Ao aterrar ontem em Port-au-Prince, capital do devastado Haiti, a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton enfrenta o maior desafio da sua vida: socorrer as vítimas do sismo de terça-feira passada, repor a ordem e ajudar a reconstruir o país.
Na sequência das primeiras trocas de impressões com o que resta do executivo haitiano foi decidido decretar o recolher obrigatório para tentar conter os grupos de saqueadores armados que começaram a actuar a coberto da escuridão.
"Vou ouvir o presidente Perval, de forma a garantir que a resposta dos Estados Unidos seja a que se espera. Estaremos com o Haiti, hoje, agora e sempre", disse a senhora Clinton. Ouvindo-a, Jean Bernard, funcionário de um serviço público cujas instalações desabaram, comenta, "isto foi o nosso 11 de Setembro".
Bomba atómica no Haiti
Bernard tem alguma razão. Foi como se uma bomba atómica tivesse arrasado a capital haitiana. Não há radiações mas o resultado prático não seria diferente se aqui tivesse caído um engenho atómico. Ou tivesse havido uma guerra convencional durante meses ou anos. À Natureza bastaram 45 segundos para produzir esta destruição apocalíptica.
Hillary Clinton confirmou o que ontem relatávamos na nossa crónica: o Governo não manda em nada e o único local onde há lei e ordem é no aeroporto. Uma lei militar e sob comando norte-americano que já causou os primeiros atritos quando a torre de controlo proibiu a aterragem de um avião militar francês com ajuda de emergência.
A secretária de Estado norte-americana também confirmou a avaliação da ONU: trata-se do maior desastre natural da história moderna. Será também o maior dos desafios para a maior potência mundial.
Várias cidades na capital
Hoje em Port-au-Prince coexistem várias cidades. Uma é a cidade dos mortos. Há cadáveres por todo o lado: às esquinas, à volta dos hospitais, à roda das valas comuns. Se já foram enterradas milhares de vítimas mortais há, pelo menos outras tantas à espera de uma sepultura decente. Quanto gente morreu? 50.000 para os optimistas. 100.000 para os pessimistas. E 200.00 para o ministro haitiano do Interior.
A segunda cidade é a dos refugiados. O perímetro urbano transformou-se num gigantesco acampamento ao ar livre. A Cruz Vermelha estima em 50.000 o número de pessoas refugiadas no Campo de Marte. Outras centenas de habitantes que só conseguiram salvar a roupa que traziam no corpo acumulam-se junto ao palácio presidencial.
Outros tantos fizeram sua improvisada morada o Centro Olímpico. Vi grupos de jovens a lavarem-se completamente nuas ao pé de uma das fachadas laterais. Quem quer saber do pudor numa altura destas? O campo de futebol junto ao consulado dominicano é outro refúgio improvisado. Haverá quatro dezenas de mega-acampamentos como estes na cidade, ocupando todos os espaços abertos.
O apocalipse haitiano
A terceira cidade é a do apocalipse. É difícil avançar com uma estimativa da quantidade de edifícios destruídos, entre habitações, centros comerciais, escolas, hospitais ou outros serviços públicos. Mas não é exagero falar em 50 a 70 por cento de edifícios destruídos. E os que ficaram de pé também não parecem muito sólidos.
O desafio do presidente Perval é acudir a estas três cidades. Não sabe é como. E também não parece ter meios para tal.
No país vizinho, a República Dominicana, o presidente Leonel Fernandez promove 2ª feira a Cimeira Mundial sobre o Haiti, com representantes dos EUA, União Europeia, Brasil e outros países latino-americanos.
Mas isso é amanhã. Hoje em Port-au-Prince há, apenas, quatro camiões-cisterna para distribuir água aos sobreviventes. Joasil Ronald, chefe dos bombeiros fala-nos com a solenidade de um presidente: "Agora que o povo recebeu água, está bem". Mas muda de tom para continuar e fazer um apelo: "Agora vão querer comida e não a temos. Ajudem-nos!". As pessoas ainda não se refizeram do susto mas a fome é má conselheira. "Quando acabarem de enterrar os mortos e começarem a sentir a barriga vazia vão agitar-se. E quando os haitianos se começam a agitar, meu Deus", profetiza o funcionário público sem edifício Jean Bernard.
Violência ganha força
A onda de violência parece ganhar força. As ruínas de um centro comercial foram saqueadas por centenas de pessoas. Lojas e armazéns na Avenida Dessalines tiveram a mesma sorte. Nalguns locais os saqueadores foram repelidos a tiro pela polícia. Uma polícia que também parece ter perdido o norte. Três agentes, visivelmente nervosos, que guardavam o que restava da Gran Via, agarraram um rapaz que passava. Um deitou-o ao chão, enquanto os outros dois vigiavam à volta. Assestou-lhe uma tremenda coronhada, tirou-lhe tudo o que tinha nos bolsos, dinheiro incluído, e voltou a bater no rapaz indefeso, estendido no chão. O jornalista estava a assistir a um roubo que, de resto, não devia ser o primeiro, a avaliar pelos olhares furiosos lançados de longe por estes homens que só por ironia se podem chamar agentes da ordem.
Milagre em Turgeau
Mas há quem honre a farda que veste. Villandry, um bombeiro francês, parece o Homem Aranha a saltar e deslizar pelas montanhas de escombros. "Nas últimas 24 horas recuperámos 20 cadáveres mas ainda pode haver gente viva lá debaixo", diz ele, enquanto gatinha, ajudado por outro bombeiro, no meio dos montes de betão e ferros retorcidos. Não há mais ninguém para os ajudar.
Como esta há 26 equipas internacionais de salvamento a lutar contra o tempo. Às quatro norte-americanas deve-se a salvação de 15 pessoas do meio dos destroços. Pequenos milagres, no meio da tragédia.
Mas o maior milagre, mesmo para quem não seja crente, é o do bairro de Turgeau. A igreja desabou, mas o Cristo do altar-mor ergue-se crucificado do meio dos escombros. Simboliza a ressurreição do país ou o seu martírio?