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Santos Silva: “As similitudes com a atmosfera europeia dos anos de 1920 e 30 são flagrantes, com a mesma confusão de valores”

MIGUEL A. LOPES / Lusa

Quando “a emoção tende a prevalecer”, a população torna-se um alvo fácil de políticos demagogos, defende Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros, num texto de opinião publicado esta terça-feira no “Público”

Há motivos de preocupação na Europa e no mundo, após a vitória de Donald Trump nas eleições norte-americanas e o sucesso do Brexit há três meses. “As similitudes com a atmosfera europeia dos anos de 1920 e 30 são flagrantes, com a mesma confusão de valores, a mesma incapacidade de valorizar alternativas ao centro, o desprezo pela convivência pacífica, a pulsão extremista, a mesma busca de um qualquer grupo que possa expiar todas as culpas”, escreve Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros, num texto de opinião publicado esta terça-feira no “Público”.

Para o governante, só há uma solução possível: é preciso caminhar para o centro e abandonar os extremos políticos. Mas o diagnóstico que Santos Silva faz não é favorável a uma recuperação rápida. Os eleitorados, neste momento, mostram um “enorme mal-estar” e “exigem respostas simples para questões complexas e medidas imediatas e parcelares para acudir a problemas que são sistémicos”, aponta. Quando “a emoção tende a prevalecer”, a população torna-se um alvo fácil de políticos demagogos.

É, então, preciso fazer alguma coisa e não cometer “o erro histórico dos revolucionários europeus dos anos 30, pregando a indiferença perante as alternativas ao centro, como se fossem equivalentes e igualmente inúteis ou nocivas”. Afinal, há um “péssimo” cenário à vista: o triunfo da retração nacionalista e a hegemonia do populismo.

O ministro dos Negócios Estrangeiros aponta, ainda no mesmo texto de opinião, três modos de agir para com este problema. “Ou repetimos [o passado]. Ou incorporamos a agenda populista, traindo os nossos valores na crença ilusória de assim esconjurarmos o mal (quando, de facto, o legitimamos e fortalecemos). Ou então defendemos os nossos princípios e falamos a nossa linguagem, e a partir daí mobilizamos aqueles que continuam a ser as forças mais dinâmicas: os jovens, os educados, os profissionais, as classes médias e trabalhadoras”, escreve.

Destas três opções, “só a terceira opção faz sentido”, diz Santos Silva, pois só ela pode “construir uma resposta capaz aos sentimentos e situações de abandono”, sem que ao mesmo tempo não fique em causa “o quadro ético e jurídico em que se fundam a democracia e o Estado de direito”. Só assim se poderá conduzir “um combate político e cultural determinado contra as pulsões extremistas e as tentações populistas, nacionalistas e xenófobas”.