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Yazidis do Iraque “estão a ser vítimas de genocídio”

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Quando os peshmerga curdos libertaram Sinjar em novembro de 2015, encontraram valas comuns com dezenas de corpos de yazidis

John Moore

É a primeira vez que a ONU acusa diretamente o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) de cometer este crime de guerra contra a minoria cristã. Ainda há pelo menos 3200 yazidis sob o jugo do grupo extremista no Iraque e na Síria

Investigadores das Nações Unidas acusaram pela primeira vez o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) de estar a cometer genocídio contra os yazidis no Iraque e na Síria, dizendo que muitos membros do grupo religioso que foram capturados pelo grupo extremista estão a ser alvo das “mais horríveis atrocidades”, homicídio e escravatura.

Num relatório divulgado na quinta-feira à noite, a ONU diz que o Daesh tem como objetivo apagar completamente as comunidades yazidis do mapa e que não esconde esse objetivo. “Eles não fazem segredo da sua intenção de destruírem os yazidis de Sinjar e esse é um dos elementos que nos permitiu concluir que as suas ações correspondem a genocídio”, refere a comissária Carla Del Ponte. Neste momento, pelo menos 3200 membros da minoria cristã continuam sob o jugo do Daesh, um grupo jiadista sunita que vê os yazidis como adoradores do diabo que têm de ser mortos ou escravizados como punição.

O genocídio “ainda a decorrer” começou em agosto de 2014, quando militantes do grupo assumiram o controlo do noroeste do Iraque, ocupando a região de Sinjar, onde a maioria da população yazidi mundial está concentrada.

Os rapazes com mais de 12 anos e os homens foram separados das mulheres e raparigas e todos os que se recusaram a converter ao Islão “para destruir a sua identidade como yazidis” foram abatidos a tiro, refere o relatório da Comissão Internacional de Inquérito sobre a Síria. As mulheres e raparigas assistiram aos homicídios antes de serem transferidas à força para outros locais do Iraque e mais tarde da Síria, com a maioria delas ainda cativas e sujeitas “a horrores quase inimagináveis”.

Milhares de mulheres e meninas, algumas com apenas nove anos de idade, estão a ser tratadas como “despojos de guerra”, sendo vendidas em mercados de escravas ou “oferecidas” como “presentes” a militantes do Daesh. “As sobreviventes que escaparam ao cativeiro na Síria descrevem como aguentaram violações brutais, muitas vezes numa base diária, e como foram punidas com espancamentos graves e muitas vezes violações em grupo quando tentaram escapar”, revela o comissário Vitit Muntarbhorn. Outras vítimas ouvidas pela comissão dizem que muitas mulheres já cometeram suicídio para escaparem aos abusos.

Avisando que o genocídio “continua”, o chefe da comissão especial da ONU Paulo Pinheiro diz que não pode haver impunidade para crimes desta natureza e sublinha que o Conselho de Segurança tem de levar esta situação na Síria ao Tribunal Penal Internacional (TPI) ou estabelecer um tribunal ad-hoc que julgue os responsáveis pela “miríade de violações” da lei internacional ao longo dos últimos cinco anos de guerra civil no país.