18 de abril de 2014 às 9:03
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Revisão Constitucional ou Estratégia Política?

A proposta de revisão constitucional de Passos Coelho não serve, ao contrário do que se pensa, para mudar a Constituição. Serve apenas para lhe abrir o espaço político necessário para o próximo Governo que liderará.
Adolfo Mesquita Nunes

É um facto que a proposta de revisão constitucional apresentada pelo PSD vai cair em saco roto e que vai obrigar o país político, que adora desviar-se para a ideologia quando não consegue lidar com a realidade, a entrar numa discussão virtual. Mas se é verdade que a proposta de revisão constitucional do PSD está condenada ao fracasso, nem por isso é verdade que ela seja estéril, como afirmou Pedro Silva Pereira. 

Ao lançar ideias de revisão constitucional que são percepcionadas pelo país como sendo liberais, ainda que muitas das vezes o não sejam, Pedro Passos Coelho constrói uma interessante posição política. É certo que tal espaço em nada interfere, afinal de contas, com a Constituição (e é por isso, talvez, que Passos Coelho as apresenta); mas a verdade é que lhe oferece um espaço político de que vai precisar a breve trecho. 

Sendo quase certo que o ciclo socialista está a encerrar-se, e sendo inevitável que o PSD lidere a próxima alternativa de governo, a proposta de revisão constitucional, ainda que venha a chumbar no parlamento, e porque prévia às eleições legislativas, conferir-lhe-á legitimidade, sem ter de ganhar a batalha da Constituição, para as reformas que são urgentes, com ou sem Constituição. Passos Coelho poderá então dizer, e com razão, que o povo votou sabendo onde estava a votar.  

A proposta de revisão constitucional do PSD é bem menos ambiciosa do que se pensa, é verdade. Mas o que é relevante politicamente é aquilo que se pensa que é. E nesse sentido, o PSD obriga o CDS a posicionar-se mais cedo do que pretendia, obrigando-o a entrar (ou a recusar a entrada) na alavanca aparentemente reformista que se avizinha. O PSD sabe que precisa de um amplo consenso no espaço político da direita, não podendo correr o risco de ter um partido à direita a lucrar com as dores das suas reformas. Com esta proposta, o PSD obriga o CDS a definir-se: ou o CDS faz parte da superação do Estado tentacular que temos (e disso será acusado) ou faz parte da teia de conservação do mesmo (questão diferente é saber se Paulo Portas está condenado a morder o isco, mas isso fica para outro dia).

Passos Coelho tem, por isso, pouco a perder. É certo, já o sabemos, que ouvirá todos os insultos calados na palavra neoliberal. Mas nos estado em que as coisas estão, Passos Coelho sabe que será o próximo primeiro-ministro, com ou sem tais insultos, e está mais interessado em ganhar espaço político para o seu governo do que propriamente em entrar em conversa com os guardiões do Estado Social (questão diferente é saber se conseguirá fazer o que diz pretender, mas isso, também isso, fica para outro dia).
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Revisão Constitucional ou Estratégia Política?
Não é lícito afirmar assim tão categoricamente que Passos Coelho será o próximo Primeiro Ministro. As monumentais asneiras de Sócrates, tudo indiciam para que isso possa vir a acontecer, mas o nosso José, o Primeiro, tem muito mais a ver com o José Mourinho, ao nível da perspicácia e estratégia, do que Coelho com a Magia de um Copperfield.
Na hora de votar os portugueses são muito mais cautelosos do que muito boa gente julga. O PSD teve a amarga experiência de Soares Carneiro contra Eanes, após uma maioria absoluta da antiga AD, e os Portugueses contrariaram-na, o PSD meteu um Santana Lopes à força como Primeiro Ministro, depois de ter levantado a fasquia da competência e seriedade com Durão Barrosos e Manuela Ferreira Leite, e levou um banhada eleitoral do PS de Sócrates.
Há um PSD escondido que não se revê neste PSD de hoje e de ontem no curto prazo. Esse PSD fugiu para o CDS, algum até para o BE. Não vale a pena virem acenar com os desequilíbrios do Estado Social, que os há, porque os Portugueses vão agarrar-se a ele, nem que seja até à sua extinção.
E isso acontece apenas porque no fundo ninguém acredita na Justiça que temos, nos Políticos que temos, nos Sindicatos que temos, nos Empresários, etc...
O sentido de Estado desta gente que acabei de citar, é igual ao “apetite” de um larápio olhando para a montra de uma ourivesaria!
Jovens janízaros ( da Escola de Chicago )
)

Os jovens janízaros que tomaram conta do PSD estão prestes a alterar a matriz social-democrata do partido e a criar uma formação que nada tem a ver com a origem. Pois bem, para além da confusão que se está a instalar nas bases do partido, constituído basicamente por pessoas que ao longo dos anos se habituaram a ver o partido lutar pela melhoria das suas condições de vida, nomeadamente na saúde, na escola e nas reformas, vê agora o partido a ser elogiado pelos patrões, que enxergam no horizonte a possibilidade de despedir sem limite nem escrúpulo.
Não sei como se pode ser politicamente tão néscio em tão pouco tempo !
. Ps .Para além das presumíveis jogadas maquiavélicas ou submissão a interesses instalados as eleições ganham-se com votos e os eleitores não devem estar disponíveis para liquidar o chamado estado social.

Bettencourt de Lima
1 - Assalto, legitimidade e caudilhos.


O PSD de Sá carneiro, Mota Amaral , Cavaco Silva e milhares de militantes foi, e momentaneamente ainda é, de matriz social-democrata, como agora se convencionou dizer. Foi, envolto nesta matriz, que este partido cresceu e se tornou alternativa de governo em Portugal. Assim foi e ainda é. Esta matriz está configurada nos respectivos estatutos. Qualquer militante que se proponha dirigir este grande partido deve, e está obrigado, a se conformar com esta realidade.

2-
Já sofreu fortes ataques no sentido de mudar a raiz social-democrata, mas nunca tão intensos como agora, dirigidos por um grupo que se situa á direita do CDS, e, pretende tomar por dentro este grande partido e deslocá-lo para a direita liberal.

Para isso terá de mudar os estatutos, submeter a respectiva aprovação aos militantes e denominar o partido de outra forma, por exemplo, porque não, PLD - Partido Democrata Liberal.

Se isto acontecer será legitimo, não será é a mesma coisa.

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