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Podia ter sido feito um segundo resgate em 2014, diz especialista do FMI

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JOS\303\211 SENA GOUL\303\203O

Nicolas Véron, um dos peritos a que o Gabinete Independente de Avaliação do FMI recorreu para avaliar a atuação do próprio Fundo durante a recente crise em Portugal, diz que a troika não aprofundou ou forçou análises independentes à solidez do sistema financeiro em 2014 por não querer hostilizar o Banco de Portugal, mesmo tendo essa entidade já acumulado “lapsos de supervisão” nos casos BPP e BPN

Se se tivesse feito uma análise mais rigorosa à banca portuguesa na parte final do resgate financeiro, talvez tivesse sido necessário um segundo resgate em 2014. Esta é uma das conclusões avançadas por Nicolas Véron, do think tank Bruegel, um dos peritos a que o Gabinete Independente de Avaliação do FMI recorreu para avaliar a atuação do próprio Fundo, em entrevista ao “Diário de Notícias” desta sexta-feira.

Em 2014, a “perceção” dos técnicos do FMI era de que as necessidades da banca iriam exigir um novo resgate à economia, eliminando a possibilidade de se conseguir uma saída à irlandesa - a saída limpa. “Dada a vontade de fechar o resgate e com o menor financiamento possível”, as necessidades da banca foram parcialmente ignoradas, diz Nicolas Véron. Em 2011, a troika emprestou 78 mil milhões a Portugal, dos quais 12 mil milhões foram alocados para a banca.

Por que é que isto aconteceu? O Banco de Portugal não quis que essa função saísse “das mãos das autoridades portuguesas”, lembra o especialista ao "DN". Esta escolha em particular terá criado um efeito em cadeia que seria impossível de prever: se os técnicos do FMI “tivessem insistido em avaliações independentes aos balanços dos grandes bancos, e se tivessem colocado mais ênfase aos problemas do sector, as quedas tardias do BES e do Banif talvez pudessem ter sido mitigadas ou até evitadas”, diz.

De acordo com Nicolas Véron, as razões que levaram a troika a não aprofundar ou forçar análises independentes à solidez do sistema financeiro foram pruridos ideológicos, o desejo de não hostilizar o Banco de Portugal”, mesmo que esta entidade tivesse acumulado já “lapsos de supervisão” nos casos BPP e BPN, e o “elevado status social” de alguns banqueiros.

"Vários dos entrevistados salientaram que os principais banqueiros tinham um elevado status social em Portugal, pelo que o FMI não teria grande apoio caso questionasse a solidez das instituições”, conta o especialista ao matutino.