nós partimos sempre para as eleições para as ganhar, por todas as razões, pela dimensão do partido, pela importância do partido, pela tradição e implantação autárquica que temos. Mas associar resultados de eleições autárquicas a questões nacionais é que já me parece abusivo. Aconteceu uma vez um primeiro-ministro demitir-se alegadamente por causa disso, mas dificilmente é um precedente que tenha de ser seguido noutras circunstâncias”, diz a ex-ministra do Governo de Passos Coelho.

Maria Luís Albuquerque nega ainda que o facto de PSD e CDS não estarem a governar se tenha transformadou num “trauma”. “Não é a questão de estar ultrapassado, porque é um trauma que não existiu. Se me perguntar se foi surpreendente? No momento em que ela se materializou, a surpresa já não era grande, tinha acontecido umas semanas antes. Mas isso não é um trauma e é clarificador. Está absolutamente clarificado quais são os resultados possíveis na sequência de uma eleição”, diz.