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“Se me perguntarem se o dinheiro é do Sócrates, eu acho que não”

Michel Canals, gestor de fortunas na Suíça (USB e Akoya), foi detido em 2012 no âmbito do processo Monte Branco, indiciado por crimes de fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais. Em entrevista à revista “Sábado”, diz não acreditar que os €20 milhões do empresário Carlos Santos Silva pertençam a José Sócrates. E garante que Duarte Lima é inocente

Michel Canals, gestor de fortunas na Suíca (34 anos na Union de Banques Suisse e depois na Akoya) foi detido em 2012 no âmbito do processo Monte Branco, indiciado por crimes de fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais. Ao longo de nove páginas de entrevista, que fazem capa da revista Sábado desta semana, revela ao jornalista António José Vilela que ficou surpreendido pela identificação de Carlos Santos Silva – de quem foi gestor de contas na UBS até 2006/2007 – como testa de ferro de José Sócrates, de quem seriam os 20 milhões de euros depositados na Suiça.

"Surpreendeu-me muito, porque se o gestor ou o banco tivessem tido a mínima dúvida de que o dinheiro era de Sócrates, o banco teria fechado a conta de imediato. Eu nem sabia que ele conhecia o José Sócrates", explica. "Se me perguntarem [o MP] se o dinheiro é do Sócrates eu acho que não. Acho que o dinheiro que estava na UBS não era do Sócrates. Mas se eles puderem provar isso, eu também fui enganado."

O nome de Canals cruza-se com outros envolvidos em casos judiciais. Foi também gestor das contas na USB de Duarte Lima, com quem tem uma relação próxima. Testemunha de defesa no processo em que o ex-deputado do PSD é suspeito de ter burlado Rosalina Ribeiro – e também acusado do seu homicídio – em cinco milhões de euros, provenientes da herança Feteira, Michel Canals garante que "a justiça está enganada". "Eu falei várias vezes com a Rosalina, ela disse-me que eram honorários. Só falei com eles uma ou duas vezes juntos, uma vez foi em casa dela, em Lisboa, e a outra já não sei se foi na casa de Duarte Lima ou na Suíça. Se ela tivesse tido um problema com Duarte Lima, ter-me-ia dito".

A lista de clientes continua. Armando Vara e a filha Bárbara (indiciados na Operação Marquês), a família Violas, Stefano Saviotti. No decurso da entrevista confirma ainda encontros (sem dizer se eram ou não clientes da UBS) com Américo Amorim e Alexandre Soares dos Santos. Depois da sua detenção, não se encontrou com mais ninguém. "Nem tentei. Essas pessoas não querem falar comigo e eu não quero criar-lhes problemas", diz.

O percurso

Nascido em Chiasso, uma aldeia na fronteira da Suiça com a Itália, com cerca de oito mil habitantes e 25 bancos, Michel Canals entrou para a UBS com 17 anos. "Era uma aldeia muito pequena com milhares de funcionários bancários". Chegou a Portugal em 1982. Já na altura, diz, havia muitos portugueses com dinheiro na Suiça. "Portugal tinha tido a revolução em 1974 e muita gente fugiu com o dinheiro. Muitos portugueses abriram lá contas e até os filhos destes empresários, que também viveram a revolução, ficaram com medo e muitos anos depois abriram lá contas", explica à "Sábado".

Esteve seis meses no Banco Português do Atlântico, depois rumou ao Brasil e de regresso à Suiça. Em 1998, na agência onde trabalhava, passou a ser um dos gestores responsáveis pelos clientes portugueses de private banking, concentrado em Zurique e Genebra. Eram "talvez uns 20 ou 30", clientes que depois subiram "bastante". "Acabámos por ser cerca de 20 pessoas a trabalhar só com o mercado português", conta. "Entre 1999/2009 tornou-se um mercado muito interessantes para a UBS."

Sobre os milhões geridos, Canals não fala. "Não vou dizer, era muito, muito dinheiro". E sobre o número de clientes que acabou por ter em carteira também não. "Eram muitos, milhares", angariados através de convites para torneios de golfe, concertos, jantares ou lugares de camarote para os jogos do Euro 2004. As quantias chegavam por transferência bancária – nunca em malas, como chegou a ser referido no processo Monte Branco – e eram depositadas em contas offshore. Os extratos só eram entregues em mão. E havia três perguntas que nunca fazia aos clientes: a sua religião, a orientação sexual e se pagavam impostos. "Eu vou arriscar perder os clientes devido a uma pergunta estúpida?!"

Michel Canals saiu da UBS em 2009 e criou a gestora de fortunas Akoya, com Nicolas Figueiredo, Hélder Bataglia, Álvaro Sobrinho, José Pinto e Ana Bruno. Um dos clientes que transitou da UBS foi Amílcar Morais Pires, o braço-direito de Ricardo Salgado no BES. "Sim, o Ric era o Ric"

Em 2012, o gestor foi detido em Lisboa. "Foi uma surpresa e fiquei em estado de choque durante algum tempo".