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“Polémica sem sentido”, assim olha Augusto Mateus para o imbróglio da CGD

Tiago Miranda

O principal problema do sistema financeiro português “não pode ser o vencimento ou entrega de declaração de rendimentos. É absolutamente ridículo”, considera o ex-ministro da Economia

"Uma polémica sem sentido", assim olha Augusto Mateus para o impasse criado à volta do salário do presidente da Caixa Geral de Depósitos (CGD) António Domingues, e da declaração da entrega de rendimentos dos administradores. Para o ex-ministro da Economia do primeiro Governo de António Guterres, esta discussão mostra até que ponto "o país está longe da discussão real dos seus problemas", quando a prioridade deveria ser pôr a CGD a dar lucros, afirma em entrevista conjunta do "Jornal de Negócios" e Antena 1.

Para o fundador e presidente da consultora Augusto Mateus & Associados, estão a ser discutidos "aspetos secundaríssimos", afirmando que "o que devia estar a ser discutido é como a capitalizar a CGD e qual o papel do banco na reconstrução e na revitalização do sistema financeiro". É certo, admite, que a discussão sobre o vencimento auferido pelo presidente do banco, de 30 mil euros mensais, pode ter cabimento "num sentido geral de que perante os factos dos últimos anos de falta de ética na gestão empresarial, nomeadamente no sector financeiro, existam regras para o sector público e privado, de transparências, de decoro". Contudo, o principal problema do sistema financeiro português "não pode ser o vencimento ou entrega de declaração de rendimentos. É absolutamente ridículo", considera.

Augusto Mateus considera que "tem de haver gestores que não sejam confrontados com outras regras que não sejam aquelas que se aplicam a todos os gestores". Para o ex-governante, as empresas de capital público devem ter administrações independentes e regras “que não as tornam muito diferentes”.

Na opinião de Mateus, os esforços devem concentrar-se na resolução do problema financeiro do país, algo que ainda está “muito longe” de acontecer. “Apostámos tudo na recapitalização do sector financeiro e nada na recapitalização da economia real, o que é uma medida tonta e absolutamente insustentável. Tal como apostámos quase tudo no aumento da oferta educativa e na capacitação dos portugueses e quase nada na transformação das empresas para poder absorver esses portugueses mais educados”, alerta.

Augusto Mateus explica que, do ponto de vista da economia, “devíamos estar a apostar tudo no médio e longo prazo, no investimento e não no consumo, devíamos estar a estimular a poupança, devíamos estar a estimular um desendividamento progressivo do Estado, das famílias e das empresas, que é manifestamente excessivo”, ressalva.